Agosto 2003


Ele, pronome pessoal tão definido… Ao dizer ele, saberás exatamente de que ele estarei falando. Falo poucos ele, acho que uso este pronome especificamente para falar nele e talvez devesse apresentá-lo, este é… mas ele resume bem. Tão indefinido para o mundo, tão definido para mim. Ele é ele e mais ninguém.

Falta coragem de falar? Nunca pensei nisto. É que estas três letras define tão bem… ele, mas um dia usarei as cinco letras de seu nome, se não uso é porque não senti necessidade. Ele é o único ele, mas talvez devesse dizer seu nome.

Procuro desesperadamente em escritos passado e não encontro além desta definição, ele. Escondo-o? Outro enigma do qual faço parte. Enigma para alguns de vocês, enigma para mim. Quem é a pessoa ele? Ainda o apresentarei, mas não hoje, hoje ele é ele.

Pesada ela senta, mas não pensa em nada. Gostaria de passar o dia na cama, porém seu serviço é arrumar tudo. Brincar com as crianças não conseguia porque sua mente atravessava campos e chegava ao seu interior, sem perceber. Sentia-se mal e qualquer palavra dos outros era o bastante para fazer sua cabeça explodir.

O problema é que não sabia o que tinha porque não tinha nada. Estava feliz, até hoje quando seu corpo ganhara um peso, suas costas doíam e sua cabeça caía de lado na impossibilidade de mantê-la em pé. O cheiro de flores que impregnava a casa para disfarçar outros odores chegava-lhe as têmporas que latejavam a cada respirar. Queria ficar na cama, quietinha, mas a vida chamava-lhe. Quisera poder dar um tempo de deitar porque quanto mais irritada ficava, mais saudades sentia. Não a saudade da terra distante, mas do que fora ontem. E hoje, o que além dum corpo andando de um lado a outro?

Pelo menos pensava em coisas concretas e não aquelas questões que não tinha resposta. E pergunta-se se o verá hoje, aquele ver de apenas ouvir a sua voz porque já estava ficando confusa com seu vocabulário que não expressava exatamente seu real significado. Hoje verá sua representação, ícone intergaláctico? Besteiras, sorri.
Queria saber notícias porque se sentia cega daquele outro mundo, o lado de lá, e precisava vê-los. E o vento lá fora combina com as nuvens cinzentas, que combina com seu humor, que permanecia apenas dentro dela.

Espera ansiosa pela hora do encontro. Sem nada a fazer, arruma velhos papéis, passado. Entre o monte de contas pagas, boletos bancários e anotações encontra um velho papel, rascunho de uma carta a meses enviada e nunca exatamente respondida. O que poderia haver em velhas linhas escritas se não tivesse impressa em sangue dum ser exposto.

Escolhera uma a uma, colocara-as e passa a tarde pensando como fora lida já que nunca havia recebido resposta. Talvez se perdeu entre cidades e países, nunca fora lida. E aí não cumprira sua função e sobre isto não queria pensar, algo escrito e perdido. Palavras ao vento. Mas e se chegou ao remetente, o que causou? Paixão, embriaguez, silêncio, revolta…

Com que intenção escrevera já não conseguia lembrar ou fingia ao menos, que era mais fácil. E, ao contrário do que dizia, não queria o fim. Expôs para salvar, mantê-lo junto a ela e soube o que fazer. Desnudou-se por completo, mostrou sua alma para que ele a conhecesse e desistisse das outras. Desistiu? Já não lembra tão concentrada estava naquelas doces palavras que estendia para ele agarrá-la, possuindo-as como dele, que era o que era.

O rascunho, qual sua função quando suas palavras já não lhe pertenciam assim como seu espírito. Será que ele soubera disso quando a teve nas mãos ou fora apenas mais uma das tantas lidas? Pensa em deitá-lo, mas ela também se redescobriu quando o leu, assim tão pura, assim tão doce. E sentiu-se menina e sentiu-se mulher.

Cheguei sem avisar, desisti de tudo e resolvi voltar. A casa estava exatamente como a deixara, e tinha aquele cheiro de comida percorrendo-a, os pratos secando e as cores espalhadas. Minha mãe abriu um sorriso lindo e levantou-se para me abraçar porque era boa a surpresa de meu retorno. Minha irmã estava fazendo uma visita e pude abraçá-la junto com Bê e meu arteiro que não precisa mais saudar cada avião dizendo, ti-a. E é tão bom abraçá-los…

Era 9:30, um frio percorreu meu corpo porque nesta hora perceberam que eu fugira. Coloquei a roupa na mala e saí, sem avisar, sem dar satisfações, mas eles cobrariam.
E a vizinhança apareceu e meus amigos perguntaram o que estava fazendo ali tão cedo. Sorri e cansada fui dormir. Foi de repente, cansaço estranho.

No meu quarto a cama a mesma posição, o cheiro de incenso fraquinho, as fotos, meus livros, meu computador e a janela com cortinas e reconheço este quarto. Não, não estou em casa. Foi por alguns minutos, um daqueles sonhos bem reais, que lá estive. E foi tão bom senti-los…

E com aqueles presentes na cabeceira, aquele bilhete numa mão e aquela foto na outra, perguntava-se se ele era mesmo o homem de sua vida. Mas será mesmo que existe o homem ou mulher da vida de cada um ou são apenas coisas criadas para nos fazer acreditar que existia? E ela sentiu-se impregnada destas coisas. Achou que era o momento de se livrar delas. E se existisse?

Mas outra pergunta era mais forte, porque todas estas dúvidas agora enquanto lia aquele bilhete? Não era o que esperou ouvir em todos aqueles anos. Não era o que queria… E por que todas aquelas dúvidas justo no momento em que ele dizia o que esperava ouvir?

Dentro dela uma vontade incontrolável de ligar e dizer, acabou. Porque tinha uma vida, planos e eles eram tão diferentes, viviam vidas completamente diferentes. Talvez fosse medo apenas. Liga, ele não está, mas alguém atende querendo saber exatamente quando chegaria. Então ele contou, ela pensa, se ele contou a ela, é sério. E ela devia estar feliz… mas era medo… tão grande que ela queria desistir e dizer que não daria certo e sentiu que se arrependeria.

E olhou novamente a foto dele, ainda em suas mãos. Pensou nos anos esperando. Então leu mais uma vez o bilhete. Estava feliz, era sério também para ele, finalmente.

Olho-me. De quem será o rosto à frente? Tento descobrir-me no reflexo de meus olhos, mas o que enxergo é indecifrável. No espelho, a quem pertence este rosto? Nas fotos, quem será esta estranha? Em mim, reconheço os pés mal-tratados, as pequenas mãos e as coxas gordas que tanto odeio. Mas de quem é este rosto, este nariz e esta boca? Os cabelos, escuro e indefinido, eu sei como são, não sei como são em mim. Não faz sentido, este rosto não faz sentido algum. Os olhos, meus olhos? Olham-se, reflexos, numa tentativa vã de reconhecer-se. Esta boca, este nariz, meus? As olheiras, cansaço de tentar se perceber e continuar se achando inadequada.

Não, não é esta aparência; sou eu, a essência de que sou feita, nada é intenso, tudo é legal, palavras somente… legal como quem quer dizer, não me amole com perguntas tolas que não serão respondidas com sinceridade. Mas agora estou sendo sincera, sobre isto posso dizer, foi legal. É que não foram minhas férias, nada aconteceu, viagenzinha nada mais. Continuei entre as árvores, casas e crianças num tédio monumental porque não tinha este fiozinho aqui nos unindo. Não foi triste, não foi alegre, foi. Uma existência apenas.

Dentro de um carro, placas sinalizando cidades, vejo, letras que não dão direção alguma enquanto sou carregada. O problema é que sou independente demais, sufoca-me, às vezes, esta gaiola. E isto parece um sonho. Ele dirige por entre a chuva e o carro passando por entre as árvores gotejantes. Eu passando por entre a névoa. Névoa… Foi um sonho! Ainda bem que acordei!