As nuvens cinzentas não foram suficientes para barreirar o sol. Pelo menos hoje ele sorri e faz companhia a ela que acha-se heroína duma história muito estranha, sem diálogo algum. Procura nela mesma apenas um indício duma conversa real e não aquelas que moram nas lembrancas ou na imaginação. Não conseguiu. Lembra da conversa cortada pela empresa telefônica. Foi ao meio e ela não conseguira telefonar mais uma vez. Depois disso entrara naquela mau-humor rotineiro que piorara com a falta de alguém a quem telefonar.
Pensa em escrever alguma coisa que andava abandonada desde que entrara neste viver estranho, mergulhada no passado e no futuro. O presente é a janela e o tempo. Percebe que os dias passam porque o via despedindo-se dela e ela com o nariz no vidro a gritar em pensamentos, ” não vá sem me dizer o que devo fazer”, ” vá e volte amanhã com a solução”. A solução é voltar a sentir-se em casa. Pensa em conversar com as pessoas ao redor, talvez devesse reaprender a língua deles e sentiria-se ela novamente.
Suspira fundo como o vento frio que por hoje vence o sol. Lembra duma das conversas normais que tivera com ele. Falavam de noticias de pessoas em comum e coisas normais como fins de semana. Quando fora? Vivia numa terra sem tempo e espaco. Era ET, vivia num OVNI. Sentia-se descobrindo o X. A questão era: não é ser humano, é mulher.
Cansada, todos seus neurônios continuam parados por falta de alguém com quem compartilhá-los. E a primavera, sua companheira, fora embora e a deixara cinzenta e carregada. Deixara de ser livre como a água. Fora aprisionada.
A cabeça doí-lhe, o corpo grita liberdade e ela continua presa a terra estrangeira com uma vida sem propósito. Quanto mais pensa, menos o encontra. Sua vida era um acordar, ver a janela, conversar com o tempo e dormir. Também arrumava a casa e, às vezes, ela mesma na intenção que alguém notasse. Todos continuam a falar uma língua estrangeira que ela não tem acesso. E um dia ela acreditou que falava muitas delas.
Ultimamente concentra em imaginar uma maneira de reaproximar-se de sua terra, quer voltar, sentir-se em casa. Então colocara uma música que ela não escutava a tempos. Não conseguiu achar solução alguma, e continuava concentrada no passado, em lembranças que se não a leva a lugar algum, a mantém viva. Este viver vagabundo como ela apelidou. Os dias caminham e seu propósito continua no passado ou num futuro longíquo. Não vê esperança de vencer o isolamento de ser diferente.
Lembra. Ontem sentada enquanto colocava a mesa, pensou na pequena. Onde ela está? Fora a música que a lembrou da voz rouca da pequena e de sua própria num tom alegre que há muito tempo não ouvia. Sentiu um aperto no coração. Tinha que saber onde e como ia a pequena, mas ia tão concentrada nela mesma, em sobreviver a terra estrangeira que não sabia como vencer o casulo daquela vida em sua volta. Desde quando vive este mundo particular?
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Suspira aos muitos enquanto coloca a roupa na máquina de lavar. Sua vida se resume a suspiros e os espaço entre um e outro, vazio. Roupas para lavar, comida no microondas, louças na lava-louças, trocar roupa de cama: uma vida não pode ser isso. É os suspiros e aqueles pensamentos que o ocasionavam. O último veio duma pergunta que cruzou seu cérebro inesperadamente. “Por que não reconstruía sua vida naquele lugar?”
Abriria a porta e deixaria pessoas entrarem. Insistia nas velhas, nas lembranças, nos mesmos pensamentos. Barrava a entrada com móveis de jacarandá na tentativa de manter sua vida naquele eterno suspirar. Conseguia.
Permanece em silêncio, enrosca-se as lembranças e desejos. Está tudo findo, afinal escolheu uma nova terra, um novo caminho. Enquanto isso vive em pensamento a velha e imagina o dia em que voltará. Voltará mesmo? Porque naquele cruzar da pergunta foi acometida dum arrepio que a negava. Está tomando existência de personagem, não é mais a realidade que a empurra a manter as palavras. Tem agora uma vida separada, de desejos e pensamentos que a diferem do autor.
Fecharia seu coração aquele ingrato que tentava decifrá-la. Insistiria em viver uma vida como a dele, com as mesmas lembranças, pensamentos e desejos. Teria um futuro igual ao dele, feliz. Desta vez não consegue, é tarde.
Então, se não é saudades o que provoca seu suspirar além da falta dele. É a falta dele. Não o dele do autor, mais o dela própria. Este que ambos escolheram, mas que por motivos diferentes vive distante. Agora adquire vida própria com anseios próprios e um amor somente seu, abandonado porque ela escolhera a terra estrangeira. Onde é a sua terra? E onde se encontra agora? No mesmo lugar, o problema é ela, dentro dela.
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Amo-te. A palavra apareceu em um presente sem cartão. A frase estava lá, estampada na capa. Parece que ele adivinhou que precisava escutar isso. Apesar de saber do sentimento, pensava em dificuldades e palavras ásperas.
Foi de surpresa, em geral era avisada das correspondências mandadas. Quando o carteiro chegou, pensou que era da outra. Estupefata, apenas em letras garrafais amo-te e nada mais.
E sentiu-se suspensa. E o dia tinha cheiro de flores. E o sol apareceu tímido por entre as nuvens. E seu sorriso estava na face.
Esqueceu as palavras duras trocadas. Esqueceu que não tinha alguém. E lembrou que não era verdade; mesmo longe ele estava com ela. E suspirou bem fundo. E agradeceu carteiro. E a felicidade voltou a vida.
Agora quer ser mimada e quer mimar. A independência parece acabada. O coração anda solto. E a felicidade está à distância. E a felicidade está dentro dela.