Dezembro 2005


A verdade é um ponto ao lado dos diversos pontos de uma reta. Se escolhemos um ponto qualquer entre os outros pontos existentes, podemos nos mover para quaisquer outros pontos desta reta infinita, melhorando o que nada mais é que uma história inventada. A partir do momento que escolhemos o ponto único da verdade não mais escolhemos nenhum outro. A verdade é ponto único. E por isso, por mais absurda que seja uma história, nada mais é que aquele absurdo perfeitamente capaz de ser verdade, porque o é. Não há como se melhorar uma verdade, torná-la mais credível. Verdade é apenas verdade, sem melhoras. Quem foi que disse que somente a mentira pode ser absurda? Num lugar de tantos absurdos com este em que vivo, ninguém pode dizer que a mentira é absurda. Diria mesmo que a mentira é a história mais plausível. A verdade é absurda. Então como mudar a verdade? Como querer que ela seja modificada para ser mais plausível neste mundo. Será que a fome é plausível? Assim mesmo é verdade que ela exista, apesar d´eu não conhecer quem tenha morrido de fome. O que é mais absurdo que entre tantas pessoas no mundo, amar apenas uma, talvez umas poucas. O mundo é absurdo. Eu já acredito em tudo. E assim mesmo há quem não acredite no que te digo. Então o que é verdade? Talvez eu tenha perdido a definição que um dia julguei saber. Histórias inventadas não são sustentadas por muito tempo, já me disseram. Talvez o que separa a verdade das tantas mentiras que poderia terem sido contadas, é justamente o tempo; o eterno juiz. Porém, será que ainda existe tempo? Olho direto nos olhos de quem vejo. A verdade depende de cada um. Cabe a mim conhecer os olhos de quem vejo e perceber se o que digo é verdade ou não. Quiçá deva me conhecer para saber. Com tantas possibilidades de melhorar esta história, eu escolhi aquela que é. Sem rodeios. Sem maneiras. Não há como fugir dela. Verdade é apenas verdade, nada mais.

Cheiro de minha infância num sítio em terras nordestinas, e o cheiro estava bem aqui em Portimão numa das minhas caminhadas matinais – na verdade a primeira delas. Não consigo explicar o cheiro, apenas sei que me embriaguei e mesmo andando pela praia vazia podia senti-lo. Respirei profundo. Garrafadas de oxigénio com aquele cheiro jogado no fundo de mim, perfume de sítio de vovô. O dia lindo, e até inesperadamente quente para um Outono, a praia quase deserta, apenas eu e três pessoas a cata de conchas na beira mar. A maré vazia, dando espaço para atravessar duma praia a outra. O mar tão azul. Azul de verão. Com apenas duas pequenas diferenças: a temperatura e a quantidade de pessoas. Ah, porque não trouxe a máquina fotográfica… E chegando em casa, ainda embriagada de cheiro e de mar, idéias aparecem, idéias e uma vontade de comer milho assado e jabuticaba, ou carne seca e pimenta. E escutar música alta para dançar, mas eu escolho a música que quero ouvir. Não faz nenhum sentido o que falo. Talvez depois de um dia respirando ar ligeiramente poluído, eu, ao entrar em contato ao ar tão puro que cheira a infância, respirei a droga mais potente do mercado, que provoca reações como fome, euforia, e mergulho profundo numa região dentro de mim que eu devia sempre visitar. Infelizmente, ainda sem saber o porquê, acaba aquela porção de mim aparecendo. É realmente, não falo coisa com coisa.

Estou assim, absolutamente quieta e calma. Espantosamente calma. Eu cheguei e parece tudo tão… eu ainda não sei explicar. Talvez porque meu vocabulário não dê conta. Está frio, muito frio para uma pessoa como eu, mas espantosamente – mais uma vez – estou enfrentando isso tão bem, nem parece que eu sempre vivi em terra quente, absurdamente quente. Domingo vi dois arcos-íris, mas eles não eram normais. Eram grandes, completos, faziam arcos completos no ar e chegavam ao chão. E as cores… as cores eram tão cores… e estavam todas elas lá. E podíamos ver onde eles chegavam, mas alguém já havia passado lá e carregado o pote de ouro. Mesmo assim, ficou aqueles arcos refletidos em algum lugar de mim. Tudo parece tão quieto. E o mundo todo lá fora, continua a uivar de dor. Enquanto eu, absolutamente silenciosa, espantosamente feliz. Por hoje, nada de notícias conclusivas. Fui pega de jeito. Agora resta é andar languidamente pelas paredes e pelo vento. Abrir os olhos, mantê-los abertos e apesar de não saber de nada, ter o pressentimento que se sabe de tudo. Um dia de felicidade para todos!