Janeiro 2008



A cidade era enorme. Grandes prédios e praças e ruas, tudo tão antigo que me sentia pequena, quase insignificante. Continuávamos a conversar, nenhum dizia exatamente o que queria, e cada um se fazia a mesma pergunta, será que o outro gostou de mim? Ninguém arriscava a perguntar. Cada um tinha medo da resposta.

E índia Iratembé que tinha arriscado a atravessar o “grande azul” e seus perigos estava muda diante de um nativo. Senti-me tão deslocada, tão logo cheguei, e achei que talvez fosse a hora dele se jogar, perguntar era o mínimo. Perguntar demonstraria um interesse que preferia manter calado.

Por fim ele fez a pergunta e tive medo da resposta, mas a verdade queria ser confessada e foi. Com os olhos fechados, o beijo foi recebido. Se eu, índia Iratembé, tinha mudado tanto até chegar ali, mudaria muito mais, afinal fui agarrada por Rudá e, desta sina, eu não podia fugir. Enfim, a terra foi descoberta.

Postado originalmente em 05/02/2005


Chegar foi fácil, rapidamente concluí. Logo no porto tive que explicar o que estava fazendo ali. Que recepção era esta? Eu acreditava que seria recebida de braços abertos, afinal era assim que recebíamos os forasteiros e eles com tantas perguntas. Seria comum este tipo de tratamento àqueles que estavam cansados de tanta viagem? Por fim libertaram-me e pude ir a … Será que ele me aguardava depois te tanto tempo de espera Achei que ele talvez não estivesse mais ali.

A primeira coisa que pensei quando entrei na sala cheia de pessoas foi se ele estivesse mesmo ali, quem garantiria que ele me reconheceria. Ainda mais que vestia uma roupa parecida com as das “nativas”. Ele, apenas olhando em mim, perceberia que era eu, índia Iratembé?

E naquela grandeza de salão, não consegui ver meu “cari”, mas ele me viu e me conheceu. Porém, quem primeiro encontrei, foi seu amigo. E somente pouco depois, logo atrás, ele vinha.

O que achei dele? Estranho porque naquele um segundo todo, eu não pensava mais em nada, só pensava “é ele…”. Coisas de indiazinhas de nossa tribo. E sinos poderiam ser ouvidos, eu que nunca tinha escutado o barulho de um e nem sabia o que eles significavam. Então, nos cumprimentamos e, ainda sendo ciceroniada pelo amigo dele, fomos para o carro de meu “guaraci”.

Postado originalmente em 02/02/2005


Para me acalmar dos perigos encontrados no caminho, uma poderosa “caixa de guardar música”, com meus sons favoritos, tocava. Eu tentava afastar os pensamentos dos perigos cantarolando. Não era medo do “grande azul” o que eu tinha, era medo de me perder nesta imensidão, era medo de não consegui chegar, era medo de não consegui o encontrar, era medo de não deixarem eu entrar e, era um pavor do bicho grande dele, de mim, não gostar.

Imagine passar tanto tempo com tantos medos… Comecei a pensar em minha mãe, talvez ela estivesse certa. Apenas grandes guerreiros podem enfrentar bravamente tantos medos e muitos deles devem cair no “grande azul”. Era por isso que os “guaranis” nunca voltavam. Talvez se eu me concentrasse mais na música… Ou se eu caísse nos braços do senhor do sono… Porém a canoa precisava ser navegada e eu, colocar rumo nela.

Foram uma eternidade de 36598 segundos de muito sacolejar na “canoa alada” até chegar o destino. Esta eternidade foi preenchida por ansiedade, alguns encontros com pessoas estranhas de outras tribos e comendo coisas ruins pelo caminho. Só a jornada, daria uma história tão longa quanto o prólogo desta história, mas como não é sobre a viagem, mas sobre o descobrimento que estou narrando, então terminemos com esta narrativa e vamos para o desfecho, deste post.

E foi então que em 28 de julho eu avistei a terra. Era pequenina a princípio. Via casas, ruas e carros. Pessoas ainda não avistava. Será que não seria o momento dar a volta e voltar? Mas tantos perigos enfrentados no caminho, mereciam mais coragem na chegada. Peguei os remos e fui em direção ao porto e quanto mais me aproximava via as pessoas – pequenas, diferentes pessoas. E quando cheguei, dei um suspiro grande. Na terra eu tinha chegado, mas ela ainda estava longe de ter sido descoberta.

Postado originalmente em 29/01/2005


Continuei a espera como fui aconselhada pela minha mãe, mas o “nativo” parecia sem intenção de querer descobrir a nossa terra. Disse que estava muito ocupado e me convidou a conhecê-la. Na terra dele provavelmente é muito fácil as pessoas se locomoverem, mas na minha não. Na terra dele provavelmente são as mulheres que se locomovem, mas na minha não. Na terra dele. ninguém parecia disposto a descobrir coisa alguma, mas na minha… na minha também ninguém. Menos eu, índia Iratembé, que sempre quis descobrir algo que não sabia o nome. E se fosse… e se fosse uma nova terra?

Porém, como convencer a todos na tribo que eu poderia pegar a canoa e remar, ainda mais sozinha, a uma terra desconhecida que ficava além das “grandes águas”? Comecei a preparar todas as coisas às escondidas. Apenas uma amiga minha sabia e ajudou-me a encontrar uma canoa alada. Mesmo com a canoa e suprimentos, não embarcaria sem o conhecimento de minha mãe. Contei a ela, e ela não queria que eu fosse. Afinal somente os grandes guerreiros atravessavam o “grande azul” numa “canoa alada” rumo ao desconhecido e, segundo ela, nenhum voltava.

Mesmo depois destes comentários, não desisti. Minha mãe não entenderia. Continuava dizendo que eu devia esperar, mas eu odeio grandes esperas, preferia uma grande descoberta. Ela nunca tinha saído além das demarcações de nossa tribo. Eu queria conhecer outros lugares e mais, eu queria conhecer quem era aquele nativo que virava a minha cabeça durante os últimos meses. A minha mãe coube apoiar o que ela achava uma grande maluquice, mas diante de minha determinação nada pode fazer. E em 27 de julho, quase dez meses depois do primeiro sinal de fumaça, embarquei rumo a terra desconhecida.

Postado originalmente em 25/01/2005


Tudo começou em outubro de 1999 quando eu, índia Iratembé, movida pelo ímpeto, resolvi tentar emitir sozinha um sinal de fumaça. Se todos na tribo conseguiam, porque não eu, pensei. Preparei uma fogueira e, usando de nossa rede, consegui fazer a fumaça. Até aquele momento, fique bem claro, não existia a idéia da descoberta de uma terra, existia a vontade de conhecer o mundo através das pessoas que nele habitam. E sobre esta terra, eu até sabia de sua existência, como eu sei que há uma floresta lá do outro lado, mas nunca fui lá. Só sei porque já ouvi dizer.

O que eu queria? Eu queria algo que não sabia o quê, mas estava junto a estas pessoas do mundo. Queria descobrir algo que não sabia como nomear. E foi, então, que o sinal foi emitido com precisão. O problema, pensei, era que os sinais de minha tribo não são muito difundidos além dela. Quantos poderiam traduzir os meus sinais feitos através da fumaça? Poucos. E quantos destes estariam olhando os ceús com também uma fogueira acesa para responder. Pouquíssimos. Porém bastava um vê e responder. Foi o que aconteceu, o meu sinal foi visto e respondido. Ficamos eu e um “nativo” conversando sobre o mundo e nós. E mesmo nossos sinais tendo pequenas diferenças, conseguimos nos comunicar, falar dos nossos mundos.

Durante meses estes contatos foram feitos, até que um dia eles não bastavam. Eu não queria mais saber do mundo, e não queria saber da outra terra, queria saber daquela outra pessoa que estava do outro lado do “pará”. Quem era aquele nativo que me fazia perder o sono na mata, buscando as mensagens vindas do céu? O que fazer se ele, o emissor e receptor do sinal, estava do outro lado das águas. Como índia de família, minha mãe dizia, eu deveria ficar esperando o nativo sair de lá e chegar aqui, descobrir a mim e a minha terra. Poderia eu, índia Iratembé, esperar quieta, como minha mãe aconselhava?

Postado originalmente em 21/01/2005

Esqueçam nossos livros. Eles, ao ouvirem esta história, irão se jogar na fogueira acesa no meio da tribo. Proteja-os, mas atentem os ouvidos para ouvirem esta história. A história da reinvenção do descobrimento, o Descobrimento de Portugal. A partir deste momento, eu, índia Iratembé, contarei a história deste descobrimento que aconteceu de modo lento e gradual. Alguns certamente protestarão, como um descobrimento pode ser lento; descobre-se e pronto. Acalme-se, pessoas de minha tribo. Uma coisa de cada vez. Esta é a hora apenas da introdução, como eu prometi. O que eu posso adiantar é isso. E a partir dos próximos posts responderei as perguntas que certamente se perguntam. Como foi este tal descobrimento? Quando? E quem descobriu esta nova terra velha? Por hoje, o que posso dizer é: sejam bem-vindos!

Postado originalmente em 15/01/2005