Todas as idéias foram embora. Todos os sentimentos parecem trancados em mim ou em outros. Acontece que não falo mais, mas queria falar. Contudo, falar sobre o quê? Parece que não tenho um pensamento original há séculos. Vivo todos os dias quase iguais. Não paro mais, sigo, constantemente, na mesma velocidade; não olho para trás, nem para frente. Perdi a capacidade de olhar.

Não estou infeliz, posso dizer até que estou feliz, mas então porque parece que algo não vai bem. Tudo vai bem, só perdi a capacidade de falar. A felicidade é chata, tudo é muito cor-de-rosa. Ah, o sol… Ah, o mar… Ah, o amor… Como alguém consegue ser assim, falar tanto disso… E as guerras no mundo, a pobreza no mundo, as pessoas no mundo… E eu, mais interessada nesta vidinha burguesa. Dia-a-dia feliz, mas o silêncio ainda dá cabo dos meus nervos.

Eu já não falo. Vivo um silêncio mórbido. É que esta pessoa feliz que mora dentro de mim calou-me. Ela não sou eu, e apesar de gostar desta felicidade sinto falta do mundo real, é que odeio cor-de-rosa. Ah, mas felizmente o verão foi embora, talvez com o céu cinza me apeteça falar – nem que seja do céu cinza, e da chuva – qualquer coisa. O que me enlouquece é esta felicidade, isso não é normal em mim.