Não se sabe quando, mas de repente mergulhou profundo e descobriu que era difícil sair daquela vida besta, sem nada a fazer além de pensar profundamente nas coisas. Pensava se ela existia porque se estava tão imersa, tão despercebida de tudo e de si própria, como alguém poderia dizer que ela é. Não, ela não existe. E se um dia alguém a viu, era apenas um sonho, imagens bruxuleantes de alguém que bem poderia existir, mas mergulhou na inexistência. Ela mergulhara. Amava o tipo de vida que tinha. E até queria sair, comunicar-se, mas, sentia-se sem forças para o golpe de fôlego que a traria de volta. Então, preferia amar sua vida na sua inexistência. E num preguiçar vê o azul profundo. Era o céu? Era o mar? Fecha os olhos e espera que tenha coragem. E tem. Às vezes duvidava que aquilo que sentia era coragem. Sempre aprendeu que coragem era encarar as coisas e ao esconder-se do mundo… Mas não a encarava, tão de perto! A coragem estava em se encarar com lente de aumento. Amou-se no nada. Nenhum vestido lindo. Nenhum cabelo bem penteado e bem cortado. Nenhum corpo liso de peso ideal. Tinha apenas o nada que estava dentro dela. E amou-se. E descobriu que era uma felicidade que queria esticar a elasticidade máxima. Não, talvez faria bem desmarcar a viagem e esperar que surgisse dela, ela mesma. Amar-se assim, era um presente. Não precisava de nada e tinha tudo. Nunca esteve tão feliz.
Setembro 2005
Setembro 22, 2005
Setembro 18, 2005
Segundo a lenda, uma quase-menina virou lua e depois de cair em desgraça de amor, esfinge tornou-se. Porém, um dia, a esfinge viajou a terras distantes e acabou transformando-se numa linda índia, que por amor, embarcou a terra desconhecida. Teve que retornar, sem nenhum motivo conclusivo e, ao mesmo tempo, por muitos motivos. Neste momento foi, símbolo máximo da transformação, lagarta, crisálida e borboleta. Voou, voou, voou e mergulhou num mar profundo. Foi assim que a borboleta morreu, mas dela, uma forma estranha de peixe que gosta das profundezas dos mares voltou. Doce foi aquele momento em que percebi que estava quase voltando a superfície. Quase? Fui eu? E tão pouco este peixe em mim habita e já tem seu fim decretado. Ah, que forma será esta que nascerá em mim deste novo reencontro com aquele que vive muito longe de pindorama. Uma coisa é certa, peixes não vivem muito tempo depois de um encontro como este. Que espécie assumirei, nesta nova vida que novamente se aproxima. Eu bem que gostaria que fosse a última, mas me conheço o bastante para saber que será mais uma. Com a lupa em punho, arregalo os olhos a fim de melhor observar um mundo que nunca tinha visto. É que ele mesmo muda constantemente a minha frente, ou a frente de meus eus que renascem e morrem. Todos eles sustentam a coragem de ser tantos e um. No fim, a minha forma é esta única, um tanto índia, um tanto negra, um tanto branca; um tanto humana, um tanto subumana, um tanto sobre-humana. Ah sim, eu quase sou uma princesa a espera do encontro com meu quase príncipe.
Setembro 7, 2005
Ser uma bela princesa índia ou continuar com este silêncio de ser-nada-tudo?
Setembro 2, 2005
águas profundas
Posted by Dulce Nascimento under eu | Tags: essência, pessoal, rio de janeiro |Leave a Comment
O Rio de Janeiro está bem. Ah sim, dizem que tem a violência, mas eu não tenho me encontrado com ela. Tenho me encontrado com médicos, doentes, livros e poeira. Tenho me encontrado com prédios antigos, ruas estreitas e povo, muito povo nas ruas. Tenho me encontrado com sol (apesar de hoje não está sol) e com ar-condicionado. Mas, principalmente, tenho encontrado os livros e a essência da qual sou feita. Será que sentiram falta de mim? Tudo bem, faz apenas uma semana que aqui estive, mas era um eu sem falar de mim. Hoje eu tento quebrar o silêncio no qual estivesse mergulhada. Águas profundas estas que mergulho. Estou mergulhada nas águas profundas de mim. Não cheguei ainda ao fundo, creio, mas nadei de fôlego para a superfície apenas para dizer que estou viva e para me manter viva. Afinal, nestes mergulhos posso acabar presa, e morrer no fundo de mim. Como seria a morte deste mergulho? Não, eu não quero saber. Investigo, nestes mergulhos, apenas a essência de que sou feita. Sem dinheiro, sem emprego, sem muitas das coisas que as pessoas usam para se definir: quem sou? Quem sou se eu não tiver nada e passar os dias a vagar por um lugar que não há ninguém que eu conheço, um lugar que eu não conheço e que me considere quase um nada? Acho que estou ainda com o equipamento de mergulho. Por isso, não posso falar um vocabulário normal. Vim apenas dizer que estou bem e prendo a respiração antes de entrar no mar. Volto a falar de mim em breve, mas continuarei (começarei talvez) a falar do lugar e das coisas prosaicas que anda acontecendo nesta terra aqui.