Abril 2007


Assim que entrou Alexandre percebeu que chamava atenção das pessoas. Algumas delas o olhavam desconfiados, quase todas se calavam tão logo o notavam. Aquele não era um lugar frequentado por pessoas diferentes, parecia um clube com convite definido, e ele estava longe da definição de convidado. Todos se dispersavam, escondiam-se da cidade, o que eles não sabiam com certeza é que para cidade era imprescindível que alguns deles ali vivessem e trabalhassem e, para isso, eram mantidos sob o medo constante de que a paz devia ser mantida, com o custo do abandono daquela terra para que a oportunidade de outro lixo pudessem estar ali. Pessoas desejosas de atravessarem os muros eram o que mais existia, embora não era aconselhado que moradores acostumados ao lado de lá entrassem e espalhassem seu próprio modo de vida. Entretanto, por que a cidade estava cheio de contradições, fora o único local onde fora mantido o uso antigo. Nos tempos antigos, mercado de lixo, agora um lixo de mercado.

Pergunta ao senhor na antiga língua local com ar falsamente perdido onde podia comprar livros. O senhor o indica o corredor acima e ele quase sinceramente salta um “Obrigado!” Caminha em frente sentindo alguns metros atrás J. caminhando disfarçadamente por entre a multidão que agora estava quase quieta. Pelas indicações do colega chega a barraca do senhor que se recusava a falar outra língua que não a dele. No local, além do senhor de barbas brancas e olhos claríssimos vestindo um fato preto encardido, estava uma jovem com um capuz que cobria-lhe quase o rosto todo, de cabelos escuros notados por apenas um pequeno cacho que lhe caía na testa, que olhava com interesse genuíno um livro de capa grossa, cujas letras pequenas ele não conseguia decifrar e cuja outra metade do rosto conseguia esconder.

Interessado no velho, pega um livro velho na língua que ele conhecera numa infância antiga e pergunta sobre o livro. O velho com rosto intrigado fica mudo. Alexandre, com rosto amigável, explica que está fazendo uma pesquisa sobre línguas e pergunta se ele conhecia algum pesquisador. “Alguns”, o velho sussurra ainda desconfiado, sabia que seria difícil ganhar a confiança daquele velho hoje, mas… “podia deixar meu telefone para eles entrarem em contato comigo?” pergunta Alexandre.

O sms dava-lhe indicações para ir ao mercado, encontrar com um colega. A noite estivera monótona até aquele ponto e ele, preferia, a monotonia de ir para casa sem nada ter feito a ter que ir ao mercado. Odiava aquela mistura de cheiros e vozes, na maioria incompreensíveis, que perambulava cada centímetro daquele lugar. E sabia que tão logo entrasse, as pessoas se trancavam nelas mesmas. Nunca conseguiu qualquer coisa útil no mercado e, muito menos, depois das oito horas da noite. Por isso não entendia que o chamassem para aquela área. Seu chefe sempre preferia colocar alguém ali a ele, com aquela cara de dono da cidade. Seu trabalho sempre se concentrou na cidade e em seus arredores, nunca naquele espacinho marginal.

Caminha apressado da loviciti, parte norte, a parte central da cidade. A grande avenida branca, margeada no eixo sul pelos seus prédios brilhantes, fazia companhia aos poucos que até aquela hora ainda não decidiram o que fazer. Ali, prédios modernos, futuristas, dava cara a uma cidade completamente nova. Foi ali que aconteceu a grande mudança quando a cidade fora conquistada. Aquela parte totalmente degradada, ganhara um novo ar, o ar de moderna e sofisticada, como só as grandes cidades o eram.

Uma jovem, carregada numa blusa justa e também brilhante, perguntou se ele não queria voltar a loviciti. Ele mandou-lhe o melhor dos seus sorrisos, “Hoje não”, disse perfeitamente, sem sotaque algum. E ela levantou as mãos, num leve bye-bye. “Se ainda quiser, me procure”. Sorriu. O som do celular o desperta do que quer ele estava pensando. Era outra mensagem de seu colega J. pedindo pressa, “preciso de sua ajuda”. Corre intrigado, como ele podia ser útil naquele lugar, ele não tinha a mínima idéia.

Prédios seguem outros prédios quase iguais. Estava na parte reconstruída, onde antes ficava a praça que servia o porto, mas fazia muito tempo que o mar não chegava mais ali e que o porto não existia. Apenas alguns quilómetros separam o moderno, daqueles prédios antigos que ainda rodeavam a parte de trás da grande avenida por valor histórico diziam alguns, como se aquela cidade invadida tivesse algum valor. Mas o pior é aqueles sobrados pequeninos, sem conforto algum que margeavam a região do mercado, a região mais fétida da cidade. Bastava uma ordem do prefeito, para acabarem com aquele antro de desorganização e encontro dos que não deviam nem estar ali. Contudo, os historiadores sempre recriminavam a ordem de acabar com aquele pedaço marcado pelos séculos anteriores ao XIX. Ele acreditava que não havia de existir algo tão antigo que fizessem se lembrar de tempos passados, mas o prefeito argumentava que na comparação o nosso tempo ganha.

Vira o grande eixo oeste. Encontra J. frente a porta de saída para a vaga avenida. “O que está acontecendo?”, pergunta Alexandre ofegante. “Preciso que me ajude aí dentro. Quero que fale com um senhor, mas ele não me entende”. “Então prende ele e o leva para depor”. “Prefiro alguém que não fale a língua, mas me ajude com um crime mais grave, uma espécie de levante contra nós”. “Quem seria capaz?”, diz Alexandre em galhofa, o colega devia estar doido, pensou, ninguém com algum juízo gostaria que a cidade mudasse, não depois de finalmente ter conquistado a paz. “Vai me ajudar ou não?”, “A questão não é ajudar, mas achar coerência no que está falando”, “O chefe explica depois, por ora preciso que me ajude”, “OK, explique exatamente o que queres que eu diga”.