E ela descobriu um ódio profundo por ele. Conscientemente sabia que iria passar, mas por que ainda não passou, ela perguntava-se. Por que ele insistia em envenená-la contra ele mesmo. O coração daquela mulher caminhava cheio de mágoas e ela gostaria que ele soubesse disso, mesmo percebendo que a culpa não era dele. E porque ela teimava em contar-se se ele nem ao menos mostrava algum interesse em ouvi-la, nunca pareceu muito interessado nela ou apenas o pouco para mantê-la na rede. Fora ela quem sempre se rastejou, implorando por sua atenção.
A culpa era dela que sempre fora fácil demais. Como resistir a alguém que não tinha um mínimo de orgulho próprio, que estava sempre pacientemente esperando o que o rei ordenasse, que buscava compreender tudo até o que não poderia ser compreendido. A culpa não fora dela que devia ter se desligado dele, mas não sabia porque, fez o contrário, atou-se a ele. Não, a culpa não fora dela, ela era assim.
Ela era assim, não é mais. A mudança já estava se processando. Estava tornando-se, fabricando-se, esta nova pessoa que ganha forma. Não sabia quando tudo começara, desde que nasceu cria novas formas nela. Esta começara provavelmente na sua última crise, seus pensamentos foram tomando jeitos mais definidos, claros e objetivos. Até o ápice, o dia da felicidade sem razão, o dia que tornou-se. Desde este dia que o mundo tomou um novo colorido, os cheiros estão sendo descobertos, os sons, estudados. O mundo parece novo agora. Olha-o pela primeira vez, chegou à vida e se espanta. A infelicidade não dura muito e fora cruel. Logo ela que sempre procurava a bondade, fora cruel.
Estava consciente da sua crueldade, neste momento, quando dizia, “tenho ódio de ti”. Mas tentava conserta-se pedindo perdão porque precisava afastar-se do que era, tornar-se. Talvez seja esse o motivo do ódio… Fora ele a mais estimada pessoa para o seu eu antigo.
Quem é agora? Não sabia. Talvez ainda estivesse ali, nela. Ela só queria que as coisas transformassem, eles existissem, tivesse coragem. De quê? De mudar, de experimentar… Teria ela coragem? Coragem de fazer o que devia ser feito. Coragem em adquirir esse tipo de sabedoria que aceita tudo que deve ser aceito, em não desperdiçar forças em vão. Ela que sempre lutara contra ondas que a deixava no mesmo lugar, apenas mais cansada. Coragem, garota! Teria coragem em aceitar o silêncio, o fim definitivo sem nada fazer para impedir. Não hoje, mas falta pouco. Sentia que faltava pouco.
Tinha ódio dele porque infelizmente não iria entender o seu ódio. Tinha ódio dela mesma porque continuava a falar ao vazio.