Feliz, era isso o que era? Porque naquele momento podia até patinar por entre as nuvens e não tinha nenhum motivo além de que ela sabia. Não sabia o quê sabia, mas sabia. Era um tipo de conhecimento de vida silencioso juntado aos poucos de coisas catadas ao chão. Descobriu. O quê? Percebia que tinha descoberto, misteriosa aventureira, inteligente, mais rápida e veloz que a esfinge. E era um prêmio ver o mostro indo embora, acuado, de rabo entre as pernas. Tinha ele rabo?
Respira, liga a tv e vê mulheres falando de problemas. Uma certa superioridade por estar acima daquilo tudo, pelo menos por enquanto. Parece que sua expressão adquire um ar misterioso, ingênuo e sonso. Ela desliga a tv. Problemas, problemas. Egoisticamente se livra de todos, era uma pessoa feliz. Pessoas neste estado não olhavam para os lados. Não que a felicidade fosse contrária à generosidade, mas esta felicidade era. Total, ápice, cume, daquelas que a fazia transbordar. Quem pode observar a casa alheia quando a sua transborda?
Suspira o máximo. Tudo aproveitado. As estrelas do céu, algumas encobertas pelas nuvens de fim de outono, ventinho frio, casaquinho. Usar casaquinho (!) e ter o rosto sem suor. Queria aprender a patinar, dançar na ponta dos pés. A felicidade é bailarina. Hoje sabia fazer todas estas coisas. Respira de olhos fechados concentrando-se. Deixa para amanhã, hoje prefere sentir o ar gelado avermelhando suas bochechas. Sorri mais uma vez. Abraça-se e começa a andar pela pequena varanda.
Vê o seu reflexo, lindo. Hoje sente-se a mais bonita das mulheres com jeito de deusa renascentista. Queria sair para poder colocar uma roupa linda – porque se preocuparia com isso hoje – e ser vista. Ficaria em casa porque somente em companhia dela é que prolongaria este prazer de saber. Talvez achasse lixos que se encaixariam aqueles achados anteriormente e traria mais. Podia alguém ser mais feliz? Ela nunca o fora. Pára, diz-se porque a qualquer momento explodiria.