Olhos, os olhos seus, o que eles vêem? Vêem as hélices dum velho ventilador de teto passeando vagarosamente enquanto o computador anuncia o desaparecimento de Edgar, o primeiro mistério em anos que merecia destaque no telejornal. Será que a polícia e todo o equipamento não dava conta de descobrir o que aconteceu com o pobre homem, foi o que a apresentadora mais ou menos pergunta. Seele, eu, sente, sinto. Deveria sair a rua, pelas ruas movimentadas do mercado popular a procura de notícias de um dos amigos estranhos de Edgar. Não. Os olhos cismavam em ficar preguiçosamente pousados na hélice a girar mecanicamente, a pensar desconexadamente nesta língua que perde. Não, ela não perde; sou eu quem a perco. Palavras que não chegam, correm atrás da nova língua. Desde quando? Muito tempo. Então não é mais tão nova assim. Como uma nova coisa poderia ser tão arraigada que da velha já se demorava para lembrar? Já não era tão nova. Contudo, sente que preciso desta velha para poder expressar o vazio destes olhos pousados numa hélice. Olhos que sonhavam voar a preencher o vazio. Ninguém. Dor amarga. Poderia passar o dia inteiro pensando palavras desconexas para se exprimir sem que ninguém adentrasse o prédio velho pronto para fechar. Fecharia-a juntamente.
O que fazer? Do que viver? Será que alguém entrará ou o velhíssimo ventilador continuará não levando embora o tão velho sentimento de solidão. Não, hoje nada mudará. As horas não passam, o dia permanece junto aos homens lá fora. A ela, Seele, era tudo somente o ventilador e um aparelho de tv que dava notícias que não mais escutava. Exatamente seis horas. As hélices congelam. A porta se fecha. Seele se coloca para fora e procura. Procura a coisa que não tem nome porque não sabe como nomeá-la. Onde estará aquele sentimento todo que fazia aqueles que o sentisse cheios. Deveriam ser cheios. Todo um sentimento reunido numa palavra, cheio. Como a rua abarrotada de pessoas caminhando para casa ou para o antigo porto, a procura dos shoppings, das loviciti. Seele caminhava e não percebia quem em volta dela estava. Pessoas de toda a cidade. Prefere descer na estação do mercado. A loviciti nunca conseguiram enchê-la, talvez devesse acostumar-se com o vazio.
“O que eu desejo encontrar que me faz buscar o inominável desesperamente? Hoje tive mais uma daquelas dores. Meu ser desejava algo que, sem saber o quer era, apenas doía, sofria. Minha respiração suspensa, sôfrega, como se o próprio objeto desejado fosse o ar, mas o ar continuava lá. Então o corpo todo tremeu e sem saber exatamente do que sofria, deitei-me na cama, após tomar um remédio receitado pelo médico. ‘O que você precisa é ir à loviciti’, foi o que ele disse. E talvez tivesse razão, mas quando de lá saía em vez do alívio que todos diziam sentir, sentia um peso. Algo faltava, algo que’eu buscava, mas no fim, quando de lá saía, percebia que era mais que aquilo que precisava. ‘É o trabalho?’, ele perguntou. Porém, no trabalho tudo caminhava bem. Era tédio. O que buscava era aventura, e mesmo se jogando a ela, o vazio ainda persistia. Será que o vazio faz parte de mim?
“Então, após o remédio, em vez de alívio, senti uma dor tão grande, e chorei. Talvez Edgar esteja certo, eu preciso conhecer mais, somente isso explicaria. Eu ainda não conheço tudo. O que falta conhecer para que eu enfim alcance a totalidade?
“E diante do choro incontrolável sinto falta de minha infância e de uma mulher que olhava para mim docemente enquanto deixava-me diante duma porta. Sempre lembrava disso. Será que não era um filme que tinha visto quando criança? Não lembrava da atriz, apenas dos olhos carinhosos a dizer-me que teria uma melhor vida da que tínhamos. Era essa a vida melhor que ela julgava que teria? Sinto falta do meu passado.
“Depois finalmente consegui controlar o choro e tive pena de mim. Para aliviar fiquei assistindo um desenho idiota. Olhava a tela, mas o buraco em mim só aumentava. Uat I wanna find? Será que assim alguém me responde? S´eu gritar ao mundo alguém pode saber, descobrir e me informar.”
