“O que queres?”, Alexandre pergunta com desconfiança e raiva à moça que o seguia desde que saiu do mercado. Ela permanecia calada com rosto de dor. Percebeu que apertava o braço dela com força demais e o soltou. Ela agarra o braço vermelho com olhos em lágrimas. Ele percebe a estranheza duma jovem que não parecia imigrante, andar naquele local, àquela hora da noite. Suaviza a voz quando faz a pergunta pela segunda vez.
“Você é mesmo um estúpido!” diz ela na antiga língua local com raiva de ter sido pega em flagrante. “Você disse que procurava pesquisadores, queria saber se tem interesse numa língua específica ou pode ser qualquer uma”, diz ela com inocência tardia. “Não sabia que escutava a conversa alheia…” “Se queres pesquisador não os vai achar aqui, mas na livraria que fica na travessa antiga”, diz com ar gélido. E corre em direção ao mercado.
Alexandre fica intrigado, pega novamente o telefone e agora disca para J. que aparece poucos minutos depois, saído do mercado. “Então, o velho falou alguma coisa?”, disse com um sorrisinho de ironia, como se soubesse e quisesse que Alexandre falhasse. “Não acho que ele saiba quem são os pesquisadores, ele só vende os livros”. “Disso eu sei, mas falar com ele é a chave para o encontro”. “Encontro de quê J.?” “Estou a tentar entrar nessa comunidade a algum tempo. Temos certeza que eles estão preparando algo contra nós”. “O que exatamente”, pergunta ele. “Não sabemos ainda” e voltando a caminhar em direção à praça. “Estou aqui a algum tempo, já tentei todas as barracas, depois percebi que só aquela me levaria em direção a eles. Como sabes, não falo outra língua”, diz as últimas palavras com um orgulho virtuosamente impecável. “Talvez não seja ele”, diz Alexandre fingindo não perceber as indiretas, enquanto comenta sobre o encontro com a jovem. “Como eu nunca pensei na antiga livraria!”, “Já a conhecia?”, “Sei onde fica, mas nunca entrei além da sessão de jornais que é o que eles aparentemente vendem”.
Alexandre foi para seu apartamento e teve sonhos estranhos durante a noite. Sonhou com a serra, onde morara e com a jovem que encontrou na noite anterior, mas não se lembrava exatamente do sonho, somente da serra e da voz dela. Levanta-se da cama e prepara-se para mais um dia de trabalho. Hoje vigiaria o túnel da cidade, mas antes passaria pela esquadra. Morava no eixo sudeste, perto da esquadra policial. Bastava andar pelas ruas tranquilas, cercada pelos prédios baixos e entrar numa moradia que parecia ter apenas um andar ao nível do mar, mas abaixo tinha uma estrutura que cobria todos aqueles quarteirões e passava por baixo de todos aqueles edifícios moradias para policiais solitários.