Fevereiro 2004


Lembrou-se que tinha um encontro de chuva. Chamou-o assim porque gostara da sonoridade. Além disso combina com aquele lugar onde a chuva participa de cada momento. Adentra sem pedir licença. Mistura-se a roupa, gruda o cabelo à cabeça e confunde-se com a alma. Ela sente que a chuva e ela tornavam-se uma só. Ela liquefazia-se. Ambas pareciam fazer parte de qualquer acontecimento ao redor, desde o nascimento das flores até a morte das pessoas.

Foi vivendo ali que aprendeu sobre suicídio por causa do tempo. Era como se, de tanto cinza ao redor, as pessoas se acinzentassem e chegasse a um tom tamanho que não aguentavam e davam cabo a elas próprias. Como as nuvens que de tão cinza tornavam-se chuva. Porém ela não é nuvem como aquele povo, é chuva, quase água e toma forma entre as raízes das árvores e a cabeça das pessoas. Ela transformaria aquele lugar, tão devagar, que ninguém daria-se conta.

Toma um banho rápido. Seria um encontro com meninas récem-saídas da adolescência. Sempre sentia-se velha naqueles encontros. Todas elas aproveitavam a liberdade récem-conquistada, enquanto a sufocava ser tão livre, avançar por tantas raízes. Queria ser árvore, ficar plantada lá. Ao mesmo tempo ser árvore a assustava tanto que, por isso, sairia hoje; por isso, não ligaria. Queria ser chuva e adentrar raízes e fazer passeios pelo mundo, voltar pra o céu em outra forma e viver num círculo entre viagens e formas.

Seu cabelo empastado e seu rosto vermelho de espinhas provocada pelo estresse semanal piora sua aparência, dá-lhe um aspecto ligeiramente desleixado, de pessoa velha que já cansou de cuidar-se. Escolhe uma calça jeans sem forma e uma camiseta branca por baixo do cardigã cinza com tênis combinando. Queria ser invisível naquele encontro, que ninguém percebesse que vivia a muito tempo. Porém ela não percebia que isso a tornava nuvem.

Pega sua bolsa nem pequena, nem grande. Busca um guarda-chuva preto, mas acha um outro grande não dobrável. Olha-se ao espelho e tenta arrumar o cabelo. Parecia que de repente já não quisesse estar invisível, como se pudesse. Ela nunca caminhava invisivelmente por aquele lugar. Seu cabelo, sua cor, seu tamanho; toda ela era diferente, chamava a atenção.

Ela acorda. Com o cabelo em desalinho e com os olhos ainda fechados vira-se para o outro lado da cama. Respira e o quarto parece impregnado de raios primaveris que timidamente penetra a persiana clara. Veste um pijama velho de flanela, meio fubento. A palavra fubento lembrou-a uma outra vida. Ela relembra. Vira-se mais uma vez dando costas à janela. Puxa o edredon e cobre a cabeça numa tentiva de esquecer que o dia começava. Por baixo finge que ainda dorme, espera o momento de ser acordada por ele. Um momento dura a espera; sabia que ele não estava. Quando percebe a loucura de imaginar, volta-se para a janela. Perdeu a vontade de continuar dormindo.

Sabia, aquele tipo de certeza vinda do conhecimento de viver a tempos no mesmo lugar, um lugar não dela, que lá fora as nuvens iam carregadas, que o sol tímido era apenas enganação do dia, “para animá-la”. E precisava deste ânimo especial, somente pra ela. Estica-se, olha o relógio, sete horas ainda. Seu dia de folga e não consegue dormir mais.

Tenta libertar-se destas pequenas tristezas diárias e concentrar-se na felicidade do futuro. Vivia assim, a espera dos dias futuros. Enche-se de coragem para acordar e vencer a chuva lá fora. Devia estar transbordando de felicidade, mas nesta manhã somente pensava nisso, no tempo.

As árvores balançam levemente ao sabor da brisa, sente. Ela sente-se balançada numa mistura de saudade e amor quase vencendo o tédio duma manhã de fim de semana. Espreguiça um pouco mais. Levanta-se e abre a persiana para ver o sol levinho escondido por entre as nuvens. Olha as horas, teria a manhã livre. Pega o livro. Vai o lendo, mas o som arrepiante do silêncio a faz parar.

Levanta-se liga o micro-sistem. Agarra-se ao livro. No ar ondas sonoras relembra-a momentos passado a pouco. As nuvens carregadas esperam o momento. Ela, carregada, espera o momento. Agarra-se as palavras, as lembranças. Um momento apenas, estava na hora de viver a manhã do lado de fora.