Seele sente frio, coloca o capuz na cabeça e fecha o casaco. De repente tinha esfriado, pensou. Ziguezagueia pisando em terra molhada em direção a estradinha. Passa por outras casas, todas elas com as mesmas escadas a dar para um espaço em comum, o fundo das casas sem muros. Caminha apressada querendo sair dali, espremida pela neblina que se formava, casas de quintais comunitários e árvores mais adequadas ao clima temperado do que a cidade quente em que vivia. Corre vacilante pisando na terra molhada e esmagando folhas secas espalhadas no chão. Fim de Outono, pensa distraída a respirar o ar úmido do fim de tarde. Não percebe que a frente dela estão duas crianças segurando cada uma sua bola.
Pára estupefacta. As duas crianças também sem sexos que conseguisse definir olham para ela espantadas e mudas. As duas eram loiras com cabelos curtos e lisos, magras e o que as diferenciavam era apenas uns três centímetros de altura de uma para a outra. Não parecia crianças da sua cidade, pensou ela. Seele sorri tímida e a criança mais alta pergunta quem ela é na mesma língua que o homem falava. Fica muda a observar, a pensar no que fazer. Estava a poucos metros da escadinha. Tinha medo de falar, mas não sabia exatamente o porquê. Era antes um medo inconsciente, como se denunciasse-a se falasse muito mais que duas palavras. Olha as duas crianças agora curiosamente olhando para a estranha a frente e para uma das casas mais atrás, como se quisessem correr a contar para alguém o que se passava. Irreflectidamente, diz “sinto muito” e corre para longe daquele lugar. Sobe apressada pela estradinha de terra batida, como se aquelas crianças fossem a representação do mal, em direção a pensada estrada, que na verdade era uma linha de trem. Olha para trás com susto, não estava sendo seguida, era certo, mas também não conseguia enxergar muita coisa além de árvores e casas espassadas, nubladas.
Pega o celular que colocara no bolso do casaco. Respira fundo tentando controlar a respiração e os nervos. Disca novamente o número dois e tecla “sim”, mas nada acontece, o celular não dá sinal. Anda um bocado tentando pegar algum e acaba por achá-lo cem metros a sua frente. Espera ansiosa por ouvi-lo. Depois do sexto toque, uma voz atende. “Onde você está?” Parecia a voz dele num tom grave que raramente ele usava, apenas em momentos realmente graves. “Não sei, numa linha de trem”, diz cambaleante. “Siga-a, encontre-me na cidade em frente ao mercado”. “Eu não estou na cidade”, diz desesperada, “eu não sei onde estou, exceto que é numa linha de trem que não sei onde vai me levar”. “Acorda”, diz ele, “siga a linha e chegue ao mercado principal da cidade. Não fale com ninguém. Te encontro lá”. Seele sente uma vontade enorme de dizer que o ama, mas controla-se. “Ouviu-me?”, ele insiste. “Sim, te encontro no mercado”, mas curiosa completa, “o que aconteceu?”. Paciente ele diz que conta quando ela chegar no mercado e termina a chamada sem nenhuma das brincadeiras ou recados amorosos que ele insistia em terminar as chamadas. Arrepia-se. Olha os dois lados mesmo enxergando apenas uns duzentos metros a frente. Fecha os olhos e pensa nele. Toda ela estranhando o modo mais seco dele ao telefone. Ele nunca fora sério, era ela a séria, aquela que incomunicava o que sentia. Abre os olhos e estranhamente segura escolhe com uma certeza absoluta o lado esquerdo que contornava as montanhas, coisa que ela ainda vira da casa, e caminha em vôo.

