Ela sorri à amiga porque ‘o que eu faço’ não era a pergunta a ser feita, mas ‘por que temos que fazer’. Desde que ele tinha dito aquelas palavras parecia que saíra da caverna. Então, ela pensava, não comandava nada, todo seu cérebro apenas codificava as ordens dadas por ele. Ela estava tão mal, sentiu-se presa pelo inexorável destino. Por que ele havia dito aquilo enquanto o que ela queria era viver uma vida normal, aquela anterior onde não pensava em nada daquilo.
Não! Aquela liberdade doía-lhe e desejava mesmo sua antiga dependência, porque ela não sabia o que fazer com esta liberdade. Mas a outra esperava uma resposta que ela não podia dar, algo tinha mudado e ela nada sabia sobre este mundo no qual acordara. Antes ela diria, faça isso ou não faça; agora ela nem sabia o que dizer porque estava concentrada na principal, por que tínhamos que fazer alguma coisa; por que não esperávamos simplesmente. Será que nasci para fazer isso simplesmente, será que seu objetivo era esse.
E qual era seu objetivo? Nunca fizera esta pergunta antes e vivia um dia após o outro. Mas agora que o conheceu vivia se questionando sobre isto. E sua amiga disse-lhe que era a pessoa mais sensata que conhecia, ‘de todos nós’. Como podia ser sensata, se ela soubesse dele não pensaria da mesma maneira. ‘Vou endoidecer! Estou ficando louca com todo este barulho’. Sorri-lhe novamente e diz faça isso, sem a mesma confiança de antes. E tudo o que ela queria neste momento é que as coisas voltassem ao que era antes dele.
Se pudesse voltar no tempo, voltaria? E se o tempo não existisse – não foi o que ele falara. Se o espaço não existisse, se as nossas escolhas não existissem, se a realidade não existe; como viver? Como viver sem confiar em nada que nos rodeia. Olha devagar, olha devagar, dizia-se. E se ela, a outra, notar que ela estava ficando louca. Não, ela era sensível demais para sobreviver aquilo, mesmo que a verdade, sem se destruir. Desintegrar-se-ia.
Respira fundo, pausadamente, enquanto escuta sua amiga falando sobre seus problemas. Problemas, quê problemas se nada existe. Ele estava enganado, todas estas pessoas eram a realidade. O cheiro da sala, as cores, o gosto de saliva, o peixinho no aquário, Rex com a língua para fora, o som do sorriso das crianças do lado de fora. Olha a amiga fingindo escutar, ela não percebe. Se isso não for realidade ela poderia fechar os olhos e… em frente ao mar, num passeio de carro, escutando aquela música.