Setembro 2004


Esqueça o espírito libertário. Eu não vou mudar nada. Meus amigos não vão mudar nada. As pessoas não vão mudar nada. Estamos preocupados com nossa vidinha não com idéias libertárias.

Perdoe-me, meu pai, mas foi você quem me deu este mundo. Você o mudou, trouxe estas idéias novas e nós as usamos, as vendemos, ganhamos dinheiro com elas. Ficamos ricos. Não, ficamos mais pobres.

O meu objetivo de vida é escrever, como você, mas usarei idéias bem acomodadas, usarei do bom humor e das palavras usuais e ganharei rios de dinheiro. Não quero ser filósofo, ou você viu algum filósofo real com dinheiro no bolso.

Nós usamos sua idéia e a reinventamos. Reinventamos-a todos os dias, todas as horas e todos a compram como uma coisa nova. A nossa inteligência é usada para dizer a mesma coisa com um refrigerante ou cerveja na mão e o cinismo nos lábios.

Este mundo aos nossos pés? Não, eu tenho o mundo nas minhas mãos. Acontece que eu não o quero pegar para não sujar as mãos. Então luto para que ele se limpe, na verdade eu quero apenas que mais pessoas usem a minha idéia.

Agora me diga, meu pai, quem é o inteligente aqui? Não pode me acusar de ser acomodado. Não pode me acusar de não ser criativo. Não pode me acusar de ser capitalista. Você que me ensinou isso. Você usa disso.
panfletado por coMONICAdora.

Mundo de verdade, dia de hoje no mês de agora do ano atual

Querido,

Perdoe-me as apressadas linhas, mas preciso te revelar um grande segredo. Por enquanto não contes a ninguém. Não sei ainda como uma pessoa normal reagiria a verdade. Não sei nem como reagirás. Contarei a ti assim mesmo; somente quando acordares teremos nossas vidas de volta.

Acordei hoje. Antes vivia em sonho. Sim, eu sonhava; e ainda estás a sonhar ao meu lado. Eu vejo-te a sonhar. Tens os olhos fechados e neste momento gemes baixinho de medo desta realidade que cai em sua frente. Preciso que acordes. Despertes, não posso viver apenas assistindo-o.

Sabe esta paisagem que vê? Ela não existe. É paisagem-sonho. Sabe este céu azul? Ele não existe. É céu azul-sonho. Esta carta que lêes neste momento; ela mesmo não existe. Foi um artifício para te contar a verdade, te despertar.

Não diga que estou louca. É isso que eles querem que pensemos. Que a vida nos controla. Que eles nos controlam. Mas eles estão escrevendo o sonho que vivemos. Acorde e verás.

Acordes. E sua cama não estarás mais vazia. Acordes e poderás me abraçar forte. Não ficarás mais sozinho quando acordar, eu prometo. Quando enfim despertares poderemos ficar juntos. Eles não querem porque sabem. Se nos encontrarmos a verdade será revelada.

Como descobriu, perguntas incrédulo. Viu? Eu o vejo. Eu o sinto. Descobri devagar. Quis tanto que o sonho que eu supunha sonhar tornasse realidade, que ele revelou-se real e acordei. Encontrei-te dormindo e todos na casa. Corri para escrever-te.

Acorde. Eu estou aqui. Eu não estou longe. Eu estou aqui. Venha, levantes. A paisagem é muito mais bonita. O céu azul, muito mais azul. Vem, deixe este mundo. Não fique assustado. Sonhe com força que o sonho se apresentará. E não terá apenas esta carta nas mãos, mas a mim.

Não, não são sandices. Eu juro! Abre os olhos e verás. Acorde. Acorde. Continuarás dormindo? Não adiantou? Será que esta carta vai ser esquecida. Eu sei que ela não vai. Eu te conheço. Eu sou paciente – sabes bem. E ficarei aqui ao pé, esperando o raiar do dia.

Beijos,

da sua Sphinx – a que revela a verdade.

A rua está movimentada. Milhares de pessoas do lado e a frente dela esperam o momento de atravessar a rua. Chegou a hora, todos se cruzam sem olhar-se. Depois de anos percebida como estranha, mesmo em sua terra – onde poderia ser facilmente escondida por entre os outros – não era. Talvez porque morou tanto tempo longe já adquiriu um jeito de lugar algum. Chamava atenção, mas não se importava mais.

Sem nada a fazer, enquanto todos tinham suas ocupações, resolveu andar pelas ruas. Caminhava vagarosamente e olhava as construções antigas nas ruas estreitas. Os outros pedestres desviam do caminho dela que estava absorta. Concentrou-se em não pensar nela, mas na cidade. Depois lembrou-se que devia comunicar-se com as pessoas apesar de facilidade de falar com as coisas grandiosas. Foca em olhar as caras apressadas e cansadas.

As vozes eram muitas e misturadas a diversos barulhos. Com fome e ainda tentando lembrar para onde as ruelas a levariam, começa a caminhar para um destino qualquer. Lembra-se duma torta servida num café próximo dali. Pessoas cruzam oferecendo coisas para comprar. Ela sorri negando e continua seu caminho.

Respira fundo. Fumaça, suor, perfume, sol, vento frio, cheiro. Tudo isso a embriaga. Fecha os olhos. Chega ao café onde o cheiro da mistura de café, bolos e pães a sufoca de felicidade. Com sorriso bobo e voz trôpega pede o que desejou durante aquela manhã. Senta-se perto da vitrine. O lugar dava vista para dentro e fora do mundo. Pega o jornal deixado a mesa. Fazia tempo que não lia jornais. Percebe o mundo com um suspiro. Chega seu prato. Dá uma mordida. Chega ao paraíso. Fecha os olhos e abre-os assustada olhando ao redor. Ainda está ali.
confessado porESTrangEiRa.