cristal


Um dia doce de outono e Cristal liga logo cedo para irmos a praia. Ver o mar… E eu de frente a ele transbordante, ocupando todos os espaços, meus sentimentos. Enfurecido como alguém confuso que não sabe o que fazer, eu. O mar e eu…
Ligar? Será que eu ligo para ele dizendo que já pensei… Paciência, virtude… Por que não a minha? Mas eu preciso livrar-me desta certeza antes que se transforme em dúvida novamente. Ligar? Não posso mais ser como este mar, invadindo, transbordando. Paciência… Utilizar-se da paciência feminina… Esperar… Até quando? Ligar?

Pensar… Pensar até fundir-se ao mar, ao dia, ao presente. Respirar o presente… Conversar… Olhar o mar e o mundo à volta. Pensar no que fez aquela garota comprar aquele biquíni que não combina nada com ela, futilidades, distração. E o dia não está tão quente, está ótimo. E esse ventinho bom…

Travessando Ipanema; atravessando o mar, meus pensamentos… Onde ele está? E aos poucos o mar invade a faixa de areia, ir embora… Chegar em casa e tomar um longo banho. Ligar? E dizer o que? Esperar… Escolher uma roupa para a reuniãozinha hoje à noite com meus amigos. Entrar na net, escrever… E ele está aqui, status? Volta logo. Na certa foi jantar… paciência, esperar…

Uma praia toda minha e uma sensação de estar só no mundo. Não, não é um sentimento triste, é uma impressão ponderada. Eu sei que daqui a pouco, em horas próprias à maioria, as pessoas chegarão e eu até me enjoarei de ver tantas delas. Daqui a pouco alguém chegará, continuarei a sentir-me triste e alegre como me sinto todos os dias. Sensação de que o mundo é calmo e habitado por amantes da natureza que acordam de madrugada.

Quase nove horas. Quem conhece esta cidade sabe que as manhãs começam depois do meio-dia. E o sol ainda por entre nuvens, parece que também ficou se divertindo até mais tarde. E eu, do jeito que gosto, com a praia toda para mim e uma dezena de outras. E Cristal fotografando todos os ângulos. E minha câmera com Dani, no alto do morro, visitando uma amiga. De barraca estendida esperando, com o mar todo à frente e um nada a pensar além de que minha mãe está demorando. Nada a sério com toda esta pequenina ferradura verdinha, a minha frente. É… deixar o papel e o lápis e dá um mergulho…