A chuva cai tranqüilamente e o vento sopra as últimas folhas avermelhadas ao longe. Uma névoa encobre as cores das árvores que enfeitam a paisagem. Eu sigo protegida do frio, não dos meus pensamentos. Eu, diferente porque ninguém passa impunimente os anos sem mudar. É, tinhas razão, castelos de areia não ficam em pé muito tempo.
Venha comigo, cresci; já consigo ver a realidade. Às vezes não gosto dela, mas sei o que fazer para transformá-la. Vem, posso construir lindos castelos de pedra e cimento que em alguns momentos lhe parecerão cinzentos, mas outros o paraíso.
Mudei? Claro, meus olhos não brilham mais com inocência, conheci o amor e o desespero e – apesar de confusa – sei o que quero. Também não me assusto com o fantasma da solidão. É verdade, já não te necessito e viveria sem ti mesmo que os dias não tivessem o mesmo brilho. Podes viver com isso?
É… os anos me puseram rugas e quilos a mais, a celulite chegou e não tenho a mesma beleza de antes. Porém ganhei um charme misterioso e um sorriso convidativo. Será que ainda quererás?
Não tenho mais aquela voz doce e suave de gatinha mansa, é que preciso ameaçar com coragem todos ao redor. Pois juro que posso ser amansada dependendo do domador.
Tentei tornar-me uma pessoa interessante, escrever poemas de amor; descobri que sou péssima poeta. Então escrevo estas linhas perfumadas com palavras bonitas para dizer que cheguei quase perto.
Ainda sou uma anti-social sociável. O problema é que não gosto de pessoas normais que fazem tudo igual, segundo um manual (olha! eu até consegui construir minha primeira rima. Estou chegando lá, não sei onde mas lá.
Quis chegar mais perto de mim e saber todos os meus segredos. Descobri que sou indecifrável e não existem segredos em mim.
Tem dias que sou muito triste, outros, muito alegre e consigo fingir qualquer coisa com um ar blasé. Todos os dias tenho que ser forte e ouvir que gostariam que eu fosse daquele outro jeito. Juro que tentei, mas acabei chegando a mim mesma.
Será que depois destas palavras ainda se decepcionará com o que verás? Estou me despindo, sendo mais clara que uma pessoa cinzenta como eu, mas não triste, pode ser. É, sou cinzenta e tenho um humor negro que me colore.
Os dias passam rápidos e já consigo ver a próxima e última curva, ela se aproxima depressa. O que ela esconde? Esconde-me e a ti.
É, eu mudei. Já não gosto de ti da mesma maneira. Não significa que gosto menos ou mais, diferente apenas. Aceitarás? Mande resposta, estou esperando. Talvez também tenhas mudado e não me deixe na companhia do silêncio destas palavras.