Está no apartamento. A chegada foi feliz. Eles lá a esperavam e ela pode então abraçar cada um deles e demorou os aproveitando. Depois foram almoçar juntos. Ela não mais lembrava deste sentimento de felicidade por estar entre pessoas. Falou. Eles fizeram milhares de perguntas e ela respondeu-as. Porém com exceção destes momentos onde era exigido uma resposta, permaneceu calada escutando. Sorria.
Eles todos estão contentes. Não lembrava que sua presença era motivode felicidade. Naquele momento sentiu-se importante e não sentiu falta de nada, nem de ninguém. Ficou ali respondendo uma ou outra pergunta enquanto deliciava-se escutando. Lamentou também a solidão em que vivera na terra em que ele a deixara, Agora percebe, não a quer mais. Porém como a outra, querida, tão bem lembrou, era apenas opinião pela excitação do reencontro com sabor de novo lugar. Quando permaneceria no mesmo lugar? Quando achasse um que lhe pertencesse. Ali vivera, mas continuava chamando de terra estrangeira porque também não lhe pertencia.
No fim do almoço foi levada ao apartamento. Cansada queria jogar-se na cama que ocuparia. Pelo menos por aquela noite sabe-se em paz. Estava na terra deles, mas a reconhece como parte dela já que eles também o era. Tinha desistido do jardim, da natureza para juntar-se as pessoas.
Quando chegou em solo estrangeiro seus olhos foram cegados pela luz. Era um dia tão claro, mesmo inverno, que teve medo. Seu corpo não está acostumado a tanta luz. Sai do avião. Espera a bagagem enquanto bate a ponta dos pés no chão; um vai-vem para o alto e para baixo que planeja acalmá-la. Como será recebida?
Lentamente as bagagens rolam como ela rolava dum lado a outro, de lugar a outro. Está ansiosa para saber como interagiré com todos eles. Permaneceu calada durante toda a viagem.
Durante o vôo tentou prestar atenção em cada gesto dos outros e no espelho do pequeno banheiro tentou copiá-los para que não sentisse deslocada. Acha que os dela ficaram artificiais. Tentará praticá-los até os reconhecer nela também.
As malas finalmente aparecem no início da barra de rolagem. Ela tenta concentrar-se na tarefa de pegá-las e colocá-las no carrinho. Com elas no lugar ela se empurra na direção da saída.
O homem da alfândega pergunta pelo formulário. Ela prepara-se, pega-o na bolsa e o entrega. Pensa em como sairá sua voz depois de tanto silêncio. Ele analisa o documento, pede para ela colocar as bagagens em mais uma esteira e a deixa passar. Ela sabe que irá abrir a boca quando os encontrar. O que falará?
Desde que levantou vôo, tinha a impressão que ia a lugar nenhum. A imagem daquele lugar deixado, era fraca e lembrava apenas algumas fracas vozes. Ao seu redor, as pessoas falavam diferente línguas e ela compreendia todas. Era como se fosse ao mesmo tempo moradora de todos os lugares e nenhum ao mesmo tempo. Agora os compreendia.
Assustada, encolhe-se na cadeira apertada da classe econômica. Era habitante do mundo; tem passagem por todos os lugares, mas nenhum era dela. Será que quando ela o encontrar, mudará? Hoje teve dúvidas se ele é oseu lugar.
Respira fundo a espera da aterrissagem . Como seria o encontro com seu outro passado. Depois que viveu estrangeira em tantos lugares, sente-se estrangeira mesmo em seu jardim. É um ser a parte que falava todas as línguas, mas nenhuma era dela.
É estranho. Não está acostumada apesar de aos poucos reconhecer as palavras, as imagens. Sente-se diferente e ao mesmo tempo parece a mesma de tempos atrás. Será que o sofrimento que viveu não vale nada. Fingiu esquecer todo o passado e com isso esqueceu das coisas boas e más.
Fica em frente da casa a espera do carro que virá buscá-la. A todo momento sente olhos a espreitá-la. Olhos que a inquirem, a separa e a junta do modo que desejava. Sente-se sufocada. Olha ao longe, cadê o carro? Procura-o enquanto sente os olhos a pousar nela. Qual será a hora em que eles perceberiam que ela mentiu? O coração dela aos pulos, a garganta apertada e a voz fraquinha, todos a espera. O carro chega.
Enquanto senta-se no banco e o motorista dá partida sente o ar voltar aos pulmões novamente. Era como se apenas longe dali vivesse. Respira com dificuldades, acostuma-se ao ar e sorri. Os olhos, os inquisidores estavam longe. Adeus árvores e verde, ela despede-se silenciosamente.
Quanto mais o carro toma distância parece que a liberdade se aproxima e a felicidade de tê-la também. Mesmo que sofra, será um sofrimento seu não da solidão, ou do jardim, ou do tempo, ou dos olhos. Quando o carro chega ao aeroporto, adquire imediatamente uma nova vida objetiva. Ela passa a resolver sua própria vida. Depois de deixar a bagagem, passeia pelo terminal; encontrou-se.
O ar que chegou fraquinho num primeiro momento, agora invade com profusão. Desacostumada engasga. Sente-se feliz e amendrontada. Aliás a nova terra a apavora também. Porém ao saber finalmente longe da antiga a coragem a enchia. Passeia entre café e pães a procura de outra terra.
A casa vazia. Apenas ela e as malas no meio do quarto vazio. Sem nada a fazer, a não ser esperar, ela observa o jardim pela última vez naquela que fora a prisão dela mesma. Aguardava apenas a liberdade com a mala na mão enquanto olha o triste jardim – verde, florido e triste. Uma tempestade parece se aproximar deixando o céu negro. Parece que o mundo quer impedi-la de abandonar a terra estrangeira, mas era tarde. Ela necessitava partir.
Deita-se no chão do quarto vazio e vê o céu cheio de nuvens. O céu range, implora para ela ficar. Ela espera a fúria passar. Seu medo era que a tempestade a impedisse de partir. As árvores balançam violentamente, folhas são arrancadas e ela, no quarto a espera que a deixassem sair.
E s’ela enfrentasse a tempestade? Tem coisas que não podem ser enfrentadas, pensa, mas lamenta-se em seguida. Se continuasse pensando assim continuaria no quarto vazio com medo de encarar a tempestade. Grandes olhos agudos que tentavam quebrar os ventos com fúria.
Sente-se triste como nunca fora. O fato de perceber que algumas coisas a derrotavam antes mesmo de começar faziam-na encolher como bebê no chão frio do quarto vazio onde a mala está encostada na parede. Ela precisa ir embora, agora tem certeza. A tempestade – e o medo dela – apenas confirmou seu anseio de partir para terra estrangeira. Aquela em que vive nunca a fez sentir-se em casa. Necessita de novos ares.
Boceja. O frio a congela e faz sentir-se cansada rapidamente. Isolada, sem nada além das malas, dela própria e seus pensamentos pensa em como poderia se livrar daquela terra que insistia em mantê-la presa.
Olha em volta. Tem a impressão que o quarto era menor quando vazio. É como se os móveis o enchesse de luz. Será que quando se esvaziasse de seus sentimentos ficaria pequena como o quarto? Talvez por isso sentisse minúscula; pequenina criatura ela era.
Levanta-se. Arranjaria algo que a tirasse dali. Talvez ficasse um dia a mais, porém sabia que a liberdade estava dentro dela.
É a hora, percebe sentada num banco observando o jardim. Depois do encontro com o mar e da redescoberta dum pequeno passado não fazia mais sentido estar sentada vendo o tempo passar.
Tinha feito as malas. Aguarda ansiosamente o dia com o bilhete na mão. Ao mesmo tempo acha que não faz sentido algum esperar quando queria ver. Então marcou um encontro.
Respira fundo o ar fresco e a brisa molhada. É a hora. Por que ela não chegou ainda? Os dias caminham nublados. Parece que percebeu que ela partirá. Para onde? Para terra estrangeira. Partir duma terra estrangeira a outra não faz o menor sentindo, ela pensa. Porém sabe que ela não tem o menos sentido mesmo.
Ela tinha sua terra. Enquanto não está preparada para revê-la iria rever outro mundo que incluía pessoas. Não pode viver isolada. Sabia disso, mas se sentia impossibilitada de mudar. Já está a aborrecendo saber tanto sobre ela mesma.
O mundo era apenas o que via, suas cores e suas formas. Por isso o jardim era o lugar preferido mesmo em dias nublados; ali as cores existiam. Era a sua despedida, sente. Pensava tanto nela e agora a vive realmente. Qual seria a primeira palavra? Para quem a destinaria?
Está de mau-humor. Amanhecera bem, pensara nele, mas aos poucos a falta de comunicação fora a contaminando. Agora se sente inadequada novamente. Ouve vozes barulhentas chamando sua atenção. Cala-se.
Era um nervosismo estranho. Acabou o tédio, mas esta indefinição a incomodava. Vive-a. Também esperou que ele ligasse, mas ele não ligou. Ele não ligava a muito tempo e a última vez que escutou sua voz na secretária eletrônica parecia entediada. Parecia não esperar mais.
Pensa novamente em sua vida. Toda ela parece caminhar dificultosamente como se fosse uma pessoa a beira da morte. Nada acontece para felicitá-la; apenas o mesmo eterno passar das horas.
Pensou que a proximidade da partida significaria algo. Significa apenas espera. Quando chegará seu destino? O destino chega para alguém? Porque tinha a impressão que se ficasse ali pensando por horas continuaria ali. O destino seria pensar.
Hoje tinha medo de voltar. Sabe que não o encontraria em breve e sentia medo. Uma mudança de terra não significava necessariamente que mudaria ela mesma. Porém sabia que precisava testá-la na presença d’outras pessoas. O problema é que sempre se sentia sozinha, como agora, mesmo quando tinha vozes ao redor dela.