Março 2004


Está sozinha paralizada pelo medo de suas impossibilidades. Quer mais, mas não consegue mover-se. Presa a mercê do vento e da chuva, não consegue chegar a conclusão alguma porque o problema era insolucionável. Cala-se.

Não resta nada a fazer, fica ali parada a pensar. Pensar em quê? Pensar nestas pequenas dificuldades que dificultava sua saída dos espinhos. Era prisioneira. Sem ar, arranhada continua calada a espera que o problema se resolva, mas ele é insolucionável. Continua calada.

Porém seu pássaro vem com ela falar. A voz sai fraquinha e ela diz que se atrasará porque está presa num problema insolucionável. O pássaro pensa que ela está brincando afinal para ele era apenas voar e veria-se livre dos espinhos. O problema sufoca-a. Ela grita.

O pássaro percebe que ela está paralizada pelo medo. Pede para ela não dificultar a vida, “mova os braço e verá-se livre”. Livre pra quê se ela não sabia voar. “Tente”, cansado de ver suas alternativas recusadas, voa, mas antes diz que a esperaria. O problema parece enterrá-la. Ela berra deseperada.

Cansada, aos poucos vai sendo tomada por um ânimo inexplicável. Então o pássaro não ficara chateado. Talvez se usasse uma das suas sugestões. Puxa o braço e arranca a árvore espinhosa pela raiz. Os espinhos continuam na alma dela, no braço em carne-viva dela – por pouco tempo pensa, mas agora ela já está livre.

Encontra-se num estado mental confuso entre o sono que chegara cedo e os pensamentos que insistiam em atormentá-la com a pergunta, por que ele ligou? Tenta concentrar-se em outra coisa enquanto apaga a luz do quarto em tons de creme com quadros de motivos orientais. Bonito quarto, mas nunca escolheria aquelas flores secas para enfeitá-lo. Secas como sua alma, as flores apenas ressalta que ali não é o seu lugar. E onde é?

Tenta concentrar-se no seu lugar… não consegue recordá-lo com detalhes, mas lembra da bagunça, das roupas espalhadas, das paredes sem cor, disso ela lembra. E ali, as mesmas coisas espalhadas para relembrá-la. Cada dia mais a memória insiste em pregar-lhe uma peça, não lembrar. Cada dia mais torna-se um ser sem identidade, sem lugar.

O que fizera hoje? Tenta em vão se lembrar enquanto apaga desta vez a luz do abajur. Agora apenas a luz bruxuleante da televisão ilumina o quarto. O domingo passara e era como se não existisse, nada de importante a lembrar. Fora ao café, esperou um tempão pelas pessoas que chegaram tempo depois. Lembra-se por entre as nuvens geladas da solidão que avança pelo quarto. Não lembra da conversa o que não era novidade, afinal nenhuma daquelas pessoas a interessava. Porém lembra do sabor do café e, claramente, dos tomados em companhia dele.

Ele ligara? Parecia o telefone dele gravado no celular dela. O que ele queria, pela hora era bem tarde quando ligara. Quiçá fosse engano dele, como se fosse possível fazer um telefonema a terra estrangeira por engano. A lembrança dele toma espaço, refastela pelo quarto. Lembrança nítida, dalguns minutos atrás. Ela fecha os olhos, sente o perfume dele misturado ao de tabaco e os braços dele a enlaçando. Abre os olhos e vê apenas o velho quarto-não-seu rodeado pelas imagens dum canal qualquer.

Coloca a cabeça no travesseiro. Estrangeira e só, vivendo uma vida que não parece sua. Ela se perdera. O que fará para achar a si mesma? Chora, não agüenta mais aqueles dias iguais, se arrastando; não aguenta aquele quarto. Quer a realidade, não lembranças. Quando foi a última vez que ele a abraçou? Já não lembra… A sua memória não distingue tempo, separa somente em antes e depois. O depois é aquele quarto, aquela terra. É estrangeira e só, vivendo um dia na espera do retorno. Para onde? Para quem?

Por que viera? Quisera. Algumas coisas são desejadas e imaginadas a exaustão até que vivê-las torna-se chato e desnecessário porque torna-se realidade.

Ele ligara. Abraça o travesseiro; abraça-se. As lágrimas diminuem e seu corpo não soluça mais tentando encontrar-se. Mesmo com a cabeça cheia de angústia, dorme.

Dirige atentamente pelas ruas do subúrbio. Ruas vazias. Parecia um lugar fantasmagórico com grandes casas coloridas, imensos jardins sem brilho por causa do inverno que prolonga-se. Ninguém ao redor passeia sob as nuvens cinzentas. Todo o lugar era silêncio.

Ela tenta enxergar entre os grossos pingos que caíam com pressão, diminuindo-a enquanto passa. Vai com cuidado, ziguezaguendo pelas montanhas. Está no topo dela, lá embaixo vê apenas nuvens. Pode até encostar nelas ali de cima. Contudo, é hora de ir embora, por algumas horas abandonaria seu posto.

Seu carro entra na auto-estrada. Sente-se livre do vazio que ficou para trás. Ali o barulho dos motores falam com ela e dizem que está livre. Pisa no acelerador com força. O carro navega e banha os outros carros, os dois eram iguais chuva. Quer distanciar-se daquele mundo não seu o mais rápido possível.

Sente uma alegria enorme. De repente está sozinha no mundo e isto, em vez de amedrotá-la como normalmente, dá-lhe um poder, uma força. Naquele momento não depende de ninguém. Hoje não telefonaria, pensou por instantes; quer prolongar esta sensação até o insuportável minuto que eles precisassem dela, porque o que sempre acontecia é ela precisar deles.

Chega ao local do encontro. Estaciona o carro a menos de vinte metros, quase em frente ao café. Pega o guarda-chuva, o grande, abre-o. Prateado dum lado e vermelho do outro, ele era. Pelas ruas somente aquele guarda-chuva é capaz de dá-la alguma identidade já que segue invisível nas roupas deles. Passa despercebida; ninguém é encorajado a andar pelas ruas sob a chuva. Somente ela que é chuva. “Todos fugem de mim”, foi o que pensou.