E my rose me chama para ir a um show, um convite? Vejo como uma intimação em razão do abandono. E entre um pesar e uma felicidade estranhas, arrumo-me e saio de casa, mostrando ao mundo meu rosto não sobrevivente às orgias gastronômicas e ao sol. Com coragem vou. Fácil seguir sem um reflexo que posso chamar meu, caminho na ignorância de um corpo, um rosto. E entre as ruas escuras de bairros pelos quais não visitara em momento algum de minha vida, o ônibus viaja. A felicidade no nome de diversos rostos esquecidos em algum lugar do passado, uma viagem a tempos esquecidos, posso eu esquecer estes tempos de agora? Estes em que as lembranças vão arraigadas…
Multidão, gracinhas ditas – esquecidas no momento seguinte, calor de uma noite de verão em pleno outono. Espera, o artista em breve chegará. Uma espera doce e feliz; não sei o que as horas me reservarão. E ele adentra o palco, entre luzes e cores diversas, e canta. Percebo, então, a causa de meu espírito moribundo enquanto me preparava, ainda em casa, a um show dele, que gosto tanto. As músicas… trilha sonora de um amor que tento esquecer, mas de algum modo caminha por entre lembranças. E são tão profundas que passo a noite a cantar aos sussurros, mal saindo uma voz fininha, como se apenas isto tomasse todo meu ar.
E num bis, aquela música que cantaste ao telefone e dizias lembrar de mim, agora sou eu quem lembra de ti. O show acabou, mas essa dorzinha, essas viagens por tempos distantes, estas ainda persistem. Até quando?
Não sei, mas resolvi tomar uma atitude enquanto tomava meu banho, antes de ir para cama. Acordei, mais uma manhã e continuei a limpeza na minha vida, no meu quarto, nos meus pertences e joguei tudo na lixeira e de lá para o lixo mor… mas não o lixo do esquecimento; por pouco tempo, pensei.
E pode um amor assim acabar-se nestas lixeiras que vejo todo o dia, como o resto de comida de anteontem? Não se acaba num de repente, num deixar de ligar, num distanciamento sem motivo e, até aquele momento eu me perguntava qual era o motivo. É… eu não sabia o motivo… o que mais me incomodava era não saber o motivo de seu distanciamento. Porém, até saber disso, eu já desistira; porque não se pode pensar nisso tantos meses sem que se acabe abandonando o mistério, este homicídio por demais indecifrável.
E repentinamente, o encontro. Mais um daqueles onde nada é dito além de palavras, pensei. Surpreendeu-me, com a intenção de conversar. Não, eu não estou ouvindo isso! Quer explicar-se, quer desvendar o mistério, quer reviver o morto, conseguirá?
Talvez, o morto só esteja em coma. Caminho por entre as ruas da Tijuca. Estou com fome. Os ônibus, os carros, as pessoas, as ruas – tudo parece o mesmo. Então foi isso… Nada do que pensei, mas isso… E como ela, perguntava-me, o que eu fiz de errado? Apesar de saber que esta não era a pergunta certa. Um dia acorda-se, sem amor. E por que este dia ainda não tinha chegado para mim? Eu até pensei que sim, mas diante de sua mão estendida e suas palavras, essas que tanto ansiei para ouvir, diante disso, todas as minhas certezas abandonaram-me, no mesmo instante.
Então me amas… E o que me impede de caminhar além desta covardia de enfrentar o futuro, essa dor pelo próximo sofrer. “E quem pode imaginar o que vai acontecer a partir de agora?”, diz meu cérebro amigo que tanto precisei para decifrar a mim, a ele e todas idéias que adentram pela rocha, transborda, aos muitos. Talvez seja isso, eu não imagino e dói-me essas dúvidas todas, eu que sempre tento imaginar o próximo passo; eu, vivendo um futuro no presente; eu, pobre de mim que vou mudando, aos poucos. E tento, como tento viver um dia de cada vez, por mais difícil que seja.
Estás certa, minha amiga. Tiraste a poeira deste turbilhão e esclareceste o objeto principal; o que quero, o que sinto. O que acontecerá agora eu não saberei se não tentar. E sabes dizer, “tenhas pressa” porque o inverso para mim e catastrófico a ponto de passar o resto da vida pensando, o problema é que eu penso demais…
Concentro-me na questão, o que quero? O que quero, ó amiga, é ser feliz; como todos ao meu redor. O que sinto creio ser amor, adormecido, mas amor. E a decisão começa a desenhar-se.