Novembro 2003


E finalmente consegui dormir, mas logo o telefone toca chamando para este mundo do qual queria sair, por alguns momentos. Alô? E a voz quer uma resposta, uma explicação, e meu cérebro permanece num lugar que só pertence a ele. O que eu tinha imaginado? Vazio…

Eu só estava confusa, não entenderás. Desculpe não ter explicações. Agora? Por que não agora? Será que temos tempo para ter dúvidas. Depois do início já é tarde demais? Só tenho tanto medo e não sei de quê. Talvez eu saiba, quer dizer, eu sei. Fico com medo e não gostares de mim e é tarde para isso…

Telefonaste para perguntar isso? Não, só queria pedir o endereço? Você o tem. Está anotado em casa, estou no correio agora. Ligas? Depois? Amanhã, quero saber desta história direito. Como assim… esta história não tem fim?

Palavras sinceras, mas confusas, rejeitadas, recebidas de mal-grado. Sei que dói ouvi-las; sei que demorei muito a dizê-las; eu sei. Sei que devia ter esperado que elas fossem claras; sei que me expressei mal; eu sei. Sei que estás com ciúmes; sei que não era o melhor momento; eu sei. Porém, falei-as e agora aguardo um telefonema para clareá-las.

Então penso durante esta noite fria, sozinha com meus fantasmas e barulhos. Não, os barulhos não eram meus. Rolando na cama porque eu não esperei o momento certo para começar a dizer todas estas dúvidas que eu tenho; falei, contudo. Talvez porque em mim as coisas têm que serem ditas num impulsivo, tenho que parar de pensar.

E tenho trabalho doméstico para fazer. Enquanto limpo isto e passo aquilo, todos os pensamentos vêem em turbilhão e me esclarecem. O fim do sonho se aproxima, eu quero a realidade. Já não tenho medo do que me espera, tenho medo do que imagino. Levanto a cabeça e busco as palavras perfeitas, se elas existem. Estou preparada para o telefonema.

Continuo desaparecida, pensando na vida. Pensando nestes escritos, insistindo em enfeitar as palavras para que um dia descubra saber combiná-las. Inevitável, penso em abandonar este espaço para propósitos diretos, contar-me objetivamente.
Continuo sonhando alto e não chegando ao enigma de meu próprio sonho. Não vivo dele, as palavras. Não são elas que me sustentam. Nestas amadoras escritas agora, descubro a mim, a elas. Vivo delas e delas sou sustentada. Será que deveria ter ambição para mais? Eu nem sei se ambição tenho.

Quero o mundo inteiro, pessoas estranhas e amigas, palavras minhas e uma casinha com rodinha. Contudo, abandonarei-me e terei uma vida absolutamente normal e as pessoas gostarão de mim e eu, delas. Gostar-me-ei? Não quero tentar ser o que não sou; quero palavras criativas e não circulares e que elas sejam limpas e diretas.

Quero paixão num dia chuvoso como hoje para compartilhar meus lençóis e a preguiça deste dia. Não, não direi bom dia a ninguém, quero isolamento total, apenas nós dois. Não terei fome, sobreviveremos trancados até que alguém descubra a chave desta porta sem cadeado.

Perdoe-me, sigo pensando em mudar este azul; talvez mudasse a mim. Acho que todos decifraram que não tenho mistério algum. Portanto inventarei um novo. Não é proposital, mas segundo o horóscopo chinês sou serpente, que todo mundo sabe muda de pele.

Tento decifrar-me, correndo para não ser devorada. Eu, esfinge. Eu, aventureira.

A chuva cai tranqüilamente e o vento sopra as últimas folhas avermelhadas ao longe. Uma névoa encobre as cores das árvores que enfeitam a paisagem. Eu sigo protegida do frio, não dos meus pensamentos. Eu, diferente porque ninguém passa impunimente os anos sem mudar. É, tinhas razão, castelos de areia não ficam em pé muito tempo.

Venha comigo, cresci; já consigo ver a realidade. Às vezes não gosto dela, mas sei o que fazer para transformá-la. Vem, posso construir lindos castelos de pedra e cimento que em alguns momentos lhe parecerão cinzentos, mas outros o paraíso.

Mudei? Claro, meus olhos não brilham mais com inocência, conheci o amor e o desespero e – apesar de confusa – sei o que quero. Também não me assusto com o fantasma da solidão. É verdade, já não te necessito e viveria sem ti mesmo que os dias não tivessem o mesmo brilho. Podes viver com isso?

É… os anos me puseram rugas e quilos a mais, a celulite chegou e não tenho a mesma beleza de antes. Porém ganhei um charme misterioso e um sorriso convidativo. Será que ainda quererás?

Não tenho mais aquela voz doce e suave de gatinha mansa, é que preciso ameaçar com coragem todos ao redor. Pois juro que posso ser amansada dependendo do domador.

Tentei tornar-me uma pessoa interessante, escrever poemas de amor; descobri que sou péssima poeta. Então escrevo estas linhas perfumadas com palavras bonitas para dizer que cheguei quase perto.

Ainda sou uma anti-social sociável. O problema é que não gosto de pessoas normais que fazem tudo igual, segundo um manual (olha! eu até consegui construir minha primeira rima. Estou chegando lá, não sei onde mas lá.

Quis chegar mais perto de mim e saber todos os meus segredos. Descobri que sou indecifrável e não existem segredos em mim.

Tem dias que sou muito triste, outros, muito alegre e consigo fingir qualquer coisa com um ar blasé. Todos os dias tenho que ser forte e ouvir que gostariam que eu fosse daquele outro jeito. Juro que tentei, mas acabei chegando a mim mesma.

Será que depois destas palavras ainda se decepcionará com o que verás? Estou me despindo, sendo mais clara que uma pessoa cinzenta como eu, mas não triste, pode ser. É, sou cinzenta e tenho um humor negro que me colore.

Os dias passam rápidos e já consigo ver a próxima e última curva, ela se aproxima depressa. O que ela esconde? Esconde-me e a ti.

É, eu mudei. Já não gosto de ti da mesma maneira. Não significa que gosto menos ou mais, diferente apenas. Aceitarás? Mande resposta, estou esperando. Talvez também tenhas mudado e não me deixe na companhia do silêncio destas palavras.

“E ele já provou?” Com esta pergunta todas sua certeza cai e ela já não sabe se ele a ama ou apenas diz. “Será que confiava demais? Será que preciso mesmo de grandes provas?”, interroga-se. As perguntas ficam sem respostas e o coração vai passeando. Lágrimas chegam a seus olhos, naquele momento ela estava certa que fora enganada por ela mesma. Deu-se conta dos sacrifícios feitos por amor e ele, o que fizera além de promessas. Era tarde, fora ela a culpada e a questão a rodeava.

E o que é o amor? Ele é feito de provas? Chora porque ela mesma nunca recebera alguma. Um momento e pensa nele e todas as lágrimas são derramadas junto com a certeza. “Por que ela fizera a pergunta?” E se perguntasse a ele? Ele diria sim porque seria perguntado. Como receber a prova espontaneamente? Agora já não acreditava nas promessas, nos presentes, nos telefonemas; já não confiava no que ouvia e sentia. Estivera cega – e ainda está – de amor. Confiou no amor que ela lhe tinha e ele, o que ele sentia?

Pensa na pergunta toda a manhã enquanto a chuva gelada caía lá fora. Talvez a chuva a fizesse esquecer. E como olvidar algo que pulsava dentro dela e desta dor, dúvida. Será que confiara no que não existia, inventara fantasias de amor? Passeia de gorro de lã e casaco pesado; vendo todos a andar esquecidos da dor que era dela; ela esquece também, pelo menos por enquanto.