Maio 2004


Neste tempo mergulhou profundamente em descobrir-se. Cada pedaço dela fora devastado por ela. Entrara em profunda comunhão com as coisas ao redor. Fora por isso que se apegara ao quarto, ao jardim, a paisagem verde-clara. Agora está livre, mas precisa comunicá-lo. Agora que libertou-se, percebeu que precisava falar, mas por razões técnicas não conseguia.

Blasfema, mas pede perdão em seguida. Como ele poderia ligar se ela pedira para ele não o fazer… e quando ele tentou ligar deixara ele mudo, apenas percebia o número de telefone dele gravado no aparelho, mas nenhuma mensagem. Era apenas um modo dele dizer que estava pensando nela. E hoje quando finalmente pensava claramente nele do mesmo modo claro que ela pensava nela mesma, ele não pensava nela. Será que ele tinha desistido?

Olhou o tempo e conversou com ele. Sabia que ainda tinha que esperar. Não porque queria mas porque a vida assim determinava. Agora o entendia. Quando ele dissera ainda não, não significava que ele não a queria ou não estava preparado, apenas não era o momento. O mundo gira e coisas além do oceano e deles os controlavam. O adeus a terra estrangeira significava que podia encontrar outros. Agora estava preparada para conquistá-la antes de voltar a sua própria. Estava preparada para vê-las.

O sol estava forte. Sorri. Ela e o mar é um só. Queria se juntar a ele, ser apenas um. Apenas um enquanto, ela tinha que esperar.

Sente-o quando os cabelos são alvoroçados pelo vento. Fechar os olhos e sente os lábios dele docemente, vorazmente nos dela. Como precisava dele apenas ali ao lado. Não o quer mais porque precisava dele para ser feliz. Quer-o. Precisa da companhia dele que percebe-a mesma sendo duma simplicidade e complexidade absoluta. Era aceita.

Sozinha aparentava uma calma solitária enquanto caminha pela praia. Com ele nada era plácido, era mar bravio e as ondas corriam pela areia. Com ele existia a possibilidade de expressar-se. Se ele a ligasse… Checou que seu telefone recebia chamadas apesar de não as fazer. Se ele em outro mar em parte desta imensa terra estrangeira pudesse captar seu chamado. Será que ele não está neste momento a pensar nela e a senti-la? Será que, neste caso, ele também tem um imensa vontade de com ela falar? E se tivesse, ele ligaria mesmo que ela tenha dito que não queria falar com ele enquanto não se descobrisse? Talvez ele não a sentisse tão bem assim. Tem certeza que ele teria medo de acreditar, se sentisse, que ela o quer. Fora ela que o rejeitou.

Não foi uma rejeição propriamente. Apenas dissera que não o queria por ora já que tinha que esperá-lo. Queria ser cruel e fazê-lo esperá-la. Foi isso! Estava tão desesperada e sem rumo por saber precisar dele que então planejou fazê-lo esperá-la. Sem muitas palavras, dissera que precisava pensar.

Um pássaro cruza o céu brilhante e relembra-a o mundo e ele. Quando finalmente ele iria buscá-la? Já está farta de viver só e a pensar nele. Ele dissera apenas um pouco mais. Lembra-se que tivera um acesso curioso de fúria, desapontamento e abandono. Desistiu de todos, tudo, até das palavras. Aos poucos o desapontamento foi virando apatia e a fúria acabou. Não vivera, sobrevivera aos dias. Porém ela retornou, cansou daquele quarto. Naquele momento em que disse um pouco mais, a fúria a libertou. Agora é a saudade e a esperança que a fazem feliz. Sente-se diferente. Voltou a ser ela.

Precisou encontrar-se. O oceano a recarrega. O sol a ilumina. Seus cabelos ganham tons dourados. Ela quer ligar, mas está impossibilitada de usar o telefone. Tem um telefone que não fazia ligações. Como alguém possui um telefone que não liga. Era como ter lâmpadas numa casa onde não havia energia elétrica. Como ser mulher sem ele.

Por causa desta impossibilidade não telefona apesar de sentir uma necessidade quase absurda de ouvir sua voz. Sim, foi ela que o abandonara, dissera que precisava de tempo. Agora, entretanto, sentia-se preparada mas tinha este compromisso que a mantinha ali à terra. Foi ali que se libertou da apreensão. Foi então que descobriu que precisava dele.

Sente-se. O sol brilha no céu, cega-lhe os olhos. A brisa afaga seus cabelos. Ela é real. Caminha pela praia solitária, mas sente seu coração encher-se como a muito tempo atrás. É toda sentimento. Lembrar ela e ele enche-lhe de saudades. Quase tocava-o. Esperava num caminhar mole, o tempo. E hoje ela é preguiçosa como ele e feliz ao mesmo tempo. Hoje não tem pressa.

Pacificamente vê as ondas chegarem aos seus pés. O mar trazia-lhe presentes, oferta-lhe. É como se o mar a ligasse finalmente ao mundo. Volta a ser água, mas não da chuva que caminha em círculos. Condena-se a viver como água do mar e ama. Está em seu estado puro, juntaria-se a suas companheiras, gotas como ela. Ou é onda? Ainda não sabe, mas sabe que era parte do mar. Por isso é azul plácida.

Como as ondas suas emoções arrebentam-se e depois voltam ao mesmo lugar. Ganha o mundo e toda sua extensão. Não, o mundo não era aquela terra. É todos os oceanos e ela, ambos feitos da mesma substância. Juntos cruzariam o planeta e chegariam a outras terras. Existe milhares delas.

A noite tivera um sonho estranho. Sonhara que ligava, mas alguém – não conseguia reconhecer a voz – estava ocupado demais para atendê-la. “Liga amanhã”, foi o que dissera. A imagem não era clara e agora tentava calmamente descobrir se era criação ou lembrança. No sonho ela falara adeus antes de emudecer. Fraquinho fora o adeus antes de desligar o telefone e chorar. Tinha a sensação que não fora a primeira vez.

Não, não era sonho. Lembra-se neste momento. Precisou emudecer milhares de vezes para finalmente calar-se de vez e entrar naquela existência solitária. Abandonou-os. Abandonou-se. Como pudera esquecer? Pergunta-se enquanto levanta de salto da cama. Pega o telefone, queria dizer ao mundo que lembra d’algo, mas continua muda.

Olha a janela a procura dos seus amigos, mas ela está bloqueada pela persiana. Não lembra de tê-la fechado na noite anterior. Talvez tudo fora sonho. Não podia ser, lembrava do cheiro das fl… Cheiro de quê se sempre estivera dentro da casa de cheiro artificial. Fora tudo sonho? Nunca conversara com as flores, com o jardim, com o sol? Vivera como realidade, então realidade era. Ou não?

Não, não adianta pensar sobre isso. Pergunta-se a pergunta errada. Está na hora de falar com o mundo. Precisa se despedir do de seu pequeno quartinho e caminhar no mundo. Aprenderia a gritar, sabia. Sentia que podia começar a gritar a qualquer momento.

Nesta viagem não precisa de nada além dela mesma, dum caderno e um catoquinho de lápis. Era adeus à ela, à seu espaço de fuga, é hora de viver. Ela voltaria quando estivesse segura. Ela voltaria quando estivesse preparada a entrar e sair, sem precisar fugir. Este não é seu espaço de fuga mais. Adeus.

Deita-se. É hora de dormir. O céu está escuro com estrelas brilhantes. Ela parara com a cabeça inclinada sob o travesseiro a olhar a paisagem escura. Às vezes parecia entrar em transe ou parecia dormir. De repente abria os olhos calmamente, estava apenas pensando. No que ela pensa? Em tantas coisas… coisas como a sua vida. Ela reflete-me, criador e criatura juntos.

Àquela hora ouve-se apenas o silêncio inquietante da casa. Esta noite ele não a amendronta. Pensa no dia da partida, era hora de abrir seu mundo a outras pessoas. Está preocupada, não tinha espaço para todas as coisas, algumas seriam deixadas para trás. Empalidece. Como deixar as porcelanas, os brilhos e viver um vida apenas do essencial nela. Não usou ainda porcelanas e brilhos no mundo, mas acha que um dia iria precisar.

Fecha os olhos, amanhã ainda ali estaria e depois d’alguns segundos começaria a arrumar a casa e sairia para tomar um café. Voltaria ao jardim e veria-o sem a janela a interceptá-la. Faria um lindo dia de primavera. O sol iluminaria. A brisa timidamente daria seu adeus. Somente o gesto de de sair ao jardim já prenunciava o futuro. Ela está preparada para conquistar maiores espaços. O jardim é dela, agora quer a casa inteira.

Está muda. Pega o casaquinho para aquecê-la naquele fim de noite. Senta na cama e olha pela janela a paisagem em verde-clara. Apesar de entediada sentia um medo grande de abandonar a conhecida paisagem lá fora. Viver um outro mundo, mesmo aquele ao qual fora acostumada, parecia-lhe impossível. Asfixia-a este novo mundo somente de o pensar.

Coloca a cabeça no travesseiro. Estava a espera do dia do reencontro. Porém, para puní-la, o tempo passava tão devagar que ela nem sentia a brisa. Há quanto tempo está ali preparando-se para reentrar no mundo. Porque na terra estrangeira vive à parte. Vê os outros, vê os seres humanos e sente-se cada vez menos um deles. Somente quando caminha, mas estes dias estava chovendo… Adorava caminhar pela sua rua porque nunca encontra ninguém que lá passe apesar das casas que via. A rua é longa, muitas elevações onde ela descia e subia. Está sempre vazia, é sua. E apesar de não encontrar alguém, sente-se perto de todos na sua rua.

Sente-se cansada. Se ao menos ele estivesse ali… Quem o mandou embora? Fora ela ou a vida? Isso não importava mais. Entretanto como fazer para reaprender também a linguagem dele? Perdera toda sua voz. Tem uma rua, vazia, ninguém a fazer companhia, somente o mundo, vazio.

Resolve empacotar toda sua vida vivida, mas como empacotar seu coração. Sentirá saudades da rua vazia, da vida vazia, da paisagem, a única coisa que a enche. Conversará com as pessoas, mas perderá a paisagem verde-clara, a janela, o conversar com o tempo e com o espaço. Tornara-se sobre-humana e nunca poderá voltar ao que era sem certa dor. O que tornará-se então?