Seele aguarda calmamente com os olhos enfiados num livro. O espaço empoeirado estava vazio. O último cliente que viera comprar jornal saiu há vinte minutos e quase podia imaginar que mais nenhum entraria, pelo menos com a intenção verdadeira de ler apenas jornais. Aquela livraria especializada em papéis vagos, era pano de fundo para encontrar livros que mais ninguém tinha. Livros originais, escritos pelos autores originais, não colagens de trechos assinadas por um copi que se dizia dono daquele trecho com aval de seguidores que espalhavam a sua “autoria”. O que isso tinha de rebelde? Para ela, nada. “A rebeldia era esclarecer o conhecimento quando ele já não pertencia a ninguém”, dizia Edgar; e Edgar sumiu sem dizer para onde.
Enquanto mergulhada em pensamentos e olhos enfiados nos sonhos estava, alguém observava por entre os vidros velhos embaciados, mas Seele não percebeu nada além dum pequeno sentimento que contraía o coração na esperança que Edgar aparecesse e lhe dissesse o que fazer. Em vez disso, abriu a livraria como de costume a fim que cada novo encontro pudesse arrancar algo do único encontro que não podia almejar.
“Ele comprou dois livros tão não-importante que este fato em si era de se estranhar”. Talvez a compra não estava relacionado com o desaparecimento em si, mas ela não conseguia chegar a esta conclusão, pelo menos não ainda. Antes ficava ali parada a espera que a coisa se solucionasse e ele lhe dissesse o que fazer. Era ele o esperto, ela só conseguia ler o que nas linhas estava, simples era. “E o clube? O que aconteceria ao clube agora que ele não mais o controlava”. Teve arrepios. Sabia que a outra parte era incapaz de controlar – e mesmo incitaria – o grupo. As ideias de libertação seriam recolocadas, seríamos descolonizados a força. Seele treme só de pensar na possibilidade, porque neste momento muitas coisas mudarão, e apesar do desejo de aventura dentro dela, não sabia exatamente se a mudança seria boa ou má.
Tão compenetrada estava nas suas ideias que não reparou no homem que tinha entrado na loja e olhava com atenção a ela. Também não reparou ele se aproximando. Só deu pelo encontro quando esbarrou com os mesmos olhos que tinha visto no mercado na noite anterior.