Cada pedaço, cada esquina, cada pessoa, passou tudo tão rápido. Enfim, um dia, infelizmente, o tempo acabou. Ainda tinha que terminar meus estudos com os pajés. Há tempos estava ali. O tempo acabara. A minha tribo estava saudosa de mim. E eu, apesar de saudosa dela, preferia ficar, mas nem sempre uma índia devia fazer o que gostaria. O necessário era voltar.

Depois de tantos beijos, chegara o momento do final, aquele dado antes da partida. Ele pediu para ficar, somente para eu dizer que eu não podia. Combinamos de nos encontrar breve.

Entrei na “canoa alada” aos prantos. Somente cheguei a beira de casa porque naveguei sem léu, a maré me levou. Voltava eu e recebia todas as honrarias dedicadas aos “guaranis” que retornavam. Voltava? Porque naquele momento percebi que mesmo os guaranis que um dia voltaram, na verdade não eram eles recebidos por nós, mas sim um estranho. Eles nunca voltavam, sim espíritos que neles passaram a viver. Foram mortos, ressucitaram outros. Eu, índia Iratembé, voltei outra. Cheguei recebida com festa, mas não entendi festa alguma.

Postado originalmente em 16/02/2005

Querida mãe,
Já que muitos falaram sobre o achamento desta terra e como estou sem tempo, não espere minuciosidades. Serei breve.

A viagem foi cansativa e perigosa, mas mal cheguei percebi que o maior perigo e esta terra e todos os sentimentos que nela descobri. Sobre ela, podemos dizer que é pequena, mas bela. Mui antiga – eles dizem, mas se o mundo foi feito a mesma hora como eles proclamam… logo ninguém é mais antigo que ninguém. Deixemos isso pra lá que os prédios e a história daqui impressiona.

Quanto aos nativos, são simpáticos. A princípio eu não entendia patavina do que falavam. Demorei, mas hoje – com muita atenção – compreendo 30% do que dizem. A outra parte eu finjo que entendo. São simpáticos – como já disse -, me tratam muito bem. Às vezes queren que eu represente algum ritual do que eles consideram ser da nossa tribo. É que eles acham que os índios da tribo brasileira são todos iguais. Já o nativo, deste não tenho muito o que falar. Não saberia colocar em palavras. Deixo para quando chegar aí.

Não espere longas cartas sobre costumes, eu estou sem tempo – como já ressaltei. Só posso dizer que não me arrependo de ter aqui chegado e viria mais uma vez. Estou muito feliz!

Beijo grande,
da sua índia Iratembé.

P.S.: As praias daqui são estranhamente formadas de uma rocha cor de barro. Na primeira vez que vi achei que era barro mesmo!

Postado originalmente em 12/02/2005


A cidade era enorme. Grandes prédios e praças e ruas, tudo tão antigo que me sentia pequena, quase insignificante. Continuávamos a conversar, nenhum dizia exatamente o que queria, e cada um se fazia a mesma pergunta, será que o outro gostou de mim? Ninguém arriscava a perguntar. Cada um tinha medo da resposta.

E índia Iratembé que tinha arriscado a atravessar o “grande azul” e seus perigos estava muda diante de um nativo. Senti-me tão deslocada, tão logo cheguei, e achei que talvez fosse a hora dele se jogar, perguntar era o mínimo. Perguntar demonstraria um interesse que preferia manter calado.

Por fim ele fez a pergunta e tive medo da resposta, mas a verdade queria ser confessada e foi. Com os olhos fechados, o beijo foi recebido. Se eu, índia Iratembé, tinha mudado tanto até chegar ali, mudaria muito mais, afinal fui agarrada por Rudá e, desta sina, eu não podia fugir. Enfim, a terra foi descoberta.

Postado originalmente em 05/02/2005


Chegar foi fácil, rapidamente concluí. Logo no porto tive que explicar o que estava fazendo ali. Que recepção era esta? Eu acreditava que seria recebida de braços abertos, afinal era assim que recebíamos os forasteiros e eles com tantas perguntas. Seria comum este tipo de tratamento àqueles que estavam cansados de tanta viagem? Por fim libertaram-me e pude ir a … Será que ele me aguardava depois te tanto tempo de espera Achei que ele talvez não estivesse mais ali.

A primeira coisa que pensei quando entrei na sala cheia de pessoas foi se ele estivesse mesmo ali, quem garantiria que ele me reconheceria. Ainda mais que vestia uma roupa parecida com as das “nativas”. Ele, apenas olhando em mim, perceberia que era eu, índia Iratembé?

E naquela grandeza de salão, não consegui ver meu “cari”, mas ele me viu e me conheceu. Porém, quem primeiro encontrei, foi seu amigo. E somente pouco depois, logo atrás, ele vinha.

O que achei dele? Estranho porque naquele um segundo todo, eu não pensava mais em nada, só pensava “é ele…”. Coisas de indiazinhas de nossa tribo. E sinos poderiam ser ouvidos, eu que nunca tinha escutado o barulho de um e nem sabia o que eles significavam. Então, nos cumprimentamos e, ainda sendo ciceroniada pelo amigo dele, fomos para o carro de meu “guaraci”.

Postado originalmente em 02/02/2005


Para me acalmar dos perigos encontrados no caminho, uma poderosa “caixa de guardar música”, com meus sons favoritos, tocava. Eu tentava afastar os pensamentos dos perigos cantarolando. Não era medo do “grande azul” o que eu tinha, era medo de me perder nesta imensidão, era medo de não consegui chegar, era medo de não consegui o encontrar, era medo de não deixarem eu entrar e, era um pavor do bicho grande dele, de mim, não gostar.

Imagine passar tanto tempo com tantos medos… Comecei a pensar em minha mãe, talvez ela estivesse certa. Apenas grandes guerreiros podem enfrentar bravamente tantos medos e muitos deles devem cair no “grande azul”. Era por isso que os “guaranis” nunca voltavam. Talvez se eu me concentrasse mais na música… Ou se eu caísse nos braços do senhor do sono… Porém a canoa precisava ser navegada e eu, colocar rumo nela.

Foram uma eternidade de 36598 segundos de muito sacolejar na “canoa alada” até chegar o destino. Esta eternidade foi preenchida por ansiedade, alguns encontros com pessoas estranhas de outras tribos e comendo coisas ruins pelo caminho. Só a jornada, daria uma história tão longa quanto o prólogo desta história, mas como não é sobre a viagem, mas sobre o descobrimento que estou narrando, então terminemos com esta narrativa e vamos para o desfecho, deste post.

E foi então que em 28 de julho eu avistei a terra. Era pequenina a princípio. Via casas, ruas e carros. Pessoas ainda não avistava. Será que não seria o momento dar a volta e voltar? Mas tantos perigos enfrentados no caminho, mereciam mais coragem na chegada. Peguei os remos e fui em direção ao porto e quanto mais me aproximava via as pessoas – pequenas, diferentes pessoas. E quando cheguei, dei um suspiro grande. Na terra eu tinha chegado, mas ela ainda estava longe de ter sido descoberta.

Postado originalmente em 29/01/2005


Continuei a espera como fui aconselhada pela minha mãe, mas o “nativo” parecia sem intenção de querer descobrir a nossa terra. Disse que estava muito ocupado e me convidou a conhecê-la. Na terra dele provavelmente é muito fácil as pessoas se locomoverem, mas na minha não. Na terra dele provavelmente são as mulheres que se locomovem, mas na minha não. Na terra dele. ninguém parecia disposto a descobrir coisa alguma, mas na minha… na minha também ninguém. Menos eu, índia Iratembé, que sempre quis descobrir algo que não sabia o nome. E se fosse… e se fosse uma nova terra?

Porém, como convencer a todos na tribo que eu poderia pegar a canoa e remar, ainda mais sozinha, a uma terra desconhecida que ficava além das “grandes águas”? Comecei a preparar todas as coisas às escondidas. Apenas uma amiga minha sabia e ajudou-me a encontrar uma canoa alada. Mesmo com a canoa e suprimentos, não embarcaria sem o conhecimento de minha mãe. Contei a ela, e ela não queria que eu fosse. Afinal somente os grandes guerreiros atravessavam o “grande azul” numa “canoa alada” rumo ao desconhecido e, segundo ela, nenhum voltava.

Mesmo depois destes comentários, não desisti. Minha mãe não entenderia. Continuava dizendo que eu devia esperar, mas eu odeio grandes esperas, preferia uma grande descoberta. Ela nunca tinha saído além das demarcações de nossa tribo. Eu queria conhecer outros lugares e mais, eu queria conhecer quem era aquele nativo que virava a minha cabeça durante os últimos meses. A minha mãe coube apoiar o que ela achava uma grande maluquice, mas diante de minha determinação nada pode fazer. E em 27 de julho, quase dez meses depois do primeiro sinal de fumaça, embarquei rumo a terra desconhecida.

Postado originalmente em 25/01/2005


Tudo começou em outubro de 1999 quando eu, índia Iratembé, movida pelo ímpeto, resolvi tentar emitir sozinha um sinal de fumaça. Se todos na tribo conseguiam, porque não eu, pensei. Preparei uma fogueira e, usando de nossa rede, consegui fazer a fumaça. Até aquele momento, fique bem claro, não existia a idéia da descoberta de uma terra, existia a vontade de conhecer o mundo através das pessoas que nele habitam. E sobre esta terra, eu até sabia de sua existência, como eu sei que há uma floresta lá do outro lado, mas nunca fui lá. Só sei porque já ouvi dizer.

O que eu queria? Eu queria algo que não sabia o quê, mas estava junto a estas pessoas do mundo. Queria descobrir algo que não sabia como nomear. E foi, então, que o sinal foi emitido com precisão. O problema, pensei, era que os sinais de minha tribo não são muito difundidos além dela. Quantos poderiam traduzir os meus sinais feitos através da fumaça? Poucos. E quantos destes estariam olhando os ceús com também uma fogueira acesa para responder. Pouquíssimos. Porém bastava um vê e responder. Foi o que aconteceu, o meu sinal foi visto e respondido. Ficamos eu e um “nativo” conversando sobre o mundo e nós. E mesmo nossos sinais tendo pequenas diferenças, conseguimos nos comunicar, falar dos nossos mundos.

Durante meses estes contatos foram feitos, até que um dia eles não bastavam. Eu não queria mais saber do mundo, e não queria saber da outra terra, queria saber daquela outra pessoa que estava do outro lado do “pará”. Quem era aquele nativo que me fazia perder o sono na mata, buscando as mensagens vindas do céu? O que fazer se ele, o emissor e receptor do sinal, estava do outro lado das águas. Como índia de família, minha mãe dizia, eu deveria ficar esperando o nativo sair de lá e chegar aqui, descobrir a mim e a minha terra. Poderia eu, índia Iratembé, esperar quieta, como minha mãe aconselhava?

Postado originalmente em 21/01/2005

Esqueçam nossos livros. Eles, ao ouvirem esta história, irão se jogar na fogueira acesa no meio da tribo. Proteja-os, mas atentem os ouvidos para ouvirem esta história. A história da reinvenção do descobrimento, o Descobrimento de Portugal. A partir deste momento, eu, índia Iratembé, contarei a história deste descobrimento que aconteceu de modo lento e gradual. Alguns certamente protestarão, como um descobrimento pode ser lento; descobre-se e pronto. Acalme-se, pessoas de minha tribo. Uma coisa de cada vez. Esta é a hora apenas da introdução, como eu prometi. O que eu posso adiantar é isso. E a partir dos próximos posts responderei as perguntas que certamente se perguntam. Como foi este tal descobrimento? Quando? E quem descobriu esta nova terra velha? Por hoje, o que posso dizer é: sejam bem-vindos!

Postado originalmente em 15/01/2005

Seele aguarda calmamente com os olhos enfiados num livro. O espaço empoeirado estava vazio. O último cliente que viera comprar jornal saiu há vinte minutos e quase podia imaginar que mais nenhum entraria, pelo menos com a intenção verdadeira de ler apenas jornais. Aquela livraria especializada em papéis vagos, era pano de fundo para encontrar livros que mais ninguém tinha. Livros originais, escritos pelos autores originais, não colagens de trechos assinadas por um copi que se dizia dono daquele trecho com aval de seguidores que espalhavam a sua “autoria”. O que isso tinha de rebelde? Para ela, nada. “A rebeldia era esclarecer o conhecimento quando ele já não pertencia a ninguém”, dizia Edgar; e Edgar sumiu sem dizer para onde.

Enquanto mergulhada em pensamentos e olhos enfiados nos sonhos estava, alguém observava por entre os vidros velhos embaciados, mas Seele não percebeu nada além dum pequeno sentimento que contraía o coração na esperança que Edgar aparecesse e lhe dissesse o que fazer. Em vez disso, abriu a livraria como de costume a fim que cada novo encontro pudesse arrancar algo do único encontro que não podia almejar.

“Ele comprou dois livros tão não-importante que este fato em si era de se estranhar”. Talvez a compra não estava relacionado com o desaparecimento em si, mas ela não conseguia chegar a esta conclusão, pelo menos não ainda. Antes ficava ali parada a espera que a coisa se solucionasse e ele lhe dissesse o que fazer. Era ele o esperto, ela só conseguia ler o que nas linhas estava, simples era. “E o clube? O que aconteceria ao clube agora que ele não mais o controlava”. Teve arrepios. Sabia que a outra parte era incapaz de controlar – e mesmo incitaria – o grupo. As ideias de libertação seriam recolocadas, seríamos descolonizados a força. Seele treme só de pensar na possibilidade, porque neste momento muitas coisas mudarão, e apesar do desejo de aventura dentro dela, não sabia exatamente se a mudança seria boa ou má.

Tão compenetrada estava nas suas ideias que não reparou no homem que tinha entrado na loja e olhava com atenção a ela. Também não reparou ele se aproximando. Só deu pelo encontro quando esbarrou com os mesmos olhos que tinha visto no mercado na noite anterior.

O chefe de Alexandre, um homem de idade indefinida apesar dos cabelos a rarearem, informou-o sobre o desaparecimento dum estudioso. Aproveitou, em seu tom de voz calmo e seco, para dizer que o contacto que J. tinha dado provavelmente o levasse aos criminosos. A história parecia simples: pesquisador de línguas é morto por elemento que frequentava o grupo. Alexandre aproveitou para perguntar ao seu chefe o último local onde a cidade vira o homem. Entretanto, soube perplexo que estas informações não estavam disponíveis. De cara, achou muito estranho o comunicado dum desaparecimento. Com todos conectados com a cidade, a probabilidade disto acontecer era de tal modo impossível que somente aconteceria se alguém escolhesse viver na clandestinidade, o que não fazia sentido nenhum, ainda mais a um pesquisador, elemento vital à cidade.

“Aproveite o contacto que J. deu”, “Mas e esta história de levante que o J. disse, não faz sentido algum. Foram eles que escolheram a nossa intromissão nesta cidade. Estamos aqui para lhe dar segurança”. “Este desaparecimento e o levante parecem estar conectados, ou não, mas você sabe a língua deles e J. não, então você assume o caso, estamos entendidos.”

Em vez de vigiar os muros, como tinha sido programado para aquela manhã, dirigiu-se a estação das cobras, a última do círculo central do eixo noroeste-sudeste. Ali não deixou de se encantar com o prédio baixo, mas ultramoderno que o lembrou a sua própria cidade. Estava cansado da vida, do lugar e de sua monotonia quando viu um anúncio recrutando pessoas para introduzir um novo estilo de vida àquela concessão. Ansioso por um novo trabalho e uma nova terra para explorar candidatou-se a tarefa. Foi logo chamado já que tinha ao seu favor, pelo menos naquele momento, o fato de falar a língua antiga, mas isso mostrou-se desnecessário porque ele nunca a falava na totalidade, apenas se precisasse entrar no mercado, mas não gostava de estar com aquelas pessoas. Fazia dez anos que ali morava. Porém, ultimamente sentia uma necessidade grande de ter a sua própria terra, como se aquela, já tendo pertencido a outra gente, não pudesse ser sua.

No buraco do metro, pessoas entrando a la executivos de sucesso. Nenhum mal-estar, nenhum mau elemento ali se encontrava. Só pessoas se dirigindo para o trabalho. Se fechasse os olhos e se lembrasse, veria que nada ali se diferenciava da sua própria terra e se sentiria bem. Entretanto, desagradava-lhe o fato de entrar no único recanto que ainda o fazia lembrar que aquele não era seu lugar. Antes ficasse aguardando a passagem daqueles que moravam fora dos muros, dos desprestigiados que não tinham lugar para ficar ali na cidade e tinham que subir morro acima.
Entra no vagão, pessoas lêem, outras pensam e outras observam a inexistência de paisagem lá fora. Ele, ele olha as pessoas. Pessoas como ele e que se transformaram quase num deles.

O metro chega a estação oceanus, Alexandre observa as cameras escondidas pelo vagão, e imperceptivelmente empina o peito. Lembra o encontro de ontem, tenta adivinhar porque pessoas insistiam a falar numa língua que não existia, numa teimosia sufocante, quando tudo estava disponível ao teclar dos dedos. Continua a sua observância, mas não das pessoas, mas do caso. Professor de renome desaparece, como se fosse possível passar com um chip por receptores e não ser identificado e visto, mas ele conseguiu isso. Por que queria ou foi forçado a isso? Era isso que queria saber e foi pensando nisso que ele chegou a estação do mosteiro onde um grande grupo de passageiros desceu. Encosta-se na porta e vai relembrando todos os acontecimentos da noite anterior. Tenta lembrar o rosto da jovem, mas não consegue. Nada nela lembrava coisa alguma, suscitava qualquer emoção, com exceção daqueles fios de cabelos que caíam na testa. De resto, de nada se lembrava.

Desce a estação do corredor cultural e vira numa pequena rua a esquerda, beirando mais prédios antigos, mas estes conservados. Caminha pelas ruas estreitas coberta da mistura de prédios de diferentes tempos e estilos e grandes lojas comerciais frequentadas pelos mais cools. Entra numa pequena travessa a direita, em direção a livraria indicada no dia anterior.

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