Maio 2005


Como borboleta tenho sempre o problema de voar, voar e não chegar a lugar algum, mas agora quero voar metros diretamente a você para dizer que estou confusa, que não entendo o que aconteceu, o que deu errado. Mesmo que digas que o problema era as circunstâncias, eu sempre vôo nesta mesma alternativa, “o que eu fiz para dar errado?” Chega o momento em que percebemos que nada fizemos, e o fato das coisas serem decididas não por nós, mas pela vida, antes de trazer alívio traz mais tristezas.

E agora, o que fazer com esta vida toda que me foi devolvida quando eu de bom grado não mais a queria? Que sonhos ter quando aqueles que eu sonhei, pelo menos neste tempo, não puderam mais existir? A tentação de continuar como antes, sonhando é grande; porém, eu tenho 27 anos, já vi coisas demais, já senti coisas demais, já acreditei em coisas demais e me sinto tão velha para continuar sonhando e correr o risco de saber que não era problema do tempo, mas de nós.

Dentro de mim só existe confusão. Tenho que escolher qual sonho ter. Porque a tentação é grande; eu só tenho 27 anos e não vivi as coisas que sonhei viver com você, porque eu não senti todos os sentimentos junto a você, porque eu não realizei todos os nossos sonhos, e sinto-me tão jovem, e quero continuar sonhando e correr o risco de saber que o problema era do tempo, e não de nós.

E se não sei o que fazer, pelo menos eu vivo na esperança que em pouco tempo eu saiba exatamente. Seja o que for, eu invento sonhos, vôo para onde eu quiser voar. Porque eu sempre fui meio borboleta, mesmo quando vivia uma vida de Lua, de Sphinx, de Índia-princesa. O comum entre meus tantos eus é que eu sempre decidi e voei em direção reta ao que julguei ser meu destino. E por mais que esteja demorando desta vez, a decisão eu encontrarei.

A minha cabeça girava lentamente e toda a decisão parecia ter chegado a minha vida, mas foi apenas impressão de fim de festa porque, tão logo a manhã chegou, eu era toda indecisão. Eu sei que em situações como esta, onde o sonho foi engolido e acabo de ser cuspida pela ave inimiga, é normal estar tão confusa, entre o sim ou o não. Contudo, o fato de saber que é assim que as coisas funcionam, não me deixa melhor. Antes, sinto-me cada vez mais emparelhada.

A boca inimiga (ou seria amiga) está próxima, mas eu procuro manter uma distância adequada. Quando ela se aproxima sinto-me tremer dum medo de que mesmo o tempo não resolva este problema e tudo aconteça novamente. Porém, me aproximar e me arriscar a descobrir que o futuro será diferente, implica em confiar e confiança é tudo o que eu não tenho nesta coisa que voa e parece ave querendo apenas brincar comigo.

Muito foi dito e isso apenas serve para me deixar mais confusa porque até que ponto o dito era verdade, eu não sei dizer. Então procuro as respostas mesmo sabendo que estas respostas já foram ditas. Repito mais uma vez os mesmos diálogos para tentar perceber nas entrelinhas algo que deixei escapar no ar e que me fez me arrebentar na árvore mais próxima.

Porque um dia eu acreditei que a ave, era uma borboleta que nem eu. Será ela uma borboleta? E se for, até onde estou disposta a voar mais uma vez, pela mesma borboleta? Eu faria tudo novamente? Do mesmo jeito? Por que eu não desfaço, me livro disto e recomeço a vida? Por que eu não tenho coragem para virar as costas e seguir em frente? Por que a simples visão desta ave-borboleta acaba com todas as minhas certezas de reconstruir toda esta vida de flor-em-flor?

E se o monstro que povoa meus pensamentos, esta espécie estranha de ave-borboleta, me esquecesse, poderia eu viver com isso? E diante da dúvida resta-me apenas pensar e chegar a conclusão que no momento estou confusa demais para chegar a conclusão alguma. O que não quero é que as coisas sejam como era tempo atrás. No tempo em que a minha vida era sonhar este sonho que depois tornou-se um pesadelo do qual eu ainda não saí porque no fundo ainda acredito que este sonho que sonhei pulará para a realidade.

Eu já nem sei o que falo. Porém, pelo menos eu fui cuspida e se esta ave (ou borboleta, que eu não sei o que é) tivesse me engolido?

Faço tudo para parecer e, às vezes, até me convenço de que se trata de ferida cicatrizada, mas não é, e vejo em mim o sangue a jorrar. Faço tudo para não respingar em ninguém e, por não verem, todos se convencem do que conscientemente quero. Porém, sou uma complicada soma de nuances que deseja para depois não mais desejar; que ama, para logo mais odiar e mais um pouquinho a frente amar. Queria ter uma cor única por toda a minha vida, mas fui criada assim, de tantas cores. Talvez porque eu venha de tantas formas e vidas que não poderia virar uma borboleta normal. Eu não sou comum.

Uma noite estava contente, aquela pequena felicidade por ter outras lindas borboletas ao meu lado e estar em paz. Naquele momento eu podia escolher qualquer coisa, voar para onde quiser. Ninguém poderia me deter, além de mim mesma. Entretanto, esta mesma liberdade entristeceu-me e amanheci quieta, voando baixo. Comecei a achar que borboletas não podem andar tão alto. A tarde logo chegou, e por conseguir voar tão alto, esqueci-me logo de minha tristeza e pude seguir a vida com mais cor. Este mudar de cores aborreceu-me, pois logo depois uma nova cor chegou.

Ele quis saber por que eu não podia ser uma borboleta azul, ou rosa, ou amarela, ou preta. Infelizmente, não deves tentar descobrir a química de que sou feita, esta que me faz mudar constantemente de cor. Muitos já tentaram, mas ela é cheia de sutilezas. Não penses que sou uma inofensiva borboleta sem cor, tenho todas as cores inimagináveis e este é meu encanto. Então, quando tuas mãos estão prestes a me esmagar, vôo logo a tua frente, faço a mudança de cor ali no ar e, encantado, desistes. Com a mão no ar e a boca seca, não tens coragem de me enterrares e me deixa voar alto porque acreditas que um dia, se quiseres, voltarei. Será mesmo que volto? Pois devo lembrar que sou uma borboleta com cores inimagináveis e um dia descobrirei a cor para longe de ti viver.

Era uma noite clara, estava lá pensando na vida em busca de mim quando, de repente, fui tragada pelos ares e fui colocada lá em cima a guardar a Terra. Foi assim que ele me conheceu, majestosa lua. Quatro estados de espírito, a beleza da luz e da escuridão e um complicado amor que existia, mas que não era materializado pela distância. Um dia ele cansou. Triste e desesperada, perdida e desencantada caí do céu. Do lado escuro do meu antigo eu, surgiu a nova porção de mim, a porção sphinx (esfinge).

Repentinamente eu deixara de encantar os terráqueos para devora-los. Eu, um monstro entre o humano e o animal que comia aqueles que não conseguia solucionar meus mistérios; mistérios de lua, mistérios de esfinge. Segui neste come, engole e não se satisfaz; até que um dia ele voltou e o monstro em se transformou numa princesa de um mundo distante.

A felicidade depois de anos parecia chegar entre nós. Eu, princesa de um mundo distante, finalmente estaria próxima. Porém, um dia, nossos reinos voltaram-se contra nós. Fomos ingênuos de achar que o amor poderia tudo, não poderia ir contra ao povo todo que nos encurralava. Sentindo-me culpada, fui condenada ao desterro.

Afastada, não era mais nada além de estrangeira, só. Queria vê-lo, mas ele não achava seguro. Não existia alternativa. Sem agüentar a solidão sumi, fui a outras terras. Confusa, voei sem destino a procura de algo que o substituía, a procura de um novo eu. Foi então que a minha porção princesa foi envolvida num casulo a espera que de lá surgisse um novo eu.

E quando cheguei a minha terra, eis que surjo butterfly (borboleta). Uma espécie rara que muda de cor de acordo com o ar. Dizem que as borboleta voam sem destino. Em parte é verdade, vagueiam até o dia em que encontram seu alvo e partem diretamente em sua direção, vencendo metros incansavelmente. Hoje sou uma borboleta a borboletear.