Junho 2003


E ela descobriu um ódio profundo por ele. Conscientemente sabia que iria passar, mas por que ainda não passou, ela perguntava-se. Por que ele insistia em envenená-la contra ele mesmo. O coração daquela mulher caminhava cheio de mágoas e ela gostaria que ele soubesse disso, mesmo percebendo que a culpa não era dele. E porque ela teimava em contar-se se ele nem ao menos mostrava algum interesse em ouvi-la, nunca pareceu muito interessado nela ou apenas o pouco para mantê-la na rede. Fora ela quem sempre se rastejou, implorando por sua atenção.

A culpa era dela que sempre fora fácil demais. Como resistir a alguém que não tinha um mínimo de orgulho próprio, que estava sempre pacientemente esperando o que o rei ordenasse, que buscava compreender tudo até o que não poderia ser compreendido. A culpa não fora dela que devia ter se desligado dele, mas não sabia porque, fez o contrário, atou-se a ele. Não, a culpa não fora dela, ela era assim.

Ela era assim, não é mais. A mudança já estava se processando. Estava tornando-se, fabricando-se, esta nova pessoa que ganha forma. Não sabia quando tudo começara, desde que nasceu cria novas formas nela. Esta começara provavelmente na sua última crise, seus pensamentos foram tomando jeitos mais definidos, claros e objetivos. Até o ápice, o dia da felicidade sem razão, o dia que tornou-se. Desde este dia que o mundo tomou um novo colorido, os cheiros estão sendo descobertos, os sons, estudados. O mundo parece novo agora. Olha-o pela primeira vez, chegou à vida e se espanta. A infelicidade não dura muito e fora cruel. Logo ela que sempre procurava a bondade, fora cruel.

Estava consciente da sua crueldade, neste momento, quando dizia, “tenho ódio de ti”. Mas tentava conserta-se pedindo perdão porque precisava afastar-se do que era, tornar-se. Talvez seja esse o motivo do ódio… Fora ele a mais estimada pessoa para o seu eu antigo.

Quem é agora? Não sabia. Talvez ainda estivesse ali, nela. Ela só queria que as coisas transformassem, eles existissem, tivesse coragem. De quê? De mudar, de experimentar… Teria ela coragem? Coragem de fazer o que devia ser feito. Coragem em adquirir esse tipo de sabedoria que aceita tudo que deve ser aceito, em não desperdiçar forças em vão. Ela que sempre lutara contra ondas que a deixava no mesmo lugar, apenas mais cansada. Coragem, garota! Teria coragem em aceitar o silêncio, o fim definitivo sem nada fazer para impedir. Não hoje, mas falta pouco. Sentia que faltava pouco.

Tinha ódio dele porque infelizmente não iria entender o seu ódio. Tinha ódio dela mesma porque continuava a falar ao vazio.

A luz cheia branca ao céu emoldura a noite fresca. O dia foi bonito como são bonitos os dias de outono com a doce neblina a encobrir a cidade – como açúcar sobre o pão – e o vento cismando em levantar os cabelos. Lá embaixo a cidade não percebe quem vai, quem vem. Será que ela sentirá saudades minhas? Sentirei dela.

Bê se delicia andando pra lá e pra cá com aquela carinha ingênua enquanto está a sós comigo. A tarde caminha tranqüila que nem percebemos que daqui a uma semana estaremos separadas. E continuamos assim, na completa ignorância dos inocentes, até quando nos despedimos. Ela – com aquele sorrisinho entre o maroto, triste e preguiçoso e um xauzinho com a mão – sai, nos veremos nos feriados.

A cena chega triste ao coração, um até logo com gosto de adeus. Sei que um ano passa logo, sei que aprenderei muitas coisas, mas aquele sorriso crescerá e o perderei. E não estamos sempre a perder uma coisa para ganhar uma outra? Será que fiz a coisa certa? Uma hora depois e aquele xau ainda está no meu coração.

Esqueço a sensação. Lembrar-me-ei dela daqui a uma semana. Por que anteciparmos o que virá?

Estava muda, perdeu as palavras. E não foi por uma impossibilidade física, a voz continuava muito boa. Ela nem estava rouca como da última vez. Estava muda, perdeu as palavras. Seu cérebro esvaziou-se num misto de dor e serenidade que ela nunca sentira porque sempre misturara dor à tristeza, à morte do corpo e dos sentimentos. A dor, início dum fim. Agora a ver claramente, transformação serena para outra coisa, mas o quê?

Sente-se vazia daqueles sentimentos que a desfaleciam a cada mensagem dele, a cada saudade dele, transbordando de um amor que a destruía mais que a construía. Amor e dor, era esta a associação feita como se apenas através dela pudesse ser. Ser o que era? Não sabia. Sabia o que era. Aquela que existia nele, personagem inventado por e para ele. Mas que seria ela agora sem ele? Sem ele como o grande Sol do universo, e ela pequenina lua necessitada de luz para ser vista. A culpa não era dele, fora ela quem se construiu lua. Era mais fácil deixar-se iluminar e ele se encarregaria de escolher o rumo. Porém ela aprendeu sobre o próprio poder que não abrangia todo o sistema solar, mas aquele pequenino lugar preferido. Ela tem seus mistérios e ele não os entendia, nem ao menos a língua por ela falada. Ele tentava, mas não a compreendia e a culpa não era dele… e ninguém tinha culpa. Fora ela quem superdimensionou os poderes que ele tinha e não enxergou o dela.

A sua serenidade dá a ela mesma uma alegria, daquelas sustentadas com um sorrisinho irônico-misterioso nos lábios. Ele pensa que sabe o que ela fará agora. Então, o que fará agora ela que viu seus defeitos, suas fraquezas e não gostou? Ela que creu em sua perfeição, agora que fará? Como se comportará agora ao vê-lo verdadeiramente, o que será deste amor? O que será dela que descobriu a felicidade sem ele? E ele, ainda a amará sabendo que ela não era mais dependente? Esta paixão feita mais de desejos que realizações, de esperança mais que de presente, de sonhos mais que de vida sobreviverá ao fim das luzes que a enfeitava? Olhou para ele sem a névoa que colocara à sua frente e o viu branco e preto, não se sentiu mais pequena. Será que era disto que ela tinha tanto medo, que descobrisse seus olhos para os defeitos dele? De vê-lo, preto e branco, real.

Lá fora tudo continua na mesma. O dia é lindo hoje com o céu cinzento e a escuridão a iluminar, a chuva fininha caindo, o frio contínuo a Penetra-la. Onde estará hoje? De que se esconde? Da verdade que ela enfim enxergou? Não se preocupe, ela não está triste, prefere esta verdade nua e crua e o poder que se revelara às luzes mentirosas que enxergava. Não se preocupe, viu-te, pode ver-te e amou-te, enfim.

E ele respondeu desconexo como quando perguntamos a alguém o que quer e recebemos por resposta, azul. Fez um pedido que não podia aceitar, não vá, porque uma distância a mais para ele mudaria tudo. As palavras tão despropositadas, fora de hora; repentinamente, não quero que você vá. Sem ação e sem entender o porquê busca razão e justificativa para as palavras porque a dele, dita em tom indefinido, parecia a de uma criança que não tem argumentos ou se esconde numa tentativa de driblar a si mesma. Por que? Porque não.

Contra isso, porque a pergunta fora mal respondida, muda de assunto de modo tão abrupto e despede-se aos tropeços que não há reação. Raiva? Um ódio profundo, de dentro, espalhando. Engolir. Silenciar. Fica algo.

O que mudou além da espera? Somente espera e distância. As horas se alargam como as terras. E se antes ele impunha, deus do tempo, o encontro; se ele era o deus que decidia o fim, agora a deusa foi criada. A espera é duo? Mas alguém a controla. Agora a deusa, esta criada a pouco, voa a portos distantes. Como sobreviverei a esta deusa, ele pergunta-se.

Não quero que você vá, ele diz e arrepende-se em seguida. Porque aquilo não devia ser dito, apesar de sentido. É que o tempo do deus organizara-se e faltava ela, transformada em deusa. Ela levanta-se, tem uma missão a cumprir. E ele pensa que sempre estavam distantes.

Amanheci outonal, cinzenta como o dia. Entretanto, hoje as pessoas foram bondosas comigo, diante do meu sorriso forçado usado em dias como este, quando cheguei lá já estava bem.

O dia foi feliz. Não aquela felicidade de ser. Felicidade de estar, ação, ali com eles. Vê-los todos reunidos e relembrar, foi tão bom. Pena que apenas pensei em dizer sobre isso quando já estava lá por Madureira. Porque eu queria dizer que a saudade me consumiu. Não uma triste saudade que sempre descrevo, uma feliz por simplesmente ter feito parte daquele momento. E se pudesse transformaria o dia em um quadro e colocaria a mais bela moldura. E a coloquei na minha galeria.

E não falarei mais porque hoje estou simples e este canto não é feito de simplicidade. Calar-me-ei. O que dizer mais? Sentirei saudades… É; foi um dia feliz!

Feliz, era isso o que era? Porque naquele momento podia até patinar por entre as nuvens e não tinha nenhum motivo além de que ela sabia. Não sabia o quê sabia, mas sabia. Era um tipo de conhecimento de vida silencioso juntado aos poucos de coisas catadas ao chão. Descobriu. O quê? Percebia que tinha descoberto, misteriosa aventureira, inteligente, mais rápida e veloz que a esfinge. E era um prêmio ver o mostro indo embora, acuado, de rabo entre as pernas. Tinha ele rabo?

Respira, liga a tv e vê mulheres falando de problemas. Uma certa superioridade por estar acima daquilo tudo, pelo menos por enquanto. Parece que sua expressão adquire um ar misterioso, ingênuo e sonso. Ela desliga a tv. Problemas, problemas. Egoisticamente se livra de todos, era uma pessoa feliz. Pessoas neste estado não olhavam para os lados. Não que a felicidade fosse contrária à generosidade, mas esta felicidade era. Total, ápice, cume, daquelas que a fazia transbordar. Quem pode observar a casa alheia quando a sua transborda?

Suspira o máximo. Tudo aproveitado. As estrelas do céu, algumas encobertas pelas nuvens de fim de outono, ventinho frio, casaquinho. Usar casaquinho (!) e ter o rosto sem suor. Queria aprender a patinar, dançar na ponta dos pés. A felicidade é bailarina. Hoje sabia fazer todas estas coisas. Respira de olhos fechados concentrando-se. Deixa para amanhã, hoje prefere sentir o ar gelado avermelhando suas bochechas. Sorri mais uma vez. Abraça-se e começa a andar pela pequena varanda.

Vê o seu reflexo, lindo. Hoje sente-se a mais bonita das mulheres com jeito de deusa renascentista. Queria sair para poder colocar uma roupa linda – porque se preocuparia com isso hoje – e ser vista. Ficaria em casa porque somente em companhia dela é que prolongaria este prazer de saber. Talvez achasse lixos que se encaixariam aqueles achados anteriormente e traria mais. Podia alguém ser mais feliz? Ela nunca o fora. Pára, diz-se porque a qualquer momento explodiria.

O céu ainda nublado acordando e me lembro de um compromisso matutino com o ensino dos números. E passo a manhã entre regras e explicações. Meu cérebro desperta para mim, o meu eu maior; aquele principal, como diria Virgínia, que estava a procura nestes dias. A manhã se despede com um lindo sol e céu azul cobrindo todos os espaços da planície. Ele está acima, ao meu lado, faz-me companhia. Inspiro aos muitos, tentando gravar cada pedaço deste passeio onde as nuvens são minhas companheiras.

É que ando feliz e apreensiva, aproveitando os dias; tudo e todos. Aproveitar… Ao mesmo tempo minha cabeça não mergulha profundamente nestes lugares, só em algumas ocasiões em que quase esqueço desta espera. Como sexta-feira à noite, com a companhia de Cristal e das estrelas, numa madrugada engraçada – porque a coisa num nível de ruindade é até divertida. E ver mais uma vez a Cinelândia na penumbra das luzes da madrugada; um sonho ou realidade? Com aquelas cores não consigo precisar.

Sinto-me um pouco Mrs, tão silenciosa, tão trancada. É que eu não sei me despedir muito bem das coisas, dar até logo. Espero aprender, espero que alguém me ensine. “Ó tia, por que não usa aquela sua calça de duas cores?”, é que tudo está trancado naquela mala, até minha vida vai lá, trancada. E fica apenas essa saudade por deixar estas coisas. Quando a abraço, sinto perder seus próximos meses, estará tão grande. Inevitável, está na minha hora de voar, a dela chegará. Pousarei na tua janela em breve, prometo.

Estou feliz apesar de andar muito filosófica, desconfiando de todas as coisas ao redor; o mundo existe mesmo? E quem o criou? Mas aí alguém liga, diz uma palavra e tudo fica bem. Queria permanecer assim.

Ele fazia uma pergunta atrás da outra, questionava aquele mundo. Ela sentia toda a raiva contida naquela carta e queria ajudar, mas não sabia como. Ela tinha as mesmas questões sobre este mundo que a abandonara. Queria poder dizer: não fique assim, as coisas vão mudar. Mas se ela mesmo não acreditava nestas palavras. Não fique triste, coragem: por que não falava isso para si mesma nestas situações.

Pára um pouco e pensa com a mão levada ao peito. Ela era corajosa, só isso justificava tudo que ela fazia agora, um tipo de coragem que não dava para ensinar, aprendera com a infância. E relembra o passado. Agora eu tenho alguém. Será que tinha? Porque neste momento ele estava tão distante. Porém tinha uma espécie de certeza, feminina, que ele voltaria. Só podia rezar para que fosse em pouco tempo.

Clica reply e coloca a mão sobre o teclado, concentra-se nas palavras. Sabia que tinha que mentir, dizer todas aquelas coisas: não fique assim, triste; coragem, tudo vai mudar. Mesmo não acreditando nelas, era algo que deveria ser dito. O difícil é fazê-lo acreditar nela, mas ela sabia que conseguiria, sempre conseguira. Coragem, eu estou aqui te esperando, preciso de você; foi o que ela pensou, enquanto respondia.