Maio 2003


Ela sorri à amiga porque ‘o que eu faço’ não era a pergunta a ser feita, mas ‘por que temos que fazer’. Desde que ele tinha dito aquelas palavras parecia que saíra da caverna. Então, ela pensava, não comandava nada, todo seu cérebro apenas codificava as ordens dadas por ele. Ela estava tão mal, sentiu-se presa pelo inexorável destino. Por que ele havia dito aquilo enquanto o que ela queria era viver uma vida normal, aquela anterior onde não pensava em nada daquilo.

Não! Aquela liberdade doía-lhe e desejava mesmo sua antiga dependência, porque ela não sabia o que fazer com esta liberdade. Mas a outra esperava uma resposta que ela não podia dar, algo tinha mudado e ela nada sabia sobre este mundo no qual acordara. Antes ela diria, faça isso ou não faça; agora ela nem sabia o que dizer porque estava concentrada na principal, por que tínhamos que fazer alguma coisa; por que não esperávamos simplesmente. Será que nasci para fazer isso simplesmente, será que seu objetivo era esse.

E qual era seu objetivo? Nunca fizera esta pergunta antes e vivia um dia após o outro. Mas agora que o conheceu vivia se questionando sobre isto. E sua amiga disse-lhe que era a pessoa mais sensata que conhecia, ‘de todos nós’. Como podia ser sensata, se ela soubesse dele não pensaria da mesma maneira. ‘Vou endoidecer! Estou ficando louca com todo este barulho’. Sorri-lhe novamente e diz faça isso, sem a mesma confiança de antes. E tudo o que ela queria neste momento é que as coisas voltassem ao que era antes dele.

Se pudesse voltar no tempo, voltaria? E se o tempo não existisse – não foi o que ele falara. Se o espaço não existisse, se as nossas escolhas não existissem, se a realidade não existe; como viver? Como viver sem confiar em nada que nos rodeia. Olha devagar, olha devagar, dizia-se. E se ela, a outra, notar que ela estava ficando louca. Não, ela era sensível demais para sobreviver aquilo, mesmo que a verdade, sem se destruir. Desintegrar-se-ia.

Respira fundo, pausadamente, enquanto escuta sua amiga falando sobre seus problemas. Problemas, quê problemas se nada existe. Ele estava enganado, todas estas pessoas eram a realidade. O cheiro da sala, as cores, o gosto de saliva, o peixinho no aquário, Rex com a língua para fora, o som do sorriso das crianças do lado de fora. Olha a amiga fingindo escutar, ela não percebe. Se isso não for realidade ela poderia fechar os olhos e… em frente ao mar, num passeio de carro, escutando aquela música.

Ingrata és. Porque viver em ti demanda uma falta de ética da qual eu abri mão. Desprezas seus filhos em detrimento dos tortos e de ti não sentirei nenhuma falta. Essa burrocracia que emperra-nos e não nos facilita correr. Precisa de mim presa a ti, obrigação. Não, a culpa não é sua. Foram estes outros filhos que a moldaram assim. E esta filha, não escutará esta filha? Porque sempre anda a complicar esta vida que carrego, sentindo-me inadequada por ser leal. E eu gosto de ti, aprendi a amá-la e sentirei saudades. Mãe ciumenta, mãe cruel.

Irei embora, com o coração apertado, voltarei? Eu nem sei se voltarei. Eu te amo, és linda. O que devias era ser mais humana comigo, com todos meus irmãos. Sabes ser carinhosa, abraça-nos. Ó, querida mãezinha eu sei que olhas por aqueles que mais necessitam, os tortos e tenta endireitá-los. Eu sei estou sendo má ao criticá-la tanto. Eu devia aceitá-la do jeito que és, eu sei. É que o dia foi difícil sempre há um que complica, inventaram regras impensáveis. Fala para eles mãe, escutam-te melhor que a mim. Mãe zelosa, mãe amiga.

E olhando agora estas curvas e tão belas… És muito nova, mãezinha. Ainda era uma criança quando nos teve e ainda aprendes, como eu, a viver esta vida. E já que acreditas nisso, pede a papai-do-céu para ser mais bondoso conosco. Eu queria era poder acreditar em nós, mas acredito na sorte. Ó, mãe, perdoe esta filha cruel. Eu é que sou cruel, contigo – por não aceitá-la – com meus irmãos. Assim, eu sou, mas sem deixá-la nunca de amar, mesmo quando raiva tenho. Mãe amada.

A cabeça vaga, o dia lindo lá fora e, agora que minha alma voltou enchendo-me tanto que pareço mais que eu mesma, tudo que penso é nesta distância física que nos separa. É que o domingo está preguiçoso depois de um sábado dançante onde pouco me encontrei com os outros. Senti-me, entre aquelas pessoas, inadequada. Eu rainha de um outro jogo de tabuleiro, mas assumindo aquele como meu. E tem dias que sou rainha mixe neste novo mundo e, em outros, poderosa; ontem, diferente apenas. Diverti-me assim, acostumei-me a ser feliz com isto.

Passando pelo Aterro, um início com céu muito azul e alegria por estar nesta cidade; ao mesmo tempo, uma vontade louca de em outro lugar estar. Mas não em qualquer lugar, lá com ele. Sorriso, espreguiçar e ver os pássaros voando em hora tão… Um suspiro profundo de uma alma que voltou rasgando-me, é tão bom senti-la, mesmo demais. Andando pelas ainda vazias ruas, observando os prédios magnânimos e perceber o quão pouco estou aqui, nesta vida. Tão antigos; tudo tão passado; eu mesma antiga, flutuando pesadamente em frente ao Mosteiro de São Bento, carregando a minha pesada alma. Não reclamo; aspiro todo este mundo ao redor.

Músicas chegam aos ouvidos. Vontade enorme de gritar, cantar bem alto: hold me, and make it the truth,… That when all is lost will be you,… Cause to the universe i dont mean a thing And theres just one word i still believe and its Love,… love. love. love. love. Pearl Jam esta hora da manhã? Onde eu fui desencovar isto. É que ultimamente estou resgatando gostos do passado. Não importa a minha inclinação musical, porque o amor already been sung, but it cant be enough.

Aos poucos as pessoas aparecem pelas ruas, dezenas delas. Parece que tudo ganha um colorido especial hoje. O dia homenageando-me ou eu homenageando-o, e a chegada duma alma renovada. Pergunto-me quanto tempo ela permanecerá comigo, mas ela nem mesmo sabe. Resta-me aproveitar sua chegada e conviver com ela o máximo. Contudo, sempre queremos mais que temos. E hoje o que eu queria era ele aqui. É a saudade máxima enchendo-me.

Onde estou? Estou aqui, esperando. Esperando a viagem. Esperando-te como Penélope a Ulisses, não sei até quando. Desculpe, é que estou impaciente hoje com toda essa vida correndo em mim e tudo a acontecer. Quando será que elas acontecerão? Por que em mim tudo demanda tempo, não pode ser agora, já? É que eu sou antiga; não sei o que isso significa, mas sou.

Saudade. É muita que, vez em quando, quase desfaleço de tanto lembrar. Como ontem, ao entrar no ônibus; senti teu perfume e eu o misturei. Por um milésimo de segundo (porque o milésimo de segundo é aquela partícula instantânea que quebra o espaço) eu te vi ao meu lado, como ficávamos. Foi uma teletransportação. Não crês, inventei-a. Sorrias para mim; juro, não brincaria com algo tão sério.

Queria falar contigo, nos desencontramos. Agora sei que também comigo queres falar. Pensei que tinhas me abandonado e pensaste o mesmo de mim; somos dois doidos! Por quê? Porque ainda insistimos nisso e gostamos. O melhor, gostamos um do outro, não é? Ou não? É que preciso de um reforço às vezes. Eu sei, eu devia saber; eu sei, sou insistente; acontece que sou assim. É a espera… esta ansiosa e angustiante espera que me entorta e a minha cabeça.

Parada, de maria-chiquinha e camisola, olho-me como num filme. Como se eu não fizesse parte dele, apenas o dirigisse. Mas nele, há algo de mim. É tão estranha essa sensação de está olhando o mundo de fora. E ver a sua vida e chamá-la, esta é minha vida, como s’eu a inventasse e ela se criasse sozinha. E esse não sentir nada é medo de sofrer? Pode ser. E prefiro o sofrer a este vazio…

O que eu queria era que ele dissesse que apesar de chata e confusa, ele gosta de mim. Em momentos como este, ele desaparece… deixa o medo imperar… Eu sei, sou demais; o desnorteio e pouco ele ajudaria a esclarecer-me. O que ele talvez não perceba é que a ajuda dele não estaria em analisar-me, mas em apenas dizer que gosta de mim. E hoje eu talvez não sentisse nada, amanhã reconheceria.

Hoje foi um dia estranho, um dia matemático. Envolta por números e, as palavras, apenas explicavam fenômenos físicos, mas toda a resolução está na matemática. Eu sou boa com números e às vezes penso que seria melhor s’eu tivesse me dedicado a eles, acontece que escolhi as letras. Não sei se foi uma boa escolha, foi uma boa escolha pra mim.

A vida está na matemática, toda a resolução dos nossos problemas está na matemática. O problema é que não sei resolver, apesar de ser boa com números, falta-me uma lógica própria da matemática. É que na verdade a matemática não tem lógica alguma, tem exatidão. E nem sei se ela é exata mesmo.

A matemática é a mais humana das ciências e resolveria a nossa vida se soubéssemos como. Não progredimos, nos falta matemática. E isto está repetido? É que a repetição é um processo matemático. E nenhuma outra palavra substituiria matemática com precisão, porque a matemática não é precisa (mas isto eu já falei).

E estava lá, matematicando, quando me dei conta que não podia está ensinando algo que ainda tenho tanto a aprender. E não sei porque pensei nisso. É que ultimamente tenho pensado em coisas loucas como matemática. Acho que eu devia pensar em coisas como cheiro de flores, sol pela manhã, passeio a lugar nenhum, e fiz, e descobri, cada coisa no mundo é resumida pela matemática.

Feminina ela é… A matemática carrega a angústia de ser incompreendida, porque, mesmo quem sabe, não a compreende e sempre há algo para alguém descobrir. Impenetrável para muitos, como uma mulher. É, eu sou toda matemática, com todo seu lirismo. Acontece que eu sou matemática e ela é eu. Duvidas?

Uma reclamação minha, daquelas sobre as coisas, e com sagacidade ela transforma-me numa piada. Com seu jeito bem humorado, todas as minhas falas são suavizadas. E como resistir a seu mau gosto para programas. Eu sei, o mau gosto é dos programadores; então desligue essa tv enquanto bordas, “pra quê? Gosto de ouvir o barulhinho”, mesmo que não entendas? E esse seu jeito antigo de aceitar as coisas, “se for pra ser, será…” Por que não aprendo, eu tenho tanto a aprender…

Eu sei que não és perfeita, tens uma língua ferina, que nem a minha. E esses medos, tão engraçado esses teus medos, é de avião, de barco, de estrada e me pergunto como chegou aqui, nesta cidade. É, de lagarta também, esse bichinho inofensivo aos olhos alheios. Ah! Mas essa preguiça parece a minha, melhor, a minha parece com a tua E essa tal mania de não saber onde colocas as coisas que eu reclamo tanto quando eu as estou procurando, e tu reclamas de mim.

E ensinando-me regras, algumas aprendi, outras continuo tentando. Como a lição de fazer um arroz soltinho e hoje eu quase consegui, juro. Contudo, eu me desliguei um momentinho, foi um segundinho só e errei de novo. Não se preocupe, contigo aprendi a me virar sozinha, mas confesso que contigo as coisas são mais divertidas.

Leve… como pluma-brisa… Andando na ponta dos pés e desfilando pela casa e seus cômodos, patinando pelas ruas com olhos fechados e braços abertos… E o ar, este ar, que ar… parece ele todo perfume, o dele… Embriaguez, parece felicidade sem nenhum motivo além da vida caminhando, normal, nos eixos. Embriaguez, sabor doce de felicidade… E este friozinho, todo ele adentrando os ossos e um desejo de seu calor. Não agora…

Mas hoje foi diferente; vejo a rua movimentada. Estava ela lá, a rua? Não me lembro de nada, somente desta leveza flutuando-me, deste corpo carregando-me. E o mundo a volta parece parado, enquanto movo sobre ele, egoisticamente meu. Mas a culpa é da felicidade levinha, desta brisa gelada numa tarde de outono.

Uma vontade enorme de chorar e eu nem sei o porquê, como se de repente eu fosse a responsável por todos meus erros desde a minha queda do galho da mangueira aos sete, oito anos até hoje quando minha voz não saiu. Meu cérebro deu um branco e nada expressado além do vazio, algumas palavras desconexas e um pouco de frieza. É que hoje não estou bem e não tenho motivo algum para isso, sei que estou assim.

Não, não é falta de perdão. É carência, tristezinha fininha que cai bem neste fim de tarde cinzento de outono ao som de bossa nova. Eu queria tanto um abraço daqueles bem apertado; sem palavras, mas que dissesse estou aqui contigo, não estás sozinha. É que agora eu quero colo.

E não há culpas, mas esse meu espírito que um dia transborda de felicidade, no outro se enche de tristeza; por tudo, por todos, por ti, por mim.

Um dia doce de outono e Cristal liga logo cedo para irmos a praia. Ver o mar… E eu de frente a ele transbordante, ocupando todos os espaços, meus sentimentos. Enfurecido como alguém confuso que não sabe o que fazer, eu. O mar e eu…
Ligar? Será que eu ligo para ele dizendo que já pensei… Paciência, virtude… Por que não a minha? Mas eu preciso livrar-me desta certeza antes que se transforme em dúvida novamente. Ligar? Não posso mais ser como este mar, invadindo, transbordando. Paciência… Utilizar-se da paciência feminina… Esperar… Até quando? Ligar?

Pensar… Pensar até fundir-se ao mar, ao dia, ao presente. Respirar o presente… Conversar… Olhar o mar e o mundo à volta. Pensar no que fez aquela garota comprar aquele biquíni que não combina nada com ela, futilidades, distração. E o dia não está tão quente, está ótimo. E esse ventinho bom…

Travessando Ipanema; atravessando o mar, meus pensamentos… Onde ele está? E aos poucos o mar invade a faixa de areia, ir embora… Chegar em casa e tomar um longo banho. Ligar? E dizer o que? Esperar… Escolher uma roupa para a reuniãozinha hoje à noite com meus amigos. Entrar na net, escrever… E ele está aqui, status? Volta logo. Na certa foi jantar… paciência, esperar…