Abril 2003


E my rose me chama para ir a um show, um convite? Vejo como uma intimação em razão do abandono. E entre um pesar e uma felicidade estranhas, arrumo-me e saio de casa, mostrando ao mundo meu rosto não sobrevivente às orgias gastronômicas e ao sol. Com coragem vou. Fácil seguir sem um reflexo que posso chamar meu, caminho na ignorância de um corpo, um rosto. E entre as ruas escuras de bairros pelos quais não visitara em momento algum de minha vida, o ônibus viaja. A felicidade no nome de diversos rostos esquecidos em algum lugar do passado, uma viagem a tempos esquecidos, posso eu esquecer estes tempos de agora? Estes em que as lembranças vão arraigadas…
Multidão, gracinhas ditas – esquecidas no momento seguinte, calor de uma noite de verão em pleno outono. Espera, o artista em breve chegará. Uma espera doce e feliz; não sei o que as horas me reservarão. E ele adentra o palco, entre luzes e cores diversas, e canta. Percebo, então, a causa de meu espírito moribundo enquanto me preparava, ainda em casa, a um show dele, que gosto tanto. As músicas… trilha sonora de um amor que tento esquecer, mas de algum modo caminha por entre lembranças. E são tão profundas que passo a noite a cantar aos sussurros, mal saindo uma voz fininha, como se apenas isto tomasse todo meu ar.
E num bis, aquela música que cantaste ao telefone e dizias lembrar de mim, agora sou eu quem lembra de ti. O show acabou, mas essa dorzinha, essas viagens por tempos distantes, estas ainda persistem. Até quando?

Não sei, mas resolvi tomar uma atitude enquanto tomava meu banho, antes de ir para cama. Acordei, mais uma manhã e continuei a limpeza na minha vida, no meu quarto, nos meus pertences e joguei tudo na lixeira e de lá para o lixo mor… mas não o lixo do esquecimento; por pouco tempo, pensei.
E pode um amor assim acabar-se nestas lixeiras que vejo todo o dia, como o resto de comida de anteontem? Não se acaba num de repente, num deixar de ligar, num distanciamento sem motivo e, até aquele momento eu me perguntava qual era o motivo. É… eu não sabia o motivo… o que mais me incomodava era não saber o motivo de seu distanciamento. Porém, até saber disso, eu já desistira; porque não se pode pensar nisso tantos meses sem que se acabe abandonando o mistério, este homicídio por demais indecifrável.
E repentinamente, o encontro. Mais um daqueles onde nada é dito além de palavras, pensei. Surpreendeu-me, com a intenção de conversar. Não, eu não estou ouvindo isso! Quer explicar-se, quer desvendar o mistério, quer reviver o morto, conseguirá?

Talvez, o morto só esteja em coma. Caminho por entre as ruas da Tijuca. Estou com fome. Os ônibus, os carros, as pessoas, as ruas – tudo parece o mesmo. Então foi isso… Nada do que pensei, mas isso… E como ela, perguntava-me, o que eu fiz de errado? Apesar de saber que esta não era a pergunta certa. Um dia acorda-se, sem amor. E por que este dia ainda não tinha chegado para mim? Eu até pensei que sim, mas diante de sua mão estendida e suas palavras, essas que tanto ansiei para ouvir, diante disso, todas as minhas certezas abandonaram-me, no mesmo instante.
Então me amas… E o que me impede de caminhar além desta covardia de enfrentar o futuro, essa dor pelo próximo sofrer. “E quem pode imaginar o que vai acontecer a partir de agora?”, diz meu cérebro amigo que tanto precisei para decifrar a mim, a ele e todas idéias que adentram pela rocha, transborda, aos muitos. Talvez seja isso, eu não imagino e dói-me essas dúvidas todas, eu que sempre tento imaginar o próximo passo; eu, vivendo um futuro no presente; eu, pobre de mim que vou mudando, aos poucos. E tento, como tento viver um dia de cada vez, por mais difícil que seja.
Estás certa, minha amiga. Tiraste a poeira deste turbilhão e esclareceste o objeto principal; o que quero, o que sinto. O que acontecerá agora eu não saberei se não tentar. E sabes dizer, “tenhas pressa” porque o inverso para mim e catastrófico a ponto de passar o resto da vida pensando, o problema é que eu penso demais…
Concentro-me na questão, o que quero? O que quero, ó amiga, é ser feliz; como todos ao meu redor. O que sinto creio ser amor, adormecido, mas amor. E a decisão começa a desenhar-se.

Uma praia toda minha e uma sensação de estar só no mundo. Não, não é um sentimento triste, é uma impressão ponderada. Eu sei que daqui a pouco, em horas próprias à maioria, as pessoas chegarão e eu até me enjoarei de ver tantas delas. Daqui a pouco alguém chegará, continuarei a sentir-me triste e alegre como me sinto todos os dias. Sensação de que o mundo é calmo e habitado por amantes da natureza que acordam de madrugada.

Quase nove horas. Quem conhece esta cidade sabe que as manhãs começam depois do meio-dia. E o sol ainda por entre nuvens, parece que também ficou se divertindo até mais tarde. E eu, do jeito que gosto, com a praia toda para mim e uma dezena de outras. E Cristal fotografando todos os ângulos. E minha câmera com Dani, no alto do morro, visitando uma amiga. De barraca estendida esperando, com o mar todo à frente e um nada a pensar além de que minha mãe está demorando. Nada a sério com toda esta pequenina ferradura verdinha, a minha frente. É… deixar o papel e o lápis e dá um mergulho…

Mundo de areia. Mundo família. Mundo mar. Essa preguiça toda e esse solzinho, medida certa, e uma felicidade de lembranças e presente. De repente tenho a família que quero, a melhor delas; os amigos mais queridos e esqueço todas as minhas neuras pré-menstruação. Um atraso providencial, aproveitar. Aproveitar o mar azul, as noites insones e os papos sobre futilidades. Qual a praia que vamos hoje? Qual o sabor que vamos escolher? Aproveitar e até viver, simplesmente viver sem um futuro além do almoço logo mais.

E Búzios, lindo, apesar de todas essas pessoas com uma aura sei-lá-o-quê. Não há multidão, apenas pessoas. Por que tento entender esta humanidade e suas “normalidades”? Que vive um mundo que não o meu apesar de freqüentarmos os mesmos lugares. O problema é esse, meu corpo e espírito selvagem que não vive sob regras tão rígidas. E, a minha frente, Bê pula as marolas, enquanto Dani nada ao longe. Eu, eu não abandono o lápis e o caderno. Mas sobre o que eu falava? Falava sobre o mar azul, a areia molhada pela maré cheia e do sol onze horas. Onze horas! Acho que já está na hora de ir a outro lugar…

Vazio, um nada a fazer, tardes preenchidas pelo vento. E eu que reclamava da falta de tempo, da correria enfrentada, agora me pergunto, o que fazer? Esperar respostas. Esperar, logo eu esperar… O que fazer enquanto isso?
E eu queria ao menos sentir alguma coisa. Eu, oca, consigo apenas viver olhando o computador à frente zapeando pelos canais sem parar em algum lugar. E uma música que me lembra alguém. Lembrança tênue. É esse nada a fazer, além de esperar. Que sina a minha, sempre esperando… um alguém, um objetivo, uma resposta, esperando.

Um mundo um tanto quanto cinza e a vida toda lá fora em movimento; cá estamos todos a espera da chegada. Aonde chegaremos? E olhamos lá fora, pela janela, na esperança que o destino chegue mais rápido. Meu pensamento não quer pensar, ele está com preguiça de se levantar depois de um sono tão profundo. É duro acordar e ver que o mundo é tudo novidade*, mas caminho, sim caminho… Os letreiros acesos brilham nesta noite nublada, o calor passou; agora, aquele homem olhando-me fixamente enquanto devoro um bombom.

Aqui dentro, uma mistura de sentimentos. Eu sou minha própria novidade, tantas coisas a acontecer, tantas atitudes impensadas. Caminhar… É tudo novidade, mas eu já conheço. Então volto a dormir que é pra ver se me esqueço, conseguirei? Caminho… Para algum lugar? Será que este ônibus me levará ao meu destino, ao encontro comigo, o meu eu amado. Caminho… Que o meu pensamento não quer pensar e para aprender eu vou ter que apanhar, pois só assim que o ser humano evolui, só assim serei o que eu nunca fui.

As batidas de meu coração, nervoso… pausado… fechado… parado… Felicidade meio triste que me invade, o tempo é tão velho e eu nem nasci. O tempo nunca passou e eu nem percebi. Mistura, todo um mix; passado, presente, futuro; este ônibus carrega tudo, todos. Não, que o meu pensamento não vai pensar, enquanto eu não fizer seu coração vomitar toda a consciência que não o deixa em paz com os mesmos padrões de séculos atrás, com as mesmas paixões por coisas absolutamente banais.

*trechos de Meu pensamento não quer pensar por Moska.

Parada, olhando de um lado a outro. Minha mãe, atrás, assustando-me com o mundo à volta; não faz isso, não faz aquilo. Meu padrasto chamando-me a atenção. Estradas, de um lado a outro estradas e não posso nem olhar as vaquinhas no campo ao lado, nem aquele lado com o belo pôr-de-sol ao fundo; somente a estrada, linhas tracejadas ou retas, placas, ande a direita, embreagem, acelerador, freio, seta para direita, seta para esquerda. O rádio? O rádio ainda não foi instalado. Agüentar o silêncio da estrada, quebrado pelos sons de motores e pelas vozes ao meu lado. E eu podia estar lendo o capítulo XXXII do segundo livro de Dom Quixote, faz 10 meses que eu o estou lendo, ou continuar a leitura do romance do Gabriel García Marquez ou ler um poema do Pessoa, qualquer coisa, mas aqui… dirigindo.

Eu não sou feita para ter um carro. Eu sou livre, de lugar algum, do mundo; pensamentos que andam soltos e não concentrados na próxima entrada, no destino. Não tenho um porto no qual estacionar. Eu viajo enquanto o carro ganha velocidade, pequena velocidade. E nunca tive o sonho de ter um carro, esse era o dinheiro para uma viagem de visita a uma pessoa distante, quem era mesmo? Passado, ela já é passado. Talvez seja essa a estranheza. Tudo aconteceu tão rápido, duma hora para outra meus sonhos mudaram e meu destino para um dinheiro economizado também.

Como podem meus desejos e sonhos mudar rapidamente? E a cada minuto um novo sonho, um novo desejo, com tamanha força eu piso no acelerador que nem percebo a velocidade com que atinjo meu objetivo. Eu, pessoa que caminho devagar, quase parando, sem pressa. Sobra-me esta recusa em aceitar este novo lugar onde me encontro. Saio do carro, pelo menos eu estacionei direitinho, daqui a pouco me acostumo com este novo lugar onde estacionei, daqui a pouco acostumei com esta nova vida.

Sonho meio da tarde é um belo sonho… Ainda mais um sonho feliz com alguém que eu amo. Pelo menos era isso que eu sentia no sonho, amor. A gente caminhava por um lugar paradisíaco, podia muito bem ser Búzios, Angra ou mesmo o Caribe. Não sei onde era. Vi-me feliz, abraçada a alguém. Quem era? Seu rosto não era identificável, em nenhum momento eu via seu rosto com clareza. Rosto do passado? Não, rostos passados sempre se apresentam. Era um rosto futuro ou minha imaginação, inconsciente a me pregar uma peça. Que belo engano…

Não tem problema. O sono já foi feliz. Estava muito cansada. O sonho só foi tempero a mais. Premonição? Inconsciente? Talvez esteja apenas preocupada com o fato de estar sozinha. Pela primeira vez um coração uno, então invento sucessivamente alguém. Será? Pode não ser verdade, posso estar me iludindo, mas prefiro acreditar na hipótese de premonição.

Fumaça. Corpos. Êxtase. Fazia meses que não saia a ver gente. Alegria expressada, protótipo da minha alegria controlada e a culpa é da bebida. E minha consciência a vigiar meus passos, não, ela não me larga, não sei se felizmente ou infelizmente, eu não consigo fazer nenhuma loucura-pilequinho, minhas loucuras-sãs.

Caminho feliz depois de tanto tempo controlando-me, presa pelas horas. Feliz porque estão comigo, meus amigos. E faladeira, eu precisava falar-me, incontrolavelmente ouvir suas vozes, a minha voz. É tão bom sair com vocês e me bate uma saudade do presente, eu já saudosista. Não importa o tempo, importa esta espera, tanto tempo de espera.

E espero com vocês, coisa feliz… E danço, danço todas as músicas que posso porque não sei quando as dançarei novamente. E escuto, e falo, e vejo, e vivo, principalmente, vivo todo este tempo de espera. Nada de grande acontece? Vida em casa? Queria que este Nada acontecesse sempre. Felicidade.

Uma tristezinha fininha, como as gotículas que caem neste instante sobre o rosto, melancolia. Dia entre preenchimento de formulários e filmes no vídeo, entre a cozinha, o quarto e a sala, pensar apenas. E o futuro, inóspito. E o passado, uma mistura de alegrias e tristezas, alegria de cores berrantes, tristeza por ser passado. Motivos não existem, é predisposição de um corpo circulando por este espaço a minha volta, pensar.

No sorriso da personagem relembro o meu, as mesmas esperanças, a mesma alegria transbordante, o mesmo não se importar com o mundo, deixa pra lá, a mesma crença na eternidade. Não, eu sei que terminou, mas. Medo, nunca mais sentir o mesmo, ser uno até o fim, não se sentir embriagada, não se entregar mais.

Não, é a madrugada, a culpa é da solitária madrugada de lembranças dos corpos, mãos, bocas unidas, hoje eremitério e voz embargada, sem nada a dizer além destas palavras, silêncio pensativo.