Quando ele entrou no velho mercado, Seele pode perceber que algo importante iria acontecer. Um novo nascimento, nasceu, quase uma nova, com aquele olhar. Ainda não sabia o que ele queria, mas sabia que alguma coisa mudara e a sua existência só seria comprovada, a partir deste momento, pelo homem que entrou na loja e folheia um Alighieri velho, escrito no original, uma língua não mais existente, com um fingido interesse em pecados e infernos, “como se eles ainda existissem”.

O que achava interessante era que um homem como aquele – porque intuitivamente sabia que tipo de homem ele era – soubesse ler uma velha língua. Provavelmente estava “analisando o material perigoso ainda vendido em buracos como aquele nos becos úmidos da cidade”, teve a impressão quase que imediata. Soube que era o novo observador, sem saber ainda o que acontecera com o antigo que não aparecia há duas semanas. Talvez tivesse se embrenhado pela estrada a procura do “fim do mundo”, como dizia que o faria um dia ou apenas estava ocupado com o último livro comprado, a ilegal Bouvary. Enquanto folheava o livro, o mais novo suposto interessado em línguas antigas lança rápidos olhares de reconhecimento a ela que, numa das prateleiras, parecia ler com afinco a velha gramática da também velha língua que não mais se falava na cidade. Fingia ela desinteresse total nele, desde que se aproximou do velho e fazia-o perguntas. Ficou calada, escondida entre o livro que lia e o capuz que trazia. Talvez, se se mostrasse, mas o medo dos acontecimentos futuros a impedia. Enquanto isso, o velho amolecia a guarda e prometia dar o contato dele a outros pesquisadores. “Feiticeiro”, ela pensou entre um sorriso bruxuleante. Ele agradeceu o senhor, comprou o livro que levava nas mãos e foi caminhando com ar despreocupadamente estudado, sob os olhares desconfiados daqueles que ali se encontravam, à saída da frente.

Seele aproxima-se, sorri ao velho e paga o livro que tem nas mãos. Apressada anda entre os corredores estreitos – que voltara aos gritos habituais tão logo o outro saíra – para sair nos corredores estreitos rodeados por sobrados muito velhos que gritavam para serem demolidos. Viviam ali como para berrarem, expor as vísceras, último vestígio duma civilização antiga que ali também colonizou. Agora era um amontoado de povos dali e de todo lado que ali vivia amontoados. Ela caminha alguns metros atrás dele, que parece tão entretido com algo nas mãos que ela não conseguia identificar exatamente, que não a notara. Para alguém que não devia estar ali, ele parecia muito à vontade com o local.

Ele vira a esquina, em direção a praça que beira o eixo sudoeste. Ela aperta o passo para não perdê-lo de vista. Aproxima-se da loja de esquina, mas quando agarra os olhos ao outro lado encontra outros olhos e um braço que agarra o seu.