Esqueça o espírito libertário. Eu não vou mudar nada. Meus amigos não vão mudar nada. As pessoas não vão mudar nada. Estamos preocupados com nossa vidinha não com idéias libertárias.
Perdoe-me, meu pai, mas foi você quem me deu este mundo. Você o mudou, trouxe estas idéias novas e nós as usamos, as vendemos, ganhamos dinheiro com elas. Ficamos ricos. Não, ficamos mais pobres.
O meu objetivo de vida é escrever, como você, mas usarei idéias bem acomodadas, usarei do bom humor e das palavras usuais e ganharei rios de dinheiro. Não quero ser filósofo, ou você viu algum filósofo real com dinheiro no bolso.
Nós usamos sua idéia e a reinventamos. Reinventamos-a todos os dias, todas as horas e todos a compram como uma coisa nova. A nossa inteligência é usada para dizer a mesma coisa com um refrigerante ou cerveja na mão e o cinismo nos lábios.
Este mundo aos nossos pés? Não, eu tenho o mundo nas minhas mãos. Acontece que eu não o quero pegar para não sujar as mãos. Então luto para que ele se limpe, na verdade eu quero apenas que mais pessoas usem a minha idéia.
Agora me diga, meu pai, quem é o inteligente aqui? Não pode me acusar de ser acomodado. Não pode me acusar de não ser criativo. Não pode me acusar de ser capitalista. Você que me ensinou isso. Você usa disso.
panfletado por coMONICAdora.
A rua está movimentada. Milhares de pessoas do lado e a frente dela esperam o momento de atravessar a rua. Chegou a hora, todos se cruzam sem olhar-se. Depois de anos percebida como estranha, mesmo em sua terra – onde poderia ser facilmente escondida por entre os outros – não era. Talvez porque morou tanto tempo longe já adquiriu um jeito de lugar algum. Chamava atenção, mas não se importava mais.