Espera ansiosa pela hora do encontro. Sem nada a fazer, arruma velhos papéis, passado. Entre o monte de contas pagas, boletos bancários e anotações encontra um velho papel, rascunho de uma carta a meses enviada e nunca exatamente respondida. O que poderia haver em velhas linhas escritas se não tivesse impressa em sangue dum ser exposto.

Escolhera uma a uma, colocara-as e passa a tarde pensando como fora lida já que nunca havia recebido resposta. Talvez se perdeu entre cidades e países, nunca fora lida. E aí não cumprira sua função e sobre isto não queria pensar, algo escrito e perdido. Palavras ao vento. Mas e se chegou ao remetente, o que causou? Paixão, embriaguez, silêncio, revolta…

Com que intenção escrevera já não conseguia lembrar ou fingia ao menos, que era mais fácil. E, ao contrário do que dizia, não queria o fim. Expôs para salvar, mantê-lo junto a ela e soube o que fazer. Desnudou-se por completo, mostrou sua alma para que ele a conhecesse e desistisse das outras. Desistiu? Já não lembra tão concentrada estava naquelas doces palavras que estendia para ele agarrá-la, possuindo-as como dele, que era o que era.

O rascunho, qual sua função quando suas palavras já não lhe pertenciam assim como seu espírito. Será que ele soubera disso quando a teve nas mãos ou fora apenas mais uma das tantas lidas? Pensa em deitá-lo, mas ela também se redescobriu quando o leu, assim tão pura, assim tão doce. E sentiu-se menina e sentiu-se mulher.