Outubro 2004


Acorde pequena criança, não nos deixe assim. O sol nasceu sorrindo, um sorriso bem fraquinho, e só sua chegada o fará brilhar de novo. Acorde vem nos alegrar o dia, balance os sinos do meio-dia, não deixe esta pobre senhora assim. O ar está em todo o lado, por isso, aspire-o bem fundo e levante seus olhos, acorde e sorria.

Acordei e o triste dia já se prenunciava nas nuvens cinzentas e na chuva fininha cimentando um leve caos. A cidade toda nasceu sem você, menino, e sem sabermos o que fazer nos tropeçamos e nos arrastamos. Acorde, sua avó ainda não chegou e seu sorriso a ela faz falta. Coloque a mão em seu coração e a tristeza acabará.

Os homens de brancos nos maltratam, chegaram e trouxeram a nós más notícias. Em silêncio passeio pelo dia, querendo ver seu sorriso pela última vez. O sino tocou novamente, arranjaram alguém para o tocar. Para balançar o sino, terão muitos. Para nos tocar, quem terá? Choro calada pelo dia e preciso de boas notícias, menino. Por isso, acorde e alegre-nos.

Este apelo desesperado exige: que a alegria enfim chegue e o peso do dia seja aliviado junto com seu sorriso. Estarei aqui a espera de seu milagre que virá junto com o seu tocar. Acorde, grite, conte as boas novas, disso estamos precisando neste dia gris. Hoje o sol nascerá quando você aparecer. Tudo de que preciso é, você ouvir.
desejado por sphinx.

Na minha cabeça somente estas ideiazinhas malucas para mostrar independência. Não sei porque elas surgem, mas ultimamente é freqüente um instinto masoquista de desistir e sofrer. Será que eu sofreria mesmo? E viveria o resto dos dias numa vida de casa para um trabalho que a partir deste momento seria levado a serio? Não sei.

Também não sei porque penso nisso, mas ando com um jeito meio neurótico e dada a loucos feitos. Como desistir apenas para mostrar – a quem? – que não preciso desta felicidade futura. Porém vou numa felicidade tão mansa apesar das agitações do trabalho que a levo mansamente. Aí penso em desistir porque talvez a infelicidade me levasse a algum lugar.

Às vezes tenho medo da verdade não ficar infeliz. Noutras quero me testar, afinal para que mudar se posso ser feliz como estou. Não há sentido em abandonar tudo pela felicidade que já temos estando aqui. Até porque mudanças trazem mais infelicidade que felicidade.

Acho mesmo que esta felicidade vem destes dias iguais uns aos outros. Encontrei na rotina diária coisas com as quais me divertir. Então viveria esta vida sem propósito sem infelicidades. Estou começando a achar que o propósito burguês é a infelicidade.

Não que seja comunista, ou você já viu algum comunista de verdade com menos de quarenta anos? Se duvidar com menos de cinqüenta eles nem mais existam. Porém, trabalhar escravamente para ganhar mais e ter um cargo e mais responsabilidades, e filhos para sustentar e, coisas a se comprar, e mais dinheiro. Ninguém é feliz assim. Enquanto não tenho grandes propósitos, sou feliz.

Talvez esteja minimizando o ele-no-meu-futuro-apesar-de-longe. E s’eu, para matar a dúvida, acabasse com a promessa de futuro? E ele, o que ele faria?

Passeio pela cidade fria com a cabeça voando, pr’o alto, a ver tudo, menos as pessoas. E vou a um restaurante diferente para me sentir diferente. Será que s’eu odiar a comida ficarei menos feliz? E continuo. Faço hora olhando os prédios altos. Em cada movimento mesmo quando não penso diretamente nele, ele está comigo. Será que ele sabe disso?

Às vezes penso que ele gostaria dali, outras que odiaria, outras que andaria indiferente como se passasse ali todos os dias. Se até ele se acostumaria em um segundo a este lugar, por que eu não me acostumei se passo todos os dias nestes muitos anos?

Finjo que flerto com alguém desinteressante que passa por mim só para dizer a mim mesma que não me importo. Eu queria que ele não estivesse sempre aqui comigo espiando-me atrás de minha felicidade. Eu queria que esta felicidade fosse apenas minha, egoisticamente minha.
secretamente confessado por DULCE de leche .

Andava nas ruas como se fosse só no mundo. Entrou no cabeleireiro e raspou o cabelo. Suspirou enquanto andava nas ruas cinzas. Chegou em casa, comeu comida requentada e desejou que o telefone tocasse. Queria escrever alguma coisa, mas não tinha idéias. Estava branca delas. Também, era exigido dela a todo o momento idéias para vender aquela roupa, ou aquela bolsa, ou aquele amor. Até amor ela vendia ultimamente. Vendia, mas não o sentia. E alguém o sente? Perguntava-se.

E alguém o sente? Repetia-se. Duvidava que alguém o sentisse, apenas o comprava. E ela o vendia. Compre o amor, use uma ou duas vezes e depois compre um novo. Mas se o telefone tocasse… Quem sabe se ao toque do telefone, ela mudasse de idéia… E o amor deixaria de ser vendido? Não. O problema é que ele seria vendido por outro. Então por que não por ela? Ela o vendia.

Então por que não para ela. Ela o queria. Queria tanto o amor.E não foi porque entrou nesta terra cinza e fria, e não naquela dentro dela – de flores e rosas – que desistiu de encontra-lo. Ultimamente calava-se, falando. Todos creiam que andava falando mais, “comunicando-se” com as pessoas, mas nunca se sentiu mais muda. Não falava o que importava. E alguém falava? Ela acha que não.

E alguém falava? Ela lamenta que não. Suspirava porque o mundo dentro dela e fora era tão complicado. O mundo só podia ser se ele estivesse ali, mas ele não estava. Esconde-se em seus pensamentos enquanto mastiga-os. Esquiva-se em nuvens robustas, ventinho frio numa tarde de fim de inverno que nem chegou. Pensa em idéias iguais e as copia sorrateiramente. Então por que ela se acha burra? Ela não sabia.

Então por que ela se achava burra? Ela não descobriu. Sofria de plágio de idéias rasas e falta de palavras faladas. Anda calada a recusar a pensar. Espera descobrir um tratado filosófico para preencher linhas. Não o encontrou. Duvidava que existia algum a ser descoberto. Então copia aqueles existentes. Ela sabia como. O problema era a falta de amor dentro dela. Era somente um corpo oco sem sentimentos e idéia alguma.
confessado por ESTrangEiRa.