
Tudo começou em outubro de 1999 quando eu, índia Iratembé, movida pelo ímpeto, resolvi tentar emitir sozinha um sinal de fumaça. Se todos na tribo conseguiam, porque não eu, pensei. Preparei uma fogueira e, usando de nossa rede, consegui fazer a fumaça. Até aquele momento, fique bem claro, não existia a idéia da descoberta de uma terra, existia a vontade de conhecer o mundo através das pessoas que nele habitam. E sobre esta terra, eu até sabia de sua existência, como eu sei que há uma floresta lá do outro lado, mas nunca fui lá. Só sei porque já ouvi dizer.
O que eu queria? Eu queria algo que não sabia o quê, mas estava junto a estas pessoas do mundo. Queria descobrir algo que não sabia como nomear. E foi, então, que o sinal foi emitido com precisão. O problema, pensei, era que os sinais de minha tribo não são muito difundidos além dela. Quantos poderiam traduzir os meus sinais feitos através da fumaça? Poucos. E quantos destes estariam olhando os ceús com também uma fogueira acesa para responder. Pouquíssimos. Porém bastava um vê e responder. Foi o que aconteceu, o meu sinal foi visto e respondido. Ficamos eu e um “nativo” conversando sobre o mundo e nós. E mesmo nossos sinais tendo pequenas diferenças, conseguimos nos comunicar, falar dos nossos mundos.
Durante meses estes contatos foram feitos, até que um dia eles não bastavam. Eu não queria mais saber do mundo, e não queria saber da outra terra, queria saber daquela outra pessoa que estava do outro lado do “pará”. Quem era aquele nativo que me fazia perder o sono na mata, buscando as mensagens vindas do céu? O que fazer se ele, o emissor e receptor do sinal, estava do outro lado das águas. Como índia de família, minha mãe dizia, eu deveria ficar esperando o nativo sair de lá e chegar aqui, descobrir a mim e a minha terra. Poderia eu, índia Iratembé, esperar quieta, como minha mãe aconselhava?
Postado originalmente em 21/01/2005