Junho 2005


Gostaria de escrever mais. Tenho tido ótimos pensamentos engolidos entre orçamento e administração pública. Uma mente como a minha nunca deveria se confrontar com a realidade. É demais cruel pensar em números e no que fazer da vida que passa tão depressa sem ao menos eu fazer alguma coisa.

Eu queria ser uma borboleta colorida sem necessidades de pensar coisas práticas. Quero antes o sonho, o doce sonho de ser o que minha imaginação conseguir imaginar. Estou cansada da dura realidade de aos 27 anos (chegando rapidamente aos 28) não ter nada do que sonhei; e o que imaginei acabou se mostrando tão esgarçado que se esvaeceu rapidamente. Tudo foi sonho. E hoje, o que sou? Não sei, a única conclusão é que provavelmente passarei a vida sem saber e, talvez, até me acostume com isso um dia, mas hoje eu ainda quero saber o porquê das coisas. Por exemplo, o porque de muitos amigos estarem em situação semelhante a minha. E isso não me deixa contente, me deixa desesperada. Outra coisa, o porquê dele continuar me ligando se não conversamos nada além do como vai, tudo bem, o que tem feito. Sou covarde. Não recomeço do zero, apesar de achar que seria a melhor coisa a fazer. E, se ao menos soubesse onde fica o zero da minha vida, juro que recomeçaria.

E todos meus pensamentos vêm depois de estudar sobre orçamento.Eu queria que minha vida fosse assim, planejada, mas confesso que brinco inconseqüentemente com ela. Até quando serei uma aprendiz de borboleta a borboletear por aí? Esqueci, acabei de nascer, acabei de sair da casca de meu casulo.

Sentes a minha falta? Eu devia estar transbordando de felicidade, e derrubando as cascas que me envolvem, e dando meu primeiro vôo. De que adianta arrependimentos quando as coisas passaram. Por isso, não faço a pergunta. A resposta de pouco adiantaria. Eu já fui envolvida. Apenas tento me proteger para que ninguém de mim se alimente; apenas busco em mim novos rumos, novas cores. O que fazer agora, é a pergunta.

Hoje ela me contou sobre suas dores, quis ajudá-la, mas sei que ela merece algo mais especializado que eu. Sou apenas uma aprendiz de borboleta procurando seu caminho. Aliás, eu nem sou uma borboleta ainda porque depois da lagarta, tem a fase crisálida na qual me encontro nas últimas semanas. Não posso ajudá-la. Posso ouvi-la. Posso tomar conta com meus olhos encorbertos de suas larvas. Posso dar o nome do inseto que vai ajudá-la. Acho que ajudei o máximo.

Ontem, eu pensei no porquê d’eu não querer ser um inseto ou animal mais forte e sim esta frágil borboleta. Quem pode falar sobre a fortaleza e a fragilidade do outro. Eu não posso. E o ar escreveu as palavras que me fizeram pensar. A ajuda que ele me deu era a que ele podia me dar naquelas circunstâncias. Ninguém pode dar o equilíbrio que não tem, ninguém pode dar a felicidade que não sente.

E agora? Porque no passado já não adianta mais estar. E agora o que fazer, quando se tem certeza que tomou o caminho errado? E quem pode dizer que este é o caminho errado?

Então, eu, apenas uma aprendiz de borboleta, respondo a pergunta que não foi feita porque a resposta de pouco adianta. Se voltar já não é possível, pega o mato e atravessa o campo. Não esqueças da bússula. Segue em frente, ao caminho que foi deixado na última bifurcação. Pode até demorar um pouco, mas diante das circunstâncias, este é o caminho. Ou continua em frente, ou pega o mato. E continua mantendo contato porque tenho um ótimo sentido de direção e posso dar qualquer dica, inclusive de como chegarás até mim.

Fechada em meu casulo, entre livros e palavras, estas que não quero, mas das quais preciso, eu, eu vivo. Não vivo, mas procuro viver. É uma vida meio preguiçosa, sem grandes feitos, mas planejando-os. E tem uma rotina no meio, porque a rotina é necessária para me manter lúcida. E perceber que sou também responsável pode até fazer crescer, mas dói. Contudo não me afasto da dor, quero toda a dor sem me anestesiar. Quero senti-la até o último pingo e para isso me despetalo devagar.

Nesta pungente dor, não sinto nada. Não sinto o ar tremulando, os pássaros, as flores e até minhas amigas borboletas. Todo ar parado de dor. Apenas sinto o pequeno réptil a balançar a cauda e me olhar com olhos enviesados. Será que ele gosta de crisálidas? E nem conseguirei fugir se ele perto de mim chegar. Parece que ele percebeu meu desejo de solidão, entretanto, e parte em busca de outros pequenos insetos. Trancada, eu posso apenas esperar pela transformação. E respiro o pouco ar que encontro aqui dentro.

Só… não solitária. Triste… não deprimida. Ácida… não amarga. Queria poder sair daqui e viver toda a minha vida de borboleta. Acontece que não chegou a hora e até tenho saudades de uma vida de lagarta. Época que precisava me alimentar de qualquer coisa que via pela frente. Chega um momento, contudo, que precisamos ser mais seletiva, talvez. Não quero é essa inanição, mesmo que eu precise dela. Quero a fartura completa. Não foi na fartura que eu vivi até agora? Ou pelo menos na ilusão dela porque o que eu comia era apenas folhas da mesma árvore que encontrava. Eu me rastejava e comia e minha vida se resumia a rastejar e comer. Eu quero asas que me levem, e sentir o ar todo no meu pequenino e frágil ser. Eu quero asas que me levem a escolher a flor e qualquer uma.

Não, não penses, tu, meu ar, que te ti esquecerei. Poderia esquecer do que mantém vida, do que me mantém viva? Aqui, em meu casulo, é em ti que penso. E penso em como posso sobreviver tão longe. Como lagarta, como borboleta é o mesmo ar que respiro. Em todas as minhas formas, foste tu, luz, guerreiro, amor. E a cada transformação, um novo eu, um novo tu. Em cada nova vida, um outra, que se encontra ou não, mas anda no pensamento. Levemente, como ar, ou como réptil, sempre por perto. Hoje eu estou bem, leve. Com cheiro de livros velhos e com sonhos novos. Pequena crisálida a esperar uma nova vida.

As palavras ficaram no ar, entre a minha boca e meu pensamento, e perguntei sobre aqueles problemas práticos, como se fosse o mais importante. O diálogo tão cuidadosamente se perdeu quando um jato voou ao meu lado. Eu, tão frágil, pude apenas num sopro tentar me defender. De quê, eu, pequenina borboleta, não sei.

Hoje eu tentei pensar como ave-borboleta. Talvez não tenha conseguido, mas num sopro pude levantar vôo. Não, não foi um vôo, mas uma idéia de vôo, porque o vôo apenas vive ali, em minha imaginação. Foi de repente que descobri a penumbra que envolvia meus olhos. Descobri que estou envolta no meu casulo enquanto penso no lindo vôo que darei como borboleta.

Ao reconhecer que meu tempo de casulo ainda não acabou, a calma chegou e quietinha fiquei. O meu casulo não me pareceu triste quando reconheci exatamente o que ele era. Talvez eu esperasse estar entre as nuvens, a tremular minhas asas coloridas. Porém tudo tem o seu tempo e, como crisálida, sei que meu tempo de borboleta está perto, mas ainda não chegou.