Parada, olhando de um lado a outro. Minha mãe, atrás, assustando-me com o mundo à volta; não faz isso, não faz aquilo. Meu padrasto chamando-me a atenção. Estradas, de um lado a outro estradas e não posso nem olhar as vaquinhas no campo ao lado, nem aquele lado com o belo pôr-de-sol ao fundo; somente a estrada, linhas tracejadas ou retas, placas, ande a direita, embreagem, acelerador, freio, seta para direita, seta para esquerda. O rádio? O rádio ainda não foi instalado. Agüentar o silêncio da estrada, quebrado pelos sons de motores e pelas vozes ao meu lado. E eu podia estar lendo o capítulo XXXII do segundo livro de Dom Quixote, faz 10 meses que eu o estou lendo, ou continuar a leitura do romance do Gabriel García Marquez ou ler um poema do Pessoa, qualquer coisa, mas aqui… dirigindo.
Eu não sou feita para ter um carro. Eu sou livre, de lugar algum, do mundo; pensamentos que andam soltos e não concentrados na próxima entrada, no destino. Não tenho um porto no qual estacionar. Eu viajo enquanto o carro ganha velocidade, pequena velocidade. E nunca tive o sonho de ter um carro, esse era o dinheiro para uma viagem de visita a uma pessoa distante, quem era mesmo? Passado, ela já é passado. Talvez seja essa a estranheza. Tudo aconteceu tão rápido, duma hora para outra meus sonhos mudaram e meu destino para um dinheiro economizado também.
Como podem meus desejos e sonhos mudar rapidamente? E a cada minuto um novo sonho, um novo desejo, com tamanha força eu piso no acelerador que nem percebo a velocidade com que atinjo meu objetivo. Eu, pessoa que caminho devagar, quase parando, sem pressa. Sobra-me esta recusa em aceitar este novo lugar onde me encontro. Saio do carro, pelo menos eu estacionei direitinho, daqui a pouco me acostumo com este novo lugar onde estacionei, daqui a pouco acostumei com esta nova vida.