Lembrou-se que tinha um encontro de chuva. Chamou-o assim porque gostara da sonoridade. Além disso combina com aquele lugar onde a chuva participa de cada momento. Adentra sem pedir licença. Mistura-se a roupa, gruda o cabelo à cabeça e confunde-se com a alma. Ela sente que a chuva e ela tornavam-se uma só. Ela liquefazia-se. Ambas pareciam fazer parte de qualquer acontecimento ao redor, desde o nascimento das flores até a morte das pessoas.
Foi vivendo ali que aprendeu sobre suicídio por causa do tempo. Era como se, de tanto cinza ao redor, as pessoas se acinzentassem e chegasse a um tom tamanho que não aguentavam e davam cabo a elas próprias. Como as nuvens que de tão cinza tornavam-se chuva. Porém ela não é nuvem como aquele povo, é chuva, quase água e toma forma entre as raízes das árvores e a cabeça das pessoas. Ela transformaria aquele lugar, tão devagar, que ninguém daria-se conta.
Toma um banho rápido. Seria um encontro com meninas récem-saídas da adolescência. Sempre sentia-se velha naqueles encontros. Todas elas aproveitavam a liberdade récem-conquistada, enquanto a sufocava ser tão livre, avançar por tantas raízes. Queria ser árvore, ficar plantada lá. Ao mesmo tempo ser árvore a assustava tanto que, por isso, sairia hoje; por isso, não ligaria. Queria ser chuva e adentrar raízes e fazer passeios pelo mundo, voltar pra o céu em outra forma e viver num círculo entre viagens e formas.
Seu cabelo empastado e seu rosto vermelho de espinhas provocada pelo estresse semanal piora sua aparência, dá-lhe um aspecto ligeiramente desleixado, de pessoa velha que já cansou de cuidar-se. Escolhe uma calça jeans sem forma e uma camiseta branca por baixo do cardigã cinza com tênis combinando. Queria ser invisível naquele encontro, que ninguém percebesse que vivia a muito tempo. Porém ela não percebia que isso a tornava nuvem.
Pega sua bolsa nem pequena, nem grande. Busca um guarda-chuva preto, mas acha um outro grande não dobrável. Olha-se ao espelho e tenta arrumar o cabelo. Parecia que de repente já não quisesse estar invisível, como se pudesse. Ela nunca caminhava invisivelmente por aquele lugar. Seu cabelo, sua cor, seu tamanho; toda ela era diferente, chamava a atenção.