Janeiro 2005


Estava pronta para a resposta. Por isso, discou o número que sabia de cor. Fazia tempos que ao ligava e mesmo assim ainda lembrava o que a verdade nuca tinha esquecido. O número sempre esteve a lhe rodar a cabeça, dizendo-lhe que a paz só chegaria quando a resposta fosse dada.

Esperou que a ligação fosse completada. A espera, em vez de paz, trouxe a dúvida. E se ele não mais a estivesse esperando. E se, diante do tempo, ele outra já tinha. Diante disso, ela não agüenta e coloca o telefone no gancho para se arrepender em seguida. A paz só chegaria com a resposta. Se ele não a quisesse mais, pelo menos ela saberia e, depois da tristeza, a paz chegaria. E o tormento daqueles números que fingira esquecer, acabaria.

Disca novamente. Desta vez a espera foi breve como se a pessoa soubesse e esperasse que quem ligou, ligasse novamente. “Alô!”, diz a voz grave do outro lado da linha. E ela emudece. A voz repete-se novamente insistentemente. “Oi”, ela diz. Pergunta como ela está. Não parecia surpreso, nem mesmo entusiasmado. Ela se arrepende. Ele provavelmente não se importava. E ela fala do dia a dia, eles conversam sobre amenidades.

Em um ponto a conversa morre e o silêncio toma conta. Ele pergunta o que ela queria. E ela, enchendo-se de coragem, pergunta se ele ainda esperava pela resposta. Ele não diz nem que sim, nem que não. Pergunta a ela qual é. Afinal ela o tinha feito esperar tanto que mesmo que ele não mais a quisesse, a resposta ele merecia. Mas do que adiantava uma resposta que não mais se queria?

Então, ela a dá, “eu aceito”. E ele, não entendendo, pergunta o que acontecera para ela então se decidir. E ela explica que não aceitou antes porque acreditara que não conseguiria viver como estrangeira mas, ao pensar, como ele recomendara, descobriu que viveria como estrangeira em qualquer lugar do mundo, inclusive sua própria terra, sem ele.

Coisas estranhas estas que sinto. Como tempo de inverno, em pleno verão. Como descobrir que aquela música já não me toca mais e outras, outras permanecem, mas de outro modo.

Coisas estranhas como gostar de tempo chuvoso como eu gosto. Como ler coisas antigas e perceber que já não são minhas aquelas palavras. A remetente morreu e renasceu milhares de vezes.

Coisas estranhas na paisagem do dia a dia, nos rostos diários e nas vozes, que vozes estranha. Como a minha voz está estranha.

Coisas estranhas como ver que se mudou tanto. Que o mundo mudou tanto. E fechar os olhos para não perceber a tantas voltas do mundo, eu pareço muitas vezes a mesma, mas tão diferente.

Coisas estranhas como lembrar daquelas palavras duras, quanto o que ficou foi apenas as doces palavras. Como odiar-te tantas vezes, para logo depois amar-te com igual intensidade e sem esquecer de te odiar e amar.

Coisas estranhas como querer escutar-te a voz, sonhando acordada com a voz tua. E querer que adentre a porta, quando sou eu quem na vida tua sempre a adentrou.

Coisas estranhas como querer passar o resto da vida com uma pessoa que mal se conhece, mas que parece que a conheceu a vida inteira. E não se fez outra coisa na vida além de desejá-la mesmo quando ela nem existia.

Coisas estranhas como esperar e sempre estar esperando. Ser estrangeira mesmo quando na sua terra está porque nela não existes. E finge que nas nuvens cinzentas estás.

Coisas estranhas como de repente perceber que a vida passou tão rápido na espera, mas não desejar voltar porque pode até parecer estranho, mas viver outra vez só fará acostumar-me ao que não deve ser acostumado.

E se tudo isso, incluindo minhas palavras, parece coisa estranhas. Lembre-se que tenho quatro cabeças e estou sempre a vociferar enigmas para que as coisas continuem a parecer estranhas e, delas, não desistas.

P.S.: ESTERgeira voltou a postar no blog, Uma Terra Estrangeira e avisa que está finalizando seu blog em mais alguns posts.

Nós, no castelo, fingimos que não sabemos de nada. Porém, está tudo preparado para eles entrarem e nos expulsarem.

E um dia eles disseram que daria um novo castelo para nós, mas eram promessas apenas. E eu, que tenho a missão de esconder a verdade, disse que um novo castelo seria muito bom. Mas agora eles nos expulsarão.

Serei a primeira a sair. Com minha espada na língua. Permanecerei calada. Para mim, pouco importa. E para tantos destes, quanto se importarão.

Crianças e mulheres tristes, porque seus guerreiros sem lutar, irão. E o que fazer, se a luta foi ganha. Além de partir, só chorar, sorrir e procurar um novo castelo. Partir. Partir. Com as cabeças espedigadas. Partir.
segredado por Dulce Proletariada

Não há coisa tão plácida quanto o mar… Pelo menos seu efeito sobre mim. E se ele não tenho, o vejo nas pinturas de museu. Ahhh… plácido mar. E eu moro tão perto, mas cada dia me afastam mais dele. Então, com medo, recuo para a selva e vejo o mar em lindas pinturas de museus e posso sentir o cheiro da maresia.

E apesar de tudo, nada é quebrado, principalmente minha imaginação. Por que a selva pode até querer me devorar, mas eu consigo vencer seus artifícios. E sonho com o mar e o cheiro, este que eu nunca esqueço. Então lembro do sol de fim de inverno e eu estendida na areia. De lado, olhando, quando fizeste a pergunta.

O mar… ele estava lá. Revolto e cheio de ondas e a selva distante. E parti. E me perdi. E na ânsia por encontrá-lo, sinto o cheiro e sinto o vento frio de fim de inverno. Talvez por isso a chuva hoje chegou, pelo menos para mim, porque para ti ela não chega e todos reclamam da seca. Menos nós. Pobre mundo seco, diz o mundo. E nós respondemos, pelo menos o encontro será em breve.
mistérios do passado, revelados por Dulce

É que o dia está brilhando. Nas ruas com um mínimo de diminuição no movimento, só percebido por olhos mais perspicazes. Nos guarda-sóis dos vendedores ambulantes. Nas nossas cabeças que se movem a procura de água. Nos prédios que irradiam. Todos brilham.

E, porque é sexta-feira, a cidade toda caminha na vontade de levantar vôo, estar em outro lugar. E o cheiro de mar sentido na praça XV, apenas comprova isso. Infelizmente, alguém precisa fazer a cidade girar. Então, finge-se, e finjo bem enquanto atravesso a rua, em frente ao Paço, e caminho a beira da Igreja do Carmo em obras. As belas construções ficam para trás.

E, neste preguiçoso andar, vou em busca… em busca dum sorvete para refrescar; em busca dum pássaro para encantar; em busca dum motivo para alegrar. Mas têm tantos… E mesmo sem nada a fazer, mas mesmo assim obrigada a ficar num escritório quando o melhor era estar com isso. A alegria fica aqui, esperando a hora chegar. Queria que estivesses aqui!
postado por Dulce de Leche

Muitas vezes o silêncio me oprime, apesar de precisar dele. Ele se impõe, até o dia que sou sufocada. Quando isto chega, abro a boca e um pequeno som saí. Saí neste momento meu primeiro som. O que fiz deste então? Trabalhei, sorri e chorei (mas sorri, que chorei). Não desesperadamente, mas normalmente.

Se a partir de agora abro a boca sem parar, não sei. Não me preocupo. Este espaço nunca foi lugar de gente andando a cata de idéias novas. Ele é o meu lugar, e de pessoas que às vezes estão aí, me vendo. E por causa desta não intenção de ser, eu falo sinceramente. E hoje, eu sei que falo. Porque antes havia uma obrigação pelo não-vazio, hoje este oco é parte de mim.

Novidades, eu tenho. Talvez seja isso que tenha me tirado da caverna. Viagem… Eu gosto tanto delas, ao mesmo tempo que o medo delas me petrifica. Já me petrificou, hoje apenas é medo. E a alegria faz mais parte de mim, que o medo. Eu, que sempre tenho estes sentimentos todos misturados.

Agora eu já sei o que fazer, preparar-me e esperar. Eu que espero tanto. Eu que nos últimos meses, anos, não faço nada além de esperar. E viver, dum modo fingidor, fingindo que vivo sem fingir. Agora está perto e o aeroporto está logo ali, mais cento e duas mil e duzentos e quarenta minutos. Parece muito? Para quem esperou tanto, parece um pontinha apenas.
respirado por apenas Dulce