Outubro 2003


Minha alma vai estranha, não pertencendo a lugar algum. Parece que as horas aumentadas, alargou a nossa distância e eu, de não agüentar, desisti. Abandonei-me. As palavras adentram-me sem significado algum, enquanto sua voz fala de seus problemas. Não estando lá, coloquei uma barreira. Afastei-me. Desenchi-me de tudo.

Silêncio, inevitável amigo. Queria apenas ficar lá com toda esta dor que não consigo expressar. Fecho-me. Caminho por estas casas já familiares. O vento balança calmamente as folhas que, frágeis, caem. Todo um medo me invade. O que encontrarei quando lá voltar? Falta tanto e já me preocupo.

Fecho os olhos e os barulhos da cidade me enchem. Burburinhos imaginários transbordam ao redor; logo depois, o silêncio mortal. Falo algo em português e escuto minha voz, soa normal. Em inglês ela embrutece, não sou eu. Sem nada ao redor, falo comigo mesma.

Tomo decisões que serão acertadas tantos meses após, então penso mais uma vez para chegar a mesma conclusão. Caminho em círculos. Minha alma segue sufocada e a felicidade até chega, mas aquela temporária que me empurra pelo dia. Onde pertenço? O que quero?

Quem disse que devo pertencer àlgum lugar? Talvez a mim mesma. E meu corpo continua navegando pelo dia, enquanto minha alma vagueia numa busca pelas respostas que já tenho. Por que ainda permaneço? O que acrescenta a mim esta viagem? Quais são mesmo os meus talentos?

Volto à casa que segue vazia e tenho a companhia bizarra dos nossos sons, estes que me invadem. Se já decidi as pessoas, ainda há algo a refletir. Quanto mais avanço, mais dúvidas tenho. Eu só tenho 25 anos! Eu já tenho 25 anos! Ó vida, resolva-se! Ó coração, aquiete-se!

Tenho medo, medo das minhas escolhas. O sonho ou a realidade. Minha alma sabe a resposta que me apavora. Fujo. Corro alucinadamente. Não foi a fuga que me trouxe aqui, a esta casa? Talvez devesse me desconstruir, vencer-me para, enfim, ter a certeza.

Talvez minha alma quisesse afastar-nos dos barulhos da cidade para que eu a escutasse. Derrotar este impossível destino e torná-lo vida. Em silêncio, escuto. Não meu coração, este músculo, mas esta alma que, de tão grande, se mexe em mim tornando difícil suportá-la. Ela grita, ela clama e desistindo, enfim vencida, sinto.

O carro viaja por uma estrada estreita cheia de curvas em direção às montanhas. Talvez lá enxergue melhor o futuro. Antes nos perdemos pelas estradas, era para seguirmos leste e fomos a oeste. Precisamos voltar. E entre mapas, que me apontam caminhos confusos, espero. Sigamos viagem. Vinte quilômetros por hora, subimos a serra tentando vencer a estrada, chegamos ao topo.

Lá em cima o rio, as árvores, as cachoeiras e as montanhas se estendem, alegrando-me enquanto não chego ao meu destino. Olho o oriente numa tentativa de dizer, “bom estar aí”, mas me perdi pelo leste e demorarei um pouco mais. Tento chegar mais perto, mas o vento é mais forte e protejo-me na casa de cristal. Talvez há caminhos alternativos, mais difíceis que pelo ar.

E o quieto rio que calmamente vai passado é encontrado. Tenho pressa, quero chegar a foz depressa, mas ele segue seu curso e eu, mais longe. Navego, em busca de coisas que não sei definir, mas sei onde estão. Apesar da distância corro depressa tentando vencê-la e o sol, que brilhou tornando o espetáculo de cores outonal belíssimo se põe. Pelo menos o tempo diminuiu.

Paremos então esta busca incansável pelo leste. Tomemos um café e conversemos sobre este futuro que não chega. Quanto falta mesmo? A corrida ao leste continua.

Não, ela não queria ir. Escondia-se de todos para não dizer adeus. Preferia não vê-los, não queria sentir mais dor. Inevitável, sentiu a dor e não se despediu de todos eles. Era hora dela ir e vendo-a tão triste, as faces cheia de marcas provocadas pelo estresse, queria oferecer-me, “vou em seu lugar”, porque para mim abandonar isto aqui não seria tão difícil. Infelizmente não pude e fiquei a vendo triste, pálida e não pude dizer adeus.

Adeus… Queria dizer, “bom vê-los!”. A saudade é tão grande que dia desses senti cheiro de maresia em meu quarto e senti-me mergulhando naquele mar às vezes poluído. Suspiro mais uma vez e lembro dela e da sua dor. A minha é justamente estar aqui, queria voltar e o que me prende aqui é apenas meus pequenos objetivos. Respiro profundamente.

Ontem, no quarto, sentia minha presença em outro lugar e a dele, aqui. A tarde foi vazia que adormeci e, sem nada a fazer, preocupo-me com meu cabelo. Cortei-o, apenas um pouco. Vendo o hoje, gostei, mas a saudade ainda persiste. Realmente não é um cabelo diferente que me transformará numa pessoa diferente.

Contudo, não estou triste, estou saudosa. E tento lembrar de todos lá, para um segundo depois lembrar dela que deve estar no avião neste momento, voltando para a gelada Alemanha. Sinto sua dor, mas a minha é outra. O que eu queria? Eu queria apenas alguém aqui, o problema não é o lugar, é a falta deles, de todos. Saudades.

Corria sem destino, almejando chegar a lugar algum. Olhava a paisagem em volta e se achava personagem dum quadro onde a musa morena não se encaixava aquelas árvores coloridas em volta, aquele ar, aqueles carros. Seguia. Como tinha que ser, estava feliz. Não aquela grande felicidade de cegar os olhos ao que acontece ao redor, mas normalmente feliz. O dia estava bonito, até onde era bonito no inverno com aquelas nuvens todas. E caminha, corre, presenteia-se. Enquanto caminha pensa naquela vida, naquelas pessoas ao redor e nas deixadas a um longo caminho atrás (quanto tempo? O tempo importa menos). Caminha e olha o reflexo das casas e seu na janela dianteira do carro e pensa se a sua vida fosse um filme, gostaria deste enquadramento. Então chega a ideia que ela mesmo seguia enquadrada pelas janelas, fotos, olhos, sentimentos. Respira fundo, o ar chega aos pulmões. Observa aquela paisagem até então vista apenas na janela do carro e surpreende-se com as coisas ao redor tão perto e tão longe. Corre e as pessoas passam ao seu lado e a cumprimentam e ela naquela felicidadezinha continua correndo e mostra sua capacidade física para a amiga que nao acredita. Cansada chega em casa, pessoas a recebem e aos poucos estabelecem uma cumplicidade e perguntam, e conversam. Ela vai passando a noite entre televisão e pessoas. Ficam juntos e percebe que sente falta de pessoas ao seu redor, tão só se encontrava naquele quarto escondido pela varanda acima. E ela vai para a cama, cansada nao consegue dormir porque pensa naqueles lá, na vida cá, nesta felicidade pequenina. Fica imaginando diálogos futuros com todos eles e no que estaria acontecendo nos outros lados do mundo. Pensa nestas pequenas coisas e chega a conclusão que gosta delas. Sorri e dorme. Logo o alarme a despertará.

“Estou tão cansado e você cheia de energia”, Aí é fim de noite e aqui, meio do dia, meu bem”. Hoje estava excepcionalmente tagarela sem pronunciar uma palavra.

“O que você acha do Hawaii?”, “Por que perguntas?”, “Não sei, me convidaram, mas acho que não vou. Talvez vá a São Francisco”, “Com quem?”, “Sozinha”, “Prefiro que não vás”, “Por que?”, “Fico preocupado você andando por aí sozinha”, “Mas aqui estou tão entediada, meu bem”, “Vem cá”, “Eu vou, mas acontece que preciso fazer algo antes senão morrerei de tédio”, “Tu que sabes”. Será que sei mesmo? Hoje acho que não sei de nada e falo por falar.

Acontece que estou gostando de dirigir, então pego o carro no fim da manhã e vou por aí, tentar viver. “A gente conversa melhor por telefone, agora tenho que dormir”, “Mas já?!”, “Aqui é onze horas da noite!” e eu desejando falar mais. Que horas são? Três. Ainda tenho o resto do dia para viver.

Os dias exatamente iguais,
Os dias exatamente iguais,
Os dias exatamente iguais.
Chuva, céu cinzento e folhas amarelas
Chuva, céu cinzento e folhas amarelas
Chuva, céu cinzento e folhas amarelas.
Telefonema, vozes e cartas
Telefonema, vozes e cartas
Telefonema, vozes e cartas.
Espera,
Espera,
Espera.
Ficarei doida, sinto,
Estou endoidecendo.
Não escrevo nada de novo,
os mesmos queixumes de sempre.
Meu corpo vai pra lá e pra cá,
mas pra onde vai meu coração,
não aqui junto a mim…
Cansei de falar dos dias sentada esperando,
esperando as crianças chegarem,
esperando as horas passarem,
esperando-o.
A vida vivida com o olho no relógio e no calendário,
O que estou aguardando?
Almas sensíveis não devem viver esta vida
dentro dum espaço escutando hail to the thief*
que é muito triste.
Encolhendo,
sinto-me encolhendo.

Foi um dia assim, preguiçoso; com uma dorzinha de garganta que não evolui nem regride, a chuva a cair fininha lá fora para logo depois ceder espaço para um solzinho tímido que não resistindo ao vento gelado cede espaço para a chuva mais uma vez; e eu com os cadernos à frente, espalhados pela cama, tentando escrever um parágrafo sobre minha manhã. Entre tentativas e tentativas, encosto-me na cama, ligo o rádio e acabo dormindo.

O telefone toca tirando-me daquela preguiçosa tarde que se arrasta como eu. Languidamente pego o celular. Eis que ouço aquela voz que me ligou apenas para dar um beijinho antes de dormir e dizer que me adora. E o sol finalmente ganha força, vence a chuva.

Adoras-me? Por que, tenho ânsia de perguntar quando desligo o telefone. Tanto tempo sem vê-lo… De passagem comprada, resta aguardar mais quatro meses que me parecem longos como esta tarde.

Só, pergunto como posso ser adorada se a distância e o tempo nos separam… Então lembro que a distância e o tempo são os mesmos e que continuo o adorando mesmo com tantas dúvidas, mas não esta, não hoje. E a dúvida muda, “por que o adoro?” Porque a distância e o tempo nos separam e a única coisa que nos unem é este pequenos telefonemas no meio da tarde para dizer oi, perguntar se a vida vai bem e o que andamos fazendo.

Nada, um dia segue o outro, uma chuvinha chata correndo, crianças chamando a atenção e eu aqui, pensando na vida, mais uma vez. Quando a viverei, enfim?

Uma palavra ouvida e esquecida um segundo depois, alguém fala algo e sorrio de modo quase histérico, estas coisas que o álcool provoca. O que ela falou? Pouco importa, continuo perdida, como eles, e fico sentada naquele bar pensando em outras pessoas e outra língua, lembranças doces. Não consigo dizer uma palavra, devaneio. Não paro de falar um segundo.

Abro os olhos, há alguém em casa denunciado pelo barulho do chuveiro acima. Olho o relógio, é cedo. Gostaria de permanecer sob os lençóis enquanto observo a paisagem cinzenta lá fora, mas sou confrontada com meu reflexo. Não, não é tristeza, é esquisitice.

A tarde segue fria e aperto a jaqueta um pouco mais. Vejo este mundo, as estradas correndo. A recepcionista pergunta algo, onde estou mesmo? Concordo e recebo um megaultragigante sorvete. Não entendi, novamente. Perdida, fico em silêncio olhando o menininho loiro que caminha ao lado de minha mesa. Todos iguais ao redor; de algum modo não me reconheço.

Sigo tateando. O tempo… O tempo corre e estou numa busca desesperada a alcançá-lo. Preferiria ter tempo a dedicar a este espaço que segue vazio.

Ela sobe as escadas e começa a arrumar os quartos enquanto as folhas amareladas lá fora caem. Continua seguindo esta vidinha sem importância, pensando no jantar das crianças. Talvez devesse ler o livro que pegara na biblioteca. Olha o relógio do microondas e percebe que elas estão chegando. Vai ao banheiro, sente-se pesada e cansada, quiçá se a semana passasse… Vivia disso, uma semana seguindo a outra, exatamente igual, até o momento da liberdade esperada. Quando ela chegaria?

As crianças chegam, exige-lhe atenção. Pensa nesta responsabilidade que escolhera, agüentada por uma razão desconhecida. Suspira. Lá fora o sol aparece, permanece sentada olhando-os, esperando as horas passarem e com elas, os dias. Vivia desta espera angustiante pelo futuro mergulhada no passado, até quando? Era uma espera; nem triste, nem alegre, apenas uma eterna respiração suspensa e um sentimento permanente de passagem.

Aquela casa, aquelas ruas, aquelas crianças, aquele país: nada era dela. Por isso, quem sabe, continuasse escrevendo as mesmas coisas dia após dia.
A noite chega e encontra aquelas amigas que tornavam os dias suportáveis e passa a noite, pesada, a vagar pelos corações alheios tentando esquecer o seu. Entre queixas e planos, todos misturados, pensa naquela vida compartilhada.

E o dia termina enquanto dirige, no rádio uma canção pop qualquer. Percebe a paisagem escura e indefinida lá fora passando a setenta milhas por hora e se reconhece; os pensamentos correndo. Solitária.