Novembro 2005


Eu sou até uma pessoa paciente, mas Sicrana insiste em falar sobre Beltrano, seu marido, que tem uma queda para desaparecer em bares sem dar qualquer satisfação. Ela diz que fica preocupada, com a violência de nossos dias. A cada desaparecimento ela, ansiosa, se pergunta o que aconteceu com ele. Passado às horas, no fim do dia, ele sempre aparece um tanto quanto cambaleante, mas sem a intenção de explicações e com toda, para a briga. O acontecido acontece repetidamente e sempre ela pensa a mesma coisa e sempre se aborrece quando ele chega bem. Talvez se a tragédia pensada acontecesse não fosse tão ruim, mas a tristeza seria grande; como não acontece, a raiva é maior que a alegria de vê-lo, porque são e salvo certamente ele não está. Na espera angustiante ela começa a ladainha se questionando e a mim onde ele está. “Será que aconteceu algum acidente?” Porque além de tudo ele sai de carro e é um tipo explosivo, que não traz desaforo para casa. “Será que está na casa da mãe?” Ela liga para Dona Beltrana. Resposta negativa, pergunta a mim – ou será ao mundo – onde ele está, diz que está preocupada e nem adianta minha resposta sensata que ele está bem, só desapareceu em tantos bares pelo subúrbio pobre. “E se desta vez aconteceu alguma coisa!”, “Ele sabe que eu fico preocupada, poderia me ligar”. Quando chega, furiosa, esbraveja comigo o quão o safado Beltrano é, apaga a luz de leve quando escuta os pneus rangendo, tranca a porta. Os minutos são aguardados e abafados. Quando ele entra, já recebe a pergunta raivosa “Onde você estava?” Sem muita disposição a explicações, às vezes entra no quarto, na maioria das vezes sai novamente. Algumas retorna em seguida disposta a brigar; outras vai à casa da mãe. Seja qual for a opção que ele tomar, ela diz que o largará, que não agüenta mais aquela vida. Sempre, ela esbraveja comigo, como s’eu pudesse mudar magicamente aquela situação. Eu só me pergunto o porquê d’eu sempre ter que pacientemente ouvir todas as suas queixas e passar a vida escutando eternos lamentos de gangorra. “Eu estou certa!”, ela diz quando demonstro impaciência para ouvir, talvez acreditando que minha impaciência é discordância. Era tão mais fácil perceber que eu não sei o que fazer, que eu nem sou casada – e se um dia for, que eu não entre neste jogo que não tem fim. Terminado os reclames, no outro dia ele aparece. O clima fica ruim, mas logo depois, às vezes com um pouco mais de tempo, ela o perdoa. Um perdão com prazo de validade. Um perdão que custará caro se transformando em mais raiva, uma pontinha a mais, na próxima vez. E assim, nesta gangorra, Sicrana vive. Tanto se acostumou com esta vida, que mesmo sempre falando a mim que quer viver sozinha desta vez, no fundo quer mesmo viver este círculo que ela mesma criou. Contudo, desta vez, eu resolvi sair. Falar não é mais possível, ouvir não é permitido, me tranco no quarto e me recuso a escutar. “Vocês, que são gente grande, resolvam os seus problemas. Eu, neste baile, não quero mais dançar”.

Ato falho foi quando sem querer o meu inconsciente manifestou a minha queda de amor a um amigo lá na minha adolescência. Eu não queria, guardava aquele sentimento em piadinhas divertidas a cada menina que ele arranjava. O sentimento ficava ali escondido bem fundo, mas um dia, numa frase mal colocada tava lá, tudo aquilo que eu não queria a ele mostrar. Ato falho foi quando sem querer ele manifestou a verdade, está em reeleição. Apenas me pergunto porque tenta esconder o óbvio. Todos já perceberam este desejo guardado. Ele não quer, guarda a vontade com ilusões de pensar o que já foi bem pensado. Todo mundo já sabe a resposta. O sentimento foi exposto e engabela-se, tentativa vã de não sentir o que se sente. Ato falho é um fingimento. Fingir é desesperador demais, pede serenidade demais e exige força demais. Um dia, de tanta força para esconder o que se adoraria dizer, acaba se dizendo, mesmo que conscientemente não se quisesse porque o inconsciente desespera-se por ser ouvido, por se sublimar. E por causa duma boca que se torna grande demais, a vida acaba por complicar-se; ou descomplica-se, por que não. Ato falho é uma traição a si mesmo. Necessitamos, por um motivo ou por outro, manter aquela coisa conosco num desejo louco de ser apenas nosso. Porém, algo dentro quer mais, quer compartilhar e também arrasar, que toda verdade carrega em si um pouco da destruição. Não direi que o ato falho dele mudará alguma coisa. O meu, mudou. Quando a verdade aparece escolhe-se fazer mais força para manter a ilusão – como ele parece escolher – ou assumir a verdade. A minha verdade foi muita boa enquanto durou. Será que ela serviria de modelo a ele? Não creio, coisas de amor e politicagem não combinam.

Está aberta a temporada. Carteiros, Entregadores, Lixeiros, Porteiros, Consultores dos relógios de energia, Garçons, Lojas e uma infinidade de pessoas estão querendo que meu suado dinheirinho entre em suas caixinhas, ou em época de politicamente correto, contribuição para o décimo quarto-salário – enquanto eu não tenho nem um salário normal. Nesta época todo mundo fica repentinamente mais educado, e tão desejosos de me verem que até me comove. Durante todo o ano, o carteiro coloca a minha correspondência na caixa de correio da casa da vizinha para economizar passos – uns três – porém, nesta época feliz e de festa, de repente, minha correspondência aparece não apenas em minha casa, mas em minhas mãos, pessoalmente entregue. Junto um pedido singelo de contribuição a quem passou todo o ano entregando a minha correspondência à vizinha fofoqueira que vez em quando a abre sem perceber que era minha, é claro. A proximidade do Natal torna as pessoas rapidamente mais amigas, querendo companhia, amor e carinho. Se aproximam das outras com o único desejo de comungar do amor e da felicidade próprias da data. De repente, elas se apresentam a nós, aquele desconhecido conhece. A vizinha que adora ver minhas correspondências sempre aparece nesta época do ano para filar a ceia de Natal e quem sabe dar uma olhada nos cartões natalinos que ela não tem acesso a eles nesta época do ano. O que ela não sabe é que já não ganho cartões de Natal a séculos. Talvez s’eu falar a ela isso, ela deixa de querer vir até aqui. Duvido muito. Assim novembro chega e a temporada pela caixinha é aberta. O entregador da lista telefônica, que aparece de três em três anos – sempre me perguntei para onde eles levam a lista nos outros anos – inaugurou a caça pela minha contribuição para um natal feliz. Todas aquelas pessoas que viram o rosto para mim durante o ano, de repente, se tornam felizes em minha companhia; minha não, a do meu dinheiro. Ho, ho, ho, é natal.

O que é identidade além desta coisa fugidia que quando tentamos agarrar, escorre de nossas mãos. Inexistente, como o tempo, que quando se diz presente já se passou em segundos; agora o que sou… passou há poucos instantes. Eu estive o que estou neste momento. Identidade, coisa que não existe em sua totalidade, mas na sua multiplicidade. Não somos uno, apenas múltiplos de tanta incoerência. Eu estou, e nestes múltiplos estás está minha identidade. Não acreditemos que identidade rima com um, isso apenas empobrece. O que sou é apenas estes sucessíveis eus que encontram as diversas pessoas e se molda. E quem diz que é a si mesmo todo o tempo, perde a chance de entrar no inconsciente e descobrir um eu novinho saindo lá de dentro. Eu sou, expressão definitiva demais para alguém com apenas vinte e poucos anos. Eu prefiro, eu estou… estou aqui, estou nesta profissão, eu quero ser tudo que eu puder. Eu estou filha, eu estou amiga, eu estou mãe, eu estou mulher; eu estou irmã, eu estou manhãs, eu estou amante, eu estou (des)empregada: a vida são bailes diversos, cada um com roupa própria a se vestir. O que é um nome, além dum nome. O que ele designa, além da pluralidade. Não, eu não sou um número de identificação – ou milhares deles – mas, algumas vezes, eu também estou números, mesmo que não queira. Eu estou um nome e o uso ao prazer do meu eu. Hoje Dulcinea, amanhã Dulce, Nea, Bem, Querida, ou seja quem. O que não dá e para se assumir com um único e completo ser que depois de certa idade é o mesmo o resto da vida. De que adianta viver uma longa vida se não for para sermos infinito, o mais infinito que nossa finitude enquanto estares nos permite. Se alguém perguntar o que sou, direi que estou hoje estrela colorida com um pé na felicidade, outro na ansiedade, uma mão já na saudade, e a outra aguardando uma mão – a sua – que me balance e me traga a luz uma outra pessoa que eu não conhecia em mim, mas que eu terei o maior de conviver. Seja doida, sã, normal, anormal ou diferente, o que eu não quero é ser a mesma caixa quadrada a que o mundo me encaixa e me aprisiona. O que não tolero é se estar feliz em ser a mesma coisa, fazer a mesma coisa, o resto da vida.

Não, eles não largam a carne de Pindorama querida, antes a sugam e a entristecem. Quem são eles além de nós mesmos olhando quietos a destruição que infligimos a ela com nosso silêncio. Passeamos bestificados olhando vitrines, enquanto tudo parece um jogo de fantasia que nós mesmos criamos. Acabamos por acreditar que o jogo que inventamos é a realidade. A felicidade está naquele lindo sapato da moda. Ah, este é o lugar e o povo mais rico do mundo. Ah, não há preconceito em Pindorama. Ah, somos o lugar mais libertário que existe. Os adjetivos que nos damos, acreditamos nos adjetivos. As imagens que vendemos, a única realidade do que somos. O resto é carnaval e futebol. Doces devaneios de um povo que acredita que estas são as únicas características dele mesmo. A felicidade está naquela bunda e naquele gol. Esqueçam tudo, amanhã é quarta-feira de cinzas. Esqueçam tudo, eu já me calo porque o que falo não existe, são apenas palavras. Fingimos que aquilo na tela é peça de ficção e vivemos quietos. Silêncio. A felicidade está neste não enxergar.

Sábado de horas arrastadas que insistem em se repetir, dentro de mim e lá fora. Todas as coisas continuam parecendo faz-de-conta. Faço de conta; apenas, faço de conta que essa aqui sou eu. Eu, a ilha. O Vento na Ilha
O vento é um cavalo
Ouça como ele corre
Pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escuta
como recorre ao mundo
para me levar para longe. Me esconde em teus braços
por somente esta noite,
enquanto a chuva rompe
contra o mar e a terra
sua boca inumerável. Escuta como o vento
me chama calopando
para me levar para longe. Com tua frente a minha frente,
com tua boca em minha boca,
atados nossos corpos
ao amor que nos queima,
deixa que o vento passe
sem que possa me levar. Deixa que o vento corra
coroado de espuma,
que me chame e me busque
galopandanto eu, emergido
debaixo teus grandes olhos,
por somente esta noite descansarei, amor meu. Pablo Neruda