Janeiro 2004


Uma neblina tão densa que nada posso ver; nada que esteja a mais de dez metros. O menino se perde por entre as nuvens. Eu me perco por entre as nuvens. Logo seremos achados. Quando? Até quando viverei perdida de mim mesma?

Não sei, ultimamente vivo para ver as horas passarem. As horas matutinas passam e enfim estou sozinha até… as horas vespertinas chegarem e tenho companhia até… as horas notívagas chegarem quando estarei sozinha até… Um trocar de companhia e estar sozinha até O dia em que não sei o que minhas horas reservarão. Solidão; solidão destas horas acompanhadas onde nenhum sentimento além da impaciência toma conta.

É que pensei que tínhamos nos aproximados, mas foi apenas uma falsa sensação provocada pelas pequenas tragédias, mas o dia-a-dia apagou a boa vontade, estamos todos do mesmo modo.

A neblina vai passando e devagarzinho eu e o menino vamos nos encontrando. Eu só não encontro a mim, perdida numa terra erma, sem fim.

Depois duma semana recusada em várias esferas, sobreviveu e era feliz. Agora resta ansiedade toda misturada a complexos sentimentos. Não consegue respirar somente de imaginar o que o futuro reservará. O dia está lindo lá fora e ela a pensar. Seu coração dói não sobrevivendo a este emaranhado de emoções; ela toda complexa. Corpo? Como lembrar desta dor se a alma dói em suspenso aguardando os segundos. Duas semanas e ver seu rosto. Quanto tempo faz mesmo que não o vê? Muito tempo… tanto que já se virou do avesso, tanto que já não se reconhece, tanto que já nem sabe mais.

Ah… estas mudanças. Doeu cada uma delas. Aquela dor de estar se perdendo, de estar se achando. Perdeu-se, achou-se; bilhões de vezes. Isso dói como imaginar o que será daqui a duas semanas e o que será depois de três… Mudará? A espera acabará? Com que disposição entrará? Fingirá que não tem medo apesar de sua alma tremer a trombar das pernas? A coragem e o sorriso são seus companheiros. Viverá leve apesar do pesar da dúvida.

Talvez devesse parar de pensar e viver a recuperação. Do corpo? Também e do coração; este carrega enfermidade muito mais complicada porque não descobriu o remédio que o cura. Ah… dor reclamando, dor perfurando e seu corpo a carregando. Segundos passam. Silêncio profundo, percebido por entres palavras apenas. O que falarão, não notarão a espera, toda a suspensão desta espera, mas são apenas duas semanas, uns piscares de olhos. Acordará, viverá as horas passando pela janela. Praguejará na velocidade dos ponteiros a rastejar.

Ah! Como dói esta espera; toda ela ansiedade. Como foi que ele disse? Pequena. E eu? É normal. Por que nela não pode ser assim, ansiedade pequena, normal. Não, nela cavalga, encontra espaço fértil. Foi tanta a espera e agora ela está a acabar. O medo é do fim dela? O que será que reserva o fim desta espera? Mais espera? Há de esperar estes dias passarem, fingindo que não os nota. Fingindo concentrar-se no livro, no curso. Fingindo brincar com muita atenção. A espera continuará aqui, doendo-a.