Março 2007


Um sorriso o tirou dali. Esperou apenas alguns minutos antes de encontrar uma nova companhia. Gostara realmente da companhia da noite anterior, mas não perdeu a oportunidade de amar mais uma, quando uma outra jovem, da mesma terra que ele, sentou-se ao seu lado e falou com o mesmo sotaque que lembrou escutar em suas memórias cada vez mais esparsas. De imediato convidou-a a entrar para a loja e estava feliz porque encontrou em mais uma noite o amor. Cheiros, alegrias e fumaça permeavam o bar e aproximavam os cidadãos. A fumaça impedia que todos se vissem e ao mesmo tempo permitia que todos misteriosamente pudessem se ver, o pensamento cursou tão rápido Alexandre que ele nem lhe deu importância, como não lhes dava em nenhum dos dias. Ela falou sobre a cidade de onde veio a pouco, ainda estava a procura de amigos. “Quer ser meu amigo?”, “Claro”, respondeu ele sabendo que nunca mais a veria quando se despediram na porta da loja. Não tinham química.

Seguiu em silêncio por alguns metros e entrou em outro bar com letreiros em vermelho que ficava mais a frente. Ficou a espera que alguém, ou pela menos a de ontem, aparecesse. Ainda foi olhado por mais algumas e poderia ter chegado a elas facilmente, se quisesse. Entretanto ficou ali pensando a sua incongruência, aquele era um lugar para esquecer que pensamentos existiam; lugar para se abandonar aos sentimentos e às outras pessoas. O bar os aproximava, a loja do amor os unia. E naquela parte da cidade não faltavam bares-lojas para que todos finalmente pudessem se abandonar aos sentimentos. Lembrou-se do amor da noite anterior. Não soube o porquê, mas quis novamente se encontrar com ela. Talvez a curiosidade de saber mais. Permaneceu quase muda e não falou nada. Tinha um nariz feio e ainda ao natural, talvez isso tenha lhe chamado a atenção, algo que mais não via. Então, enviou o sms, porque achou que ela gostaria de encontrá-lo – e quem não gostaria – Alexandre pondera.

Nas lojas finalmente podiam conhecer sua cara-metade e divertir-se com ela. Escolhiam quem e como queriam. O amor da loja punha eles finalmente juntos pelo tempo que quisessem. E se não o encontrasse, porque alguns dias simplesmente foram feitos para solidão – embora isso não fosse incentivado – se divertiam com a música, a televisão, o cinema e com pessoas amigas – a maioria acabadas de conhecer. Ela não apareceu. Ficou por alguns minutos decepcionado, não com ela, mas com ele mesmo. Nos últimos tempos sentia falta de alguma coisa. Talvez falta de emoções no trabalho que lhe parecia monótono ou de algo que já não tinha visto, e quando a encontrou na noite anterior subitamente achou que descobrir o que ela escondia seria emocionante. Já teve a mesma sensação antes e sabia que tão logo descobrisse o mistério, ela já não mais lhe serviria.

Ao seu lado todos eram amigos, a união de todos numa loja. E Alexandre nunca deixava de se divertir mesmo depois dum dia cheio de trabalho e mesmo quando pensava na coisa que lhe fazia falta. Sentou-se do lado duma outra moça e depois de uns trinta minutos prestando completa atenção ao esporte, ela finalmente chamou-lhe a atenção, mas infelizmente recebeu um outro sms, agora do trabalho. Não podia descobrir mais sua companhia, era hora de sair dali.

O trem quietamente deixa a estação e desce em ritmo acelerado. Estava com o capuz, sabia que o tinha que usar. Olha com interesse o interior cómodo e vazio do comboio. Ninguém em direção à cidade. Olha a paisagem nublada e fria lá fora, enquanto o trem ganha ritmo acelerado encosta abaixo. Na última estação antes da cidade, segundo dizia uma voz mecânica, subiram mais três pessoas, também escondidas marginalmente como ela. Todos em cada ponto, não misturados. Ela olha com interesse as pessoas. Uma certamente era uma mulher, podia notar pelo modo como placidamente sentou-se e aguardava a sua estação. De bolsa encostada ao colo enquanto fingia olhar com interesse as nuvens lá fora. Seele entra em pânico quando percebe que dava entrada no túnel, seguindo o corredor norte. O túnel, tinha atravessado o túnel? Não era à toa que ele parecia preocupado ao telefone. Atravessar o muro invisível entre o qual vivia, era quase um pecado imperdoável. E ela, imerecidamente, tinha colocado os pés junto a eles. De repente, quase tudo fazia um sentido enorme, com exceção de como ela ter parado lá em cima.

A escuridão acaba e dá com a luz do sol sufocante das sete horas da tarde. Desce na estação principal que ficava a alguns metros do mercado. Anda com uma sonâmbula ao oeste entre os rostos encardidos dos imigrantes, parecidos com o dela, também imigrante mesmo tendo nascido ali mesmo naquela cidade, bem longe do mercado principal onde uma mistura de rostos, cores e línguas eram cuspidas. Ela as entendia perfeitamente, principalmente a língua dela, a antiga língua da cidade. A maioria destas línguas apenas não mortas por causa daquela gente que misturavam palavras das suas próprias língua com a língua oficial, num tributo a elas.

Vendia-se de tudo no mercado, que era muito grande, mas sabia perfeitamente onde encontrá-lo, na área onde sempre vivia ela, a dos livros velhos. Muitos daqueles a olham, balançam a cabeça ou mostram um meio sorriso de reconhecimento. Velhos e jovens, homens e mulheres, todos a procura dum último objeto antes de se dirigirem às suas casas. “Hola, hola miss” diz um homem velho e desdentado enquanto mostra um livro num língua antiga, dum autor antigo que ela já estivera a pesquisar. “Gracias, not today”, diz enquanto caminha apressada reconhecendo as costas do homem com que sonhara toda aquele dia.

Abraça-o por trás, o que não surpreendeu a ninguém presente, mas apenas a ele próprio. “O que estás a fazer?”, ele pergunta assustado sem qualquer sotaque ou misturas, enquanto rapidamente se desvencilha dela. Ela fica vermelhamente envergonhada, com as mãos a abanar o ar e muda, esquisitamente muda. Ele a puxa pelo braço enquanto saem do burburinho de vozes já desconexas que berravam ao mesmo tempo. Saem por trás, na porta que segundo a placa dava a loviciti. Lá fora, o ambiente já mudava, pessoas limpas, da cidade andavam apressadas depois do fim de expediente, enquanto ainda se via o vermelho a cair do céu. Ele larga o braço dela que até então agarrava com raiva; desamparada, ela prende-se a ele e o abraça. As pessoas de cara limpa os olham e começam a correr em pânico. Ele a empurra, “você está doida?” De repente, a caixa de pandora abriu-se, e toda a merda do mundo em que vivia começou a fazer sentido. “De repente, não mais que de repente”, lembrou-se que ela não morava em frente ao mar, e muito menos vivia numa casa. Com a mesma velocidade e espanto, lembrou-se que ele não era dela e que o conheceu na noite anterior ali mesmo, enquanto comprava um livro proibido. Com mau-estar e tristeza, lembrou que voltara novamente a viver o enredo de mais um livro e este nem se quer terminou de ler. E, por fim, e o mais espantoso, é que não sabia o porquê de ter atravessado os muros em direção a eles.

Via as árvores enquanto contornava a linha de trem. Em frente, apertando o corpo com as mãos enquanto o frio do fim de tarde chegava. Caminhava apressada, quase num ritmo mutante, pensou. Estava tão confusa, de uma confusão que já não era humana, assim como pouco humano era o fato de acordar numa casa que era tão igual a sua, mas não o era. Sonho? Qual fora a última coisa que fez antes de dormir? O que tinha feito durante o dia? Lembra que estava cansada, por isso adormeceu. Cansada de quê? Quando foi a última vez que o viu. De manhã foi a resposta imediata do seu cérebro, mas enganadora, pensou em seguida. Não o viu de manhã, não recordava a última vez que o viu. Á noite? Ontem à noite? Estava no mercado.

Pela manhã ele a acordou com um beijo. Pelo menos lembra dum beijo pela manhã, mas não parecia ele. Por mais louca que a história soava, intimamente tinha uma certeza sensata que aquilo tudo teria algum coeso sentido. OK, estava andando por um lugar esmo que mal conhecia, com a impressão que aquele lugar de algum modo se parecia com o seu, sem o ser, com um amor que soava o seu, mas diferente, como se ela própria fosse outra e não ela mesma, mas qual era o erro disso?

Nas árvores, na neblina e no frio – tinha ido até a serra – pensou para logo depois um pensamento estranho surgir de dentro dela: ela nunca foi até as serras, a ela não o era permitido. Depois riu-se com a brincadeira pregada pelos seus pensamentos, para logo depois ficar num inquieto silêncio como se ela pudesse estar se enganando, como se quisesse viver aquela realidade que não era sua. E qual era a sua realidade? A casa na praia, as montanhas? Ele disse, a cidade, o mercado. Tinha na sua cabeça a imagem da cidade e do mercado, os conhecia, então era esta a realidade, ou não a seria. Quieta corre, corre e chega numa estação sem fôlego. Senta-se num banco e espera o trem passar. Frio, muito frio, ela sentia. Aos tropeços sente o coração, aos tropeços sente o trem chegar e nele entra.