Janeiro 2007


Seele sente frio, coloca o capuz na cabeça e fecha o casaco. De repente tinha esfriado, pensou. Ziguezagueia pisando em terra molhada em direção a estradinha. Passa por outras casas, todas elas com as mesmas escadas a dar para um espaço em comum, o fundo das casas sem muros. Caminha apressada querendo sair dali, espremida pela neblina que se formava, casas de quintais comunitários e árvores mais adequadas ao clima temperado do que a cidade quente em que vivia. Corre vacilante pisando na terra molhada e esmagando folhas secas espalhadas no chão. Fim de Outono, pensa distraída a respirar o ar úmido do fim de tarde. Não percebe que a frente dela estão duas crianças segurando cada uma sua bola.

Pára estupefacta. As duas crianças também sem sexos que conseguisse definir olham para ela espantadas e mudas. As duas eram loiras com cabelos curtos e lisos, magras e o que as diferenciavam era apenas uns três centímetros de altura de uma para a outra. Não parecia crianças da sua cidade, pensou ela. Seele sorri tímida e a criança mais alta pergunta quem ela é na mesma língua que o homem falava. Fica muda a observar, a pensar no que fazer. Estava a poucos metros da escadinha. Tinha medo de falar, mas não sabia exatamente o porquê. Era antes um medo inconsciente, como se denunciasse-a se falasse muito mais que duas palavras. Olha as duas crianças agora curiosamente olhando para a estranha a frente e para uma das casas mais atrás, como se quisessem correr a contar para alguém o que se passava. Irreflectidamente, diz “sinto muito” e corre para longe daquele lugar. Sobe apressada pela estradinha de terra batida, como se aquelas crianças fossem a representação do mal, em direção a pensada estrada, que na verdade era uma linha de trem. Olha para trás com susto, não estava sendo seguida, era certo, mas também não conseguia enxergar muita coisa além de árvores e casas espassadas, nubladas.

Pega o celular que colocara no bolso do casaco. Respira fundo tentando controlar a respiração e os nervos. Disca novamente o número dois e tecla “sim”, mas nada acontece, o celular não dá sinal. Anda um bocado tentando pegar algum e acaba por achá-lo cem metros a sua frente. Espera ansiosa por ouvi-lo. Depois do sexto toque, uma voz atende. “Onde você está?” Parecia a voz dele num tom grave que raramente ele usava, apenas em momentos realmente graves. “Não sei, numa linha de trem”, diz cambaleante. “Siga-a, encontre-me na cidade em frente ao mercado”. “Eu não estou na cidade”, diz desesperada, “eu não sei onde estou, exceto que é numa linha de trem que não sei onde vai me levar”. “Acorda”, diz ele, “siga a linha e chegue ao mercado principal da cidade. Não fale com ninguém. Te encontro lá”. Seele sente uma vontade enorme de dizer que o ama, mas controla-se. “Ouviu-me?”, ele insiste. “Sim, te encontro no mercado”, mas curiosa completa, “o que aconteceu?”. Paciente ele diz que conta quando ela chegar no mercado e termina a chamada sem nenhuma das brincadeiras ou recados amorosos que ele insistia em terminar as chamadas. Arrepia-se. Olha os dois lados mesmo enxergando apenas uns duzentos metros a frente. Fecha os olhos e pensa nele. Toda ela estranhando o modo mais seco dele ao telefone. Ele nunca fora sério, era ela a séria, aquela que incomunicava o que sentia. Abre os olhos e estranhamente segura escolhe com uma certeza absoluta o lado esquerdo que contornava as montanhas, coisa que ela ainda vira da casa, e caminha em vôo.


Na ria formosa

Seele acorda numa cama com lençóis vermelhos escarlate com o barulho do celular a tocar. Ainda sonolenta olha ao redor tentando reconhecer-se. Atende o insistente telefone. Era ele a perguntar onde ela estava. “Em casa”, ela responde com voz mole. “Em casa onde?”, diz contrariado. “No quarto”, “No nosso?”, “O que você quer?”, ela acordada e zangada com aquela conversa. “Eu quero te achar”. “Então, eu estou aqui”. “Não está não”, diz ele com voz estranhamente furiosa. Já acordada Seele começa a observar o quarto amarelado, os móveis descoloridos e a rachadura que ia do teto e atravessava toda parede do lado esquerdo como em todos os outros dias. “Onde você está?”, ele pergunta novamente, agora preocupado. “Estou em casa e você?”, “Eu estou em casa”. Depois de um suspiro profundo enquanto olhava o quadro detestável de um lugar que ela nunca gostou, mas que ele adorou e escolheu, retruca, “Pare com esta brincadeira que já não tem graça nenhuma” e desliga o telefone para o recebê-lo no portão. Veste o casacão preto e o ténis velho que estavam no armário, olha a cara amassada e os olhos vermelhos no espelho em cima da cómoda e sai pela porta que dá para varanda pensando que ainda tinha grande paciência para as brincadeiras infantis – que ela amava – dele.

O que primeiro a assustou foi dar de cara, não com o mar, mas com uma montanha em frente a casa, como se de repente fosse possível tirar o mar azul – que ela fartava-se de olhar – que ficava a dois quilómetros e colocar uma atividade rochosa na mesma distância. Segundo foi a escada de cimento que dava para o quintal do vizinho de trás, que não existia, mas está lá. Fecha os olhos, ainda pensando estar sonolenta. Mas quanto mais acordada estava, e olhava ao redor, via uma varanda parecida com a sua, mas com vista às montanhas e uma escada que dava ao quintal do vizinho e não ao portão. Olha a frente da casa e não o vê e nem os carros que costumam estar estacionados pela rua movimentada onde morava, mas uma estradinha de terra que ziguezagueava elevação montanhosa acima até o que parecia uma estrada principal. Seele poderia pensar tratar-se dum sonho, mas não pensou, talvez porque dele se tratasse; e não compreendesse que só num sonho a casa dela mudaria de posição geográfica de plena cidade para qualquer lugar no campo, ou talvez, do mundo. Sentia uma incompreensão máxima, mas seu cérebro bloqueado parecia não conseguir achar uma resposta satisfatória. Sentia a estranheza máxima de saber-se acordada numa casa que no fim não era sua, mas uma outra que não sabia de quem era e onde ficava.

Fica ali parada sem saber muito bem o que fazer. Volta para o quarto com uma ideia: procurar o celular e telefonar a ele. Agarra o objeto desesperadamente, pensando tratar-se duma neurose qualquer que a acometia, porque por mais que pensasse sempre lembrava do momento que estacionou o carro, entrou em casa, tirou o casaco e deitou vestida apenas com a calça e o sutiã. Disca o número dois, mas pára a chamada no instante que escuta uma voz masculina estranha que vinha lá de baixo. Abaixa-se atrás da cómoda para que o estranho não a visse se a subisse a escada. Conversava com alguém, provavelmente por telefone, ela notou. Não falava a língua dela, mas uma outra que ela conhecia. Dizia que ainda não sabia se alguém ainda estava em casa ou se já tinha saído, usou um termo que indefinia o sexo. Seele percebe que as respostas são frias e que o interlocutor não deve ser próximo do dono da voz. Levanta-se, aproveita que não será percebida e sai novamente para a varanda, mas agora com muito cuidado. Estranhamente não tinha medo, mas sentia que não devia ficar ali para saber o que havia acontecido. Tinha que voltar para casa, sem saber exatamente onde sua casa ficava. Lá fora olha os fundos de outras casas, as escadas se encontrando uma com as outras. Desce em passos apressados para o quintal do vizinho.


Em Carvoeiro