Agosto 2004


Um Rio de Janeiro que poucos notam é aquele que existe entre as ruas estreitas e os prédios antigos a margem da Primeiro de Março. Grandioso, tranqüilo e cultural. O Rio guarda esta alma velha enquanto inventa moda de mundo moderno.

Hoje estava andando pela rua do Rosário após o almoço, entrei num sebo e pude ouvir samba enquanto folheava páginas de livros amarelados procurando apenas alguma coisa para ler. Pensei que talvez tivesse que fazer um inventário de coisas a doar com a mudança de apartamento e não comprar mais livros que serão em breve empacotados. Então, enquanto olhava um livro de poesias do Drummond, pensei em telefonar, mas achei que não era o local mais adequado. Silêncio apenas recortado pelo samba do Martinho da Vila, naquele momento.

Procurava um livro de ficção qualquer. O apartamento nestes dias anda uma bagunça. A desorganização era por uma preguiça provocada pela temporalidade. Sei que sairei de lá, mas nem escolhi um novo e nem sei quando o escolherei. Então, no momento que achava na prateleira um livro da Nelida Piñon, pensei que todos os meus problemas era devido a minha preguiça. Tinha preguiça até de telefonar. Então sempre mandava e-mails que nunca eram respondidos.

Peguei o livro, fui ao caixa e resolvi que era melhor pensar na mudança. Não posso deixar tudo para o último momento. Pensei em levar também o livro de poesias, mas não estava com dinheiro suficiente. “Tenho que me desfazer de algumas coisas”. Vou ligar hoje. Que horas são? Tenho tempo de ligar antes de acabar a hora do almoço.
divagado por ANdarilhA

A outra, que a conhecia desde gente, estava certa. Passado o primeiro momento de felicidade, a terra estrangeira a contaminou. Não do modo apático da antiga. A nova a deixava nervosa, andando de lado a outro pelas ruas tumultuadas. Entre a solidão da casa vazia e das ruas cheias pouca coisa mudou. Encontrava-os em alguns momentos. Porém os encontros não tinham a mesma magia do primeiro. Eles já a consideravam um deles.

Começou a reaprender a comunicar-se com os estranhos que passavam. Foi fácil. Algumas vezes não sabia se preferia a antiga ou esta, mas quando ouvia sua própria voz, sabia estar melhor. O único problema era que ali não tinha os telefonemas não atendidos dele. Vivia num ostracismo dele. E não era porque ele não sabia que ela ali estava. Escrevera-lhe uma carta. Ligar, não ligou uma única vez.

Logo agora, ela pensou, que ela voltou a falar. Agora era ele quem a esquecia. Será que ele não mais a quer ou está apenas ocupado demais. Quem sabe não era artimanha para sentir falta dele. Queria-o.

Senta-se na janela enquanto observa a paisagem lá embaixo. Precisa entrar na terra e torná-la dela. Não quer mais pensar nele e passar o resto da vida procurando um lugar que a fizesse sentir-se em casa. Desistirá. Agora quer uma vida. Tem pessoas ao redor que a fazem sorrir; não precisa dele. Não, invadirá o céu, tornará-se chuva e cairá entre os espaços. Germinará e se espalhará na terra. Mesmo pensando nisso uma dor no coração a toca. Ainda é saudade.
confessado por ESTrangEiRa.

Um desânimo + um desânimo não é igual a dois desanimados. É igual a desastre. Não sei se foi inconscientemente, mas quando a soma foi feita, o meu foi embora. Era para ouvir o outro desânimo que confessei o meu. Não sei.

Foi como se o sol tivesse subido por sobre a noite. E as fumaças de diversas comidas adquirissem cheiro de flores. E a lotação da condução não fosse notada. Como s’eu tivesse renascido de pequenos objetivos desimportantes. Podem não ser importante pr’o mundo, para mim são.

Desde desta noite, o desânimo não mais entrou em mim. Talvez não esteja contaminada pelo grande ânimo, mas tenho a medida certa para viver em momentos complicados como esse. Eu acordo. Eu vejo o sol. Eu suspiro. Eu sonho.

Hoje o placar está ainda desfavorável. Um desanimado ainda é um pequeno desastre. Mas, quem sabe, daqui a pouco um animado não contamine o desanimado e possamos fazer a festa. Um ânimo + um ânimo é igual a felicidade.

Animado por DULCE de leche.

Passeie pelas ruas e verá rostos femininos um tanto quanto emburrados. Claro que cada uma pode ter seus problemas, mas o que todas as mulheres emburradas tem em comum em pelo menos 40% é a torturante missão de andar com saltos altos finíssimos.

Os saltos altos, ninguém pode discordar, são lindos. Quanto mais alto, fino no salto e no bico, mais bonitos. Contudo estas obras são essessivamente cruéis a pés delicados que tentam se equilibrar em ruas que não são modelos de calçamento.

A uns anos atrás a moda era os saltos plataformas e anabelas. Convenhamos, não tem a menor graça. Sim, são bem mais confortáveis, mas não são tão bonitos quanto seus irmãos escapin. O salto dez, então, fica lindo; apenas na loja. Toda vez que vejo um exposto nas vitrines imagino lindos pezinhos torturados andando no calçamento de pedras do centro do Rio de Janeiro. Tortura.

Confesso que aderi aos saltos a pouco. Ainda sou uma amante do tênis, principalmente nos fins de semana. Mas como perco em altura a todas as pessoas no meu trabalho (porque todas insistem em usar a máquina de tortura) resolvi experimentar. Meus pés tem andado lindos, mas as custas de bastante sacrifícios. Masoquismo na certa pela elegância e altura.
revelado por coMONICAdora.

O dia dum azul anil e eu a sonhar com dias que chegarão. Ao me deparar com o tempo passando tão depressa, sobressaltei-me. Não, eu não quero passar mais um dia sem viver. É que um corpo anda, mas a cabeça vai longe. Nada mudou.

Mais eu planejo um dia feliz e ele chega naquele passeio a trabalho numa manhã de sol. Respiro o ar meio úmido e cheio de vontade. Lembro outros lugares, outros ares. Quero viver um dia feliz, mas a cabeça anda nas nuvens. Como assim nada mudou?

É esta mesmo a minha vida? Posso agarrá-la e levá-la pra casa? Ultimamente anda tão sem graça que continua lá na prateleira a espera. Tenho que colocar minha vida na vitrine e enfeitá-la com acessórios lindos, quem sabe eu não a levo pra casa. O problema é que a cabeça está em outro lugar. Eu quero que isso mude.

Por que não me movo e cismo – com este jeito meio besta que tenho – que minha vidaé apenas esperar. Eu a quero começar agora, neste fim de noite enquanto eu apenas espero a hora para ir para casa. Esperar não mais. Eu vivo as palavras que escrevo.

Então, quando lêem este último parágrafo, sabem que não espero mais nada. Agora, agora é a hora. Vou embora. Vou ficar. Não importa. Eu vou ser feliz. Eu sou feliz. Quão poder têm as palavras. Eu preciso aprender a empregá-las.
vivido porDULCE de leche.

Era um senhor bem velhinho. Tinha mais de setenta anos de certeza. Estava em frente a mim na condução. Levantei-me por delicadeza. Ele agradece, saí uns instantes procurando alguém e volta com a senhora, também velhinha, a quem cede lugar. Logo depois a moça ao lado dá lugar ao senhor. O casal – agora sentado – se dão as mãos.

O gesto ficou até agora, meio da manhã, em minha cabeça. Tão singelo, tão humano. Talvez sem o ímpeto dos jovens – que vivem se agarrando na condução – mas por isso mesmo amoroso. Afinal ninguém fica tanto tempo junto e ainda se dão as mãos e sorriem um para o outro se não existe amor.

Talvez o casal não tenha passado tanto tempo juntos. Mas preciso acreditar que o amor permanece. Então o elegi – aquele casalzinho enrrugadinho, lindo – como modelo de casal que fica junto depois de anos. A eleição foi por falta de modelos em minha vida. Quão poucos casais eu conheço que tenham passado uma vida toda juntos. Os que passaram, por acaso, seguem andando ele na frente, ela atrás. Casal que se dá as mãos na condução eu nunca vi.

Estou passando por uma fase em que preciso de modelos. Os casais que eu conheço que já tenham passado de um ano juntos, são quase inexistentes. Todo mundo solteiro, inclusive eu, procurando sua cara-metade. Talvez porque todo mundo vive uma era do eu. Eu sou importante. Eu e meus projetos. Eu e minha carreira. Fica difícil numa vida dessas encaixar um outro.

Deixamos os nossos planos amorosos de lado. “Mais tarde quando tiver tempo, agora quero me dedicar a uma carreira”. É a frase que mais ouço pelas ruas. Mais ao mesmo tempo todo mundo saia a procura do outro. E como não o encontra – não estou analisando o porquê disso ainda- diz que está se divertindo. Eu confesso, queria ser uma velhinha enrugadinha que rir para as pessoas enquanto abraço o meu amor.
desejado por ANdarinhA

Estava a andar pelas ruas e me deparei com minha voz. Estivera muda. Quando a encontrei reencostada, tão desprotegida e só, resolvi dar voz a ela.

Lembrei deste espaço abandonado por que não havia o que dizer. Quando a caixa de pandora foi aberta, tive que gritar. E grito.

É o reinício, mas nada volta do mesmo ponto, do mesmo modo. É um começo. Abrirei espaços para outras esfinges – que como eu – querem ser decifradas e ter as portas abertas pelo aventureiro que achar o enigma.

A primeira voz é a minha. Alma antiga, às vezes alegre, às vezes triste. Alma cinza que às vezes assume cores pálidas pastéis. Alma que parece quieta, mas que muitas vezes grita baixinho – como agora. Volto. E quando lá embaixo estiver meu nome – como agora – é minha voz que ressoa.

Não há dia para que estas outras esfinges apareçam. No dia que elas quiserem, elas gritarão. Se não quiserem voltar por mim, volte por elas. E sejam bem-vindos!
gritado porDULCE de leche