Março 2003


Etapa finda, uma múltipla convivência de sentimentos, confusão que me invade. Felicidade por mais um degrau cumprido em direção a meu objetivo que nem sei exatamente qual é. Estou vivendo aos tropeços, não sei onde isso me levará. Acabou-se os longos planos com caminho traçado, sou os sonhos finais com estradas tantas que tenho medo de me perder neste emaranhado de opções que escolho. Seguirei assim, até cansar-me.

Dentro de mim mora um ser que me empurra – eu, ser imóvel, quase uma árvore – para coisas que não seriam imaginadas. Eu, tanta calma, aparência somente? Por que preciso sempre desta movimentação que me tonteia, me embriaga. Para a olhar? Eu observo-me dentro deste furacão de fatos, ações que este ser me coloca, tentativa de me fazer movimentar, olho-me placidamente recostada sustentando um ar blasé diante da vida. Resista.

Enfim, feliz, com as madrugadas reservadas para dormir, apesar da beleza do nascer do sol; com os encontros com os amigos, com as saídas nas noites de sábado, com os encontros familiares, com a vida inteira a minha frente. Finda uma etapa começa outra e as coisas que aprendemos, que vivemos estarão nas nossas memórias, bagagem até o fim de nossa eternidade, mesmo que perdidas as lembranças. Talvez… Mas não sei me despedir das coisas, dizer um adeus com saudades e abraços, calo-me e percebo quando o adeus já foi dado o que poderia ter feito. Uma das coisas que devo aprender é dizer adeus, até logo e olhar pra frente.

Ela está lá, do outro lado e olha para mim. Uma branca de olhos negros semicerrados com metade do rosto coberto pelos cabelos ondulados a altura dos ombros em completo desalinho. Veste uma camiseta azul, creio ser sua cor favorita. O nariz largo e os lábios grossos remetem uma descendência africana, os olhos longos lembram um pouco as índias, mistura.

Ela não sorri, não mexe, espreita-me. Ela, no fundo da sala, em frente a mim. Ela não tira os olhos de mim, sufocação. E eu, da janela, não consigo desviar meu olhar daquela mulher, de meio sorriso enigmático, a minha frente. Como está o céu? Como está a rua? Como estão as crianças dentro da sala de aula? Como estou? Meus olhos hipnotizados pelos dela, uma vida inútil até aquele momento de minha vida. Não posso nem olhar o restante da sala, só a parede ao fundo. Estou presa, irremediavelmente presa a um destino escolhido por ela. Quem é está feiticeira? Quem sou? E não consigo pensar em nada mais além daqueles olhos que chegam a minha alma.

Ao fundo sussurros são percebidos, pequenos barulhos que não chegam a uma consciência entorpecida por aquele olhar. Uma luz bate ao fundo, onde ela se encontra e, por trás de sua cabeça, um quadro negro sujo de giz a enfeitá-la. O que é ela? O que deseja de mim? Foi apenas um olhar e toda minha liberdade cessou, a minha vida mudou, prisioneira de mim.

Dia singelo, daqueles em que caminhamos com os pés descalços, sandálias na mão pela areia do mar. Com direito a água de coco diante do Pão de Açúcar, felicidade. Um tempo na correria, retorno à vadiagem, minha vida. Eu tornando-me eu a partir das coisas diárias como ir a uma livraria e passar horas até escolher um livro e depois fazer o mesmo numa loja de cds. Passar por uma sorveteria e escolher um sabor inusitado, experimentar. Andar a esmo pelas ruas, olhando para o outro e admirar as construções antigas. Telefonar para um amigo e poder perguntar, escutando sem pressa, como ele está. Viajar pelo futuro durante o percurso para casa, escutando uma música do Chico Buarque. Tomar banho com a porta aberta e conversar com minha mãe, lavar o cabelo e poder continuar a conversa. Almoçar sem pressa. Sentar em frente à janela e ver o céu lindo, as árvores num doce balanço. Sentir seu rosto ser tocado pela brisa, fechar os olhos e respirar profundo, vida.

Impaciência, inchaço, dores: sintomas de um mau dia. Mas amanhã tudo será diferente, o mais tardar depois de amanhã. Voltarei a ser eu mesma, sem estes inchaços na barriga, pés, seios; sem essas dores de cabeça, sem esta impaciência que me empurra a gritos diante de qualquer traquinagem infantil (e hoje elas foram tantas…) Ah, e as espinhas, pelo menos com a temperatura amena não apareceram tantas espinhas. Quando eu serei eu?

Hoje foi me exigido tanto, todo o meu sangue em suplantar a mim mesma, força. Todos os sentimentos exacerbados por um estado corporal. Uma amiga não aparece pela segunda vez, estou cansada de falar com meus amigos apenas por email ou telefone, quero vê-los. Parece que todos me abandonaram ou fui eu quem se isolou. A culpa é do tempo, a falta dele em detrimento de algo maior que me consome. Exagero? Hoje não é dia de coerência.

Vou para casa. O mundo está tão descolorido. É meu sono, não tenho olhado para ele com tanta atenção (não tenho nem me olhado). Eu, rodeada de obrigações tamanhas. O mundo rodeado de miséria. Envergonha-me ser humana. Época onde a sensibilidade é minha companheira e os arroubos freqüentes. Meu nome é impulso, meu nome é mulher.

Um pedaço pequenino de massinha azul que o menino corta em dois pedaços. O maior ele esfrega com as mãos fazendo algo semelhante a uma cobra e coloca a parte. Com o restante faz o mesmo. Coloca a maior na vertical e a menor, um pouco acima do centro, na horizontal, formando algo parecido a uma cruz. Está pronto o seu brinquedo que voa pelo espaço com auxílio de suas pequeninas mãos. E, o que achamos parecido com uma cruz, vira um fabuloso avião que atravessa o ar e pousa na imaginação de menino.

Com tinta amarela a menina desenha uma casa amarela de janelas vermelhas. Olha e percebe que falta algo. Pinta, então, sua casa com listras verdes, azuis, laranjas, rosas. Espera. Qual a cor da mobília? O sofá lilás, a estante roxa, o sinteco rosa com bolinhas gris. E entra com o vestido de festa da mãe e imagina seu quartinho de paredes brancas se transforma nesta casa. Coloca sua boneca, filha, naquela casinha pintada a guache, fabricada pela imaginação de menina.

O céu azul com nuvens branquinhas em formato, que minha mãe chamaria, de véu de noiva. O pôr-do-sol enche o céu de tons entre os alaranjados e amarelados. A brisa sopra meus cabelos, bagunçando-os, levando-os ao rosto. O mar à frente, ele todinho meu com a areia a perder de vista e eu, nada mais que um pontinho, junto à imensidão do oceano a frente. Lá no fundo uma névoa que toma forma aos poucos, o meu futuro. E por um relance me vejo, feliz. Sorrio. Imaginação?

Acordar. Dormir. Acordar. Entre um e outro, nada de novo ocorre. Todo dia um ônibus cheio, todo dia pessoas de mau humor logo pela manhã, todo dia trabalho, todo dia rostos cansados ao fim de tarde. Depois da angústia pelo fim de um amor, não sobrou nem o sofrer. A vida em uma pausa pelo desfecho de um momento, preparação. Toda uma espera pela montagem do palco para o próximo ato. Uma nova angústia, espera.

O céu cinzento, uma chuva que não pára de cair, um engarrafamento comum em dias como estes, o meu atraso: repetição do dia de ontem. Nada mudou? Todo dia sempre igual, como na música de Chico Buarque. Rotina. Compro uma revista na volta para casa, tentativa de manter minha cabeça nos problemas do mundo e meus olhos fora da paisagem sempre igual. Volta para casa. Escrever. Dormir.

Náusea. Abro a janela e respiro o ar fresco, profundamente. Lá fora, o tempo é triste. Vejo ao longe, o Pão de Açúcar encoberto, os prédios e as árvores sem o mesmo brilho. Todavia, as cores continuam lá, escuras, realçadas pela falta de luz incidindo diretamente, “chapando” a paisagem. E o verde das folhas parece mais forte, mais verde. Os prédios mais presentes, coloridos. Até a ausência do bondinho faz concentrar-nos nas montanhas. O dia não é igual…

Nuvens cinzentas tomam conta do céu, preguiçosa segunda-feira. E o mundo acordou devagar, mal-humorado, rabugento. Preguiça para acordar, preguiça para dirigir, preguiça do trânsito e todos chegam atrasados, inclusive eu. Foi apenas cinco minutos de um atraso do corpo, mas a alma, esta nem sei por onde anda. Passará o dia longe de mim. Acho que ela aproveitou o tempo e resolveu descansar, está dormindo ainda. E como eu posso viver sem uma alma, um dia apenas?

E a chuva chega, um tempo escuro que não lembra o Rio de Janeiro. A névoa encobre a pedra da Gávea, uma mancha branca. Nos apartamentos, as luzes fluorescentes pincelam a paisagem de um amarelado tom, segunda-feira fantasmagórica. A lenta chuva cai, os vagarosos carros andam e as crianças dormem profundo. E eu, aqui, nesta sala, olhando o mundo lá fora. Eu, vazio, um corpo. Nem choro, nem sorrio. Um nada de sentimentos e idéias. Inutilidade. Frivolidade.

Lá, do outro lado do oceano – o atlântico, este agigantado que hoje também se espreguiça em marolinhas, apesar da chuva – uma guerra se aproxima. Uns poucos decidem o nosso futuro. Talvez por isso o dia tenha acordado triste, desalmado.

Céu azul e mar calminho. Grãos de areia como cristal, árvores a beira-mar, árvores muitas árvores, entre elas muitos coqueiros de água docinha. A praia, nenhum peixinho se atreve a chegar (eu sei que tens medo de peixinhos), mas as pedras ao canto formam uma piscina onde os peixes ficam para serem olhados por ti. E será um sol de cinco horas, tardinha, e podes ficar no mar sem gritarmos a toda hora para vires ficar sob o guarda-sol. E sopra umabrisa, te refrescas, não tens frio.
Esperaremos a noite chegar e no céu escuro, porque não terá nenhuma luz por perto, veremos todas as estrelas de cada constelação. Será o mais belo espetáculo de estrelas. Dar-te-ei minha mão e não sentirás medo do escuro. Quase me esqueci! Logo mais tarde nascerá a mais bela lua cheia que já viste. Iremos para casa e ganharás o seu bolo de chocolate enfeitado com papel da Barbie (porque ninguém é perfeita) e roubaria da mesa todos os brigadeiros coloridos que desejares. E, todos juntos, desejaremos parabéns a ti.

Confusa! Esta palavrinha esclarece perfeitamente um estado de espírito. Este tumulto talvez não tenha nenhum motivo aparente, mas, por outro lado, esses estados de agitação sempre têm motivos. Talvez seja ansiedade provocada pela indefinição total do que acontecerá, recomeço. Busco respostas, mas apenas encontro uma gama variada de opções que me deixam paralisada diante delas. O que eu faço?

Há uma bagunça interna que não consigo arrumar. Eu estou diante dela com a vassoura na mão e diante da decisão, o que eu jogo para fora? Talvez seja mais adequando perguntar, o que eu guardo. E ando, ando em volta desta desarrumação que está no quarto meu; ando, ando e não consigo ordenar essas coisas. Acredito que elas irão me fazer falta, mas eu tenho a impressão que tenho que deixá-las porque senão ficarei no mesmo lugar, rodando por um quarto bagunçado.

Hesitante, corro e me tranco junto com essas coisas que são tão queridas. Elas fazem parte do que fui e separar-me está custando muito. Custando meu sono, minha sanidade mental, sacrifício, lágrimas e, principalmente, tempo. E, se eu jogasse tudo num saco e guardasse no armário. Porém o armário também está cheio, para fazer isso terei que me livrar dessas outras coisas, muito mais antigas, que nem me servem mais. Quero que elas continuem no mesmo lugar. Nada continua no mesmo lugar. Se até as galáxias não param quietas quem dirá este quarto.

O que eu faço? Dê-me a resposta que prometo seguí-la, sem perguntas. Esta? Não pode ser outra? Esta é estapafúrdia! Eu não posso me desfazer de tudo. Guardar? Também não é uma boa idéia. Eu sei que tenho que guardar algumas coisas e jogar outras fora, mas o quê? Este é o cerne da questão. O que guardo e o que jogo fora.
Por que o mundo não pára alguns instantes, enquanto decido o que fazer? Bem que o tempo podia estacionar ali na esquina até a hora em que não tivesse porque jogar ou guardar, então a questão se resolveria magicamente. Enquanto não acontece, decido (ou talvez não), esperar mais um dia que a bagunça se arrume.

As flores nascem no jardim agora quase verde. As folhas brotam nas árvores que há duas semanas atrás era um triste esqueleto. Os pássaros chegam, fazem seus ninhos, cantam suas canções. O sol, feliz, aparece mais vezes. E o dia, de tanto transbordar, se abre num calorzinho gostoso. O cheiro ao redor é levado pela doce brisa. Tudo ao redor é nascimento e felicidade.

Lá fora o som de crianças sorrindo e correndo pelos jardins que se esverdeiam ao raiar do amarelado astro-rei. Os insetos se aproximam, pequenas borboletas borboletando pelo ar. Os cachorros saem das casas carregados por donos-sorrisos que espalham good morning e hellos para todos os lados.

Contaminada, faço pequenos e grandes passeios enquanto planejo. O papel ainda não chegou. Como assim ainda não chegou!? Vai atrasado, mas a primavera, esta sim, chegou antes da hora para felicitar-nos pela coragem de enfrentar mais um inverno, para mim, o primeiro.

Agora, até ficar olhando na janela tem sabor diferente. E vou nesta alegria de primavera que me contamina e a tudo ao redor. As nuvens, elas estão preguiçosas, um dia aparecem no outro não. Ó senhora nuvem, vai descansar que o sol já está saindo!

Próxima Página »