
em terra estrangeira
Ela sobe as escadas e começa a arrumar os quartos enquanto as folhas amareladas lá fora caem. Continua seguindo esta vidinha sem importância, pensando no jantar das crianças. Talvez devesse ler o livro que pegara na biblioteca. Olha o relógio do microondas e percebe que elas estão chegando. Vai ao banheiro, sente-se pesada e cansada, quiçá se a semana passasse… Vivia disso, uma semana seguindo a outra, exatamente igual, até o momento da liberdade esperada. Quando ela chegaria? Leia Mais.
em terra estrangeira ii
Corria sem destino, almejando chegar a lugar algum. Olhava a paisagem em volta e se achava personagem dum quadro onde a musa morena não se encaixava aquelas árvores coloridas em volta, aquele ar, aqueles carros. Seguia. Como tinha que ser, estava feliz. Não aquela grande felicidade de cegar os olhos ao que acontece ao redor, mas normalmente feliz. O dia estava bonito, até onde era bonito no inverno com aquelas nuvens todas. E caminha, corre, presenteia-se. Leia Mais.
um dia qualquer em terra estrangeira i
Ela acorda. Com o cabelo em desalinho e com os olhos ainda fechados vira-se para o outro lado da cama. Respira e o quarto parece impregnado de raios primaveris que timidamente penetra a persiana clara. Veste um pijama velho de flanela, meio fubento. A palavra fubento lembrou-a uma outra vida. Ela relembra. Vira-se mais uma vez dando costas à janela. Puxa o edredon e cobre a cabeça numa tentiva de esquecer que o dia começava. Por baixo finge que ainda dorme, espera o momento de ser acordada por ele. Um momento dura a espera; sabia que ele não estava. Quando percebe a loucura de imaginar, volta-se para a janela. Perdeu a vontade de continuar dormindo. Leia Mais.
um dia qualquer em terra estrangeira ii
Lembrou-se que tinha um encontro de chuva. Chamou-o assim porque gostara da sonoridade. Além disso combina com aquele lugar onde a chuva participa de cada momento. Adentra sem pedir licença. Mistura-se a roupa, gruda o cabelo à cabeça e confunde-se com a alma. Ela sente que a chuva e ela tornavam-se uma só. Ela liquefazia-se. Ambas pareciam fazer parte de qualquer acontecimento ao redor, desde o nascimento das flores até a morte das pessoas. Leia Mais.
um dia qualquer em terra estrangeira iii
Dirige atentamente pelas ruas do subúrbio. Ruas vazias. Parecia um lugar fantasmagórico com grandes casas coloridas, imensos jardins sem brilho por causa do inverno que prolonga-se. Ninguém ao redor passeia sob as nuvens cinzentas. Todo o lugar era silêncio. Leia Mais.
o fim dum dia qualquer em terra estrangeira
Encontra-se num estado mental confuso entre o sono que chegara cedo e os pensamentos que insistiam em atormentá-la com a pergunta, por que ele ligou? Tenta concentrar-se em outra coisa enquanto apaga a luz do quarto em tons de creme com quadros de motivos orientais. Bonito quarto, mas nunca escolheria aquelas flores secas para enfeitá-lo. Secas como sua alma, as flores apenas ressalta que ali não é o seu lugar. E onde é? Leia Mais.
o sonho num fim dum dia qualquer em terra estrangeira
Está sozinha paralizada pelo medo de suas impossibilidades. Quer mais, mas não consegue mover-se. Presa a mercê do vento e da chuva, não consegue chegar a conclusão alguma porque o problema era insolucionável. Cala-se. Leia Mais.
solidão em terra estrangeira i
Suspira aos muitos enquanto coloca a roupa na máquina de lavar. Sua vida se resume a suspiros e os espaço entre um e outro, vazio. Roupas para lavar, comida no microondas, louças na lava-louças, trocar roupa de cama: uma vida não pode ser isso. É os suspiros e aqueles pensamentos que o ocasionavam. O último veio duma pergunta que cruzou seu cérebro inesperadamente. “Por que não reconstruía sua vida naquele lugar?” Leia Mais.
solidão em terra estrangeira ii
Cansada, todos seus neurônios continuam parados por falta de alguém com quem compartilhá-los. E a primavera, sua companheira, fora embora e a deixara cinzenta e carregada. Deixara de ser livre como a água. Fora aprisionada. Leia Mais.
solidão em terra estrangeira iii
As nuvens cinzentas não foram suficientes para barreirar o sol. Pelo menos hoje ele sorri e faz companhia a ela que acha-se heroína duma história muito estranha, sem diálogo algum. Procura nela mesma apenas um indício duma conversa real e não aquelas que moram nas lembrancas ou na imaginação. Não conseguiu. Lembra da conversa cortada pela empresa telefônica. Foi ao meio e ela não conseguira telefonar mais uma vez. Depois disso entrara naquela mau-humor rotineiro que piorara com a falta de alguém a quem telefonar. Leia Mais.
preparando-se para invadir a terra estrangeira i
Está muda. Pega o casaquinho para aquecê-la naquele fim de noite. Senta na cama e olha pela janela a paisagem em verde-clara. Apesar de entediada sentia um medo grande de abandonar a conhecida paisagem lá fora. Viver um outro mundo, mesmo aquele ao qual fora acostumada, parecia-lhe impossível. Asfixia-a este novo mundo somente de o pensar. Leia Mais.
preparando-se para invadir a terra estrangeira ii
Deita-se. É hora de dormir. O céu está escuro com estrelas brilhantes. Ela parara com a cabeça inclinada sob o travesseiro a olhar a paisagem escura. Às vezes parecia entrar em transe ou parecia dormir. De repente abria os olhos calmamente, estava apenas pensando. No que ela pensa? Em tantas coisas… coisas como a sua vida. Ela reflete-me, criador e criatura juntos. Àquela hora ouve-se apenas o silêncio inquietante da casa. Leia Mais.
preparando-se para invadir a terra estrangeira iii
A noite tivera um sonho estranho. Sonhara que ligava, mas alguém – não conseguia reconhecer a voz – estava ocupado demais para atendê-la. “Liga amanhã”, foi o que dissera. A imagem não era clara e agora tentava calmamente descobrir se era criação ou lembrança. No sonho ela falara adeus antes de emudecer. Fraquinho fora o adeus antes de desligar o telefone e chorar. Tinha a sensação que não fora a primeira vez. Não, não era sonho. Lembra-se neste momento. Leia Mais.
saudades na terra estrangeira invadida i
Sente-se. O sol brilha no céu, cega-lhe os olhos. A brisa afaga seus cabelos. Ela é real. Caminha pela praia solitária, mas sente seu coração encher-se como a muito tempo atrás. É toda sentimento. Lembrar ela e ele enche-lhe de saudades. Quase tocava-o. Esperava num caminhar mole, o tempo. E hoje ela é preguiçosa como ele e feliz ao mesmo tempo. Hoje não tem pressa. Leia Mais.
saudades na terra estrangeira invadida ii
Um pássaro cruza o céu brilhante e relembra-a o mundo e ele. Quando finalmente ele iria buscá-la? Já está farta de viver só e a pensar nele. Ele dissera apenas um pouco mais. Lembra-se que tivera um acesso curioso de fúria, desapontamento e abandono. Desistiu de todos, tudo, até das palavras. Aos poucos o desapontamento foi virando apatia e a fúria acabou. Não vivera, sobrevivera aos dias. Porém ela retornou, cansou daquele quarto. Naquele momento em que disse um pouco mais, a fúria a libertou. Agora é a saudade e a esperança que a fazem feliz. Sente-se diferente. Voltou a ser ela. Leia Mais.
saudades na terra estrangeira invadida iii
Sente-o quando os cabelos são alvoroçados pelo vento. Fechar os olhos e sente os lábios dele docemente, vorazmente nos dela. Como precisava dele apenas ali ao lado. Não o quer mais porque precisava dele para ser feliz. Quer-o. Precisa da companhia dele que percebe-a mesma sendo duma simplicidade e complexidade absoluta. Era aceita. Leia Mais.
saudades na terra estrangeira invadida iv
Neste tempo mergulhou profundamente em descobrir-se. Cada pedaço dela fora devastado por ela. Entrara em profunda comunhão com as coisas ao redor. Fora por isso que se apegara ao quarto, ao jardim, a paisagem verde-clara. Agora está livre, mas precisa comunicá-lo. Agora que libertou-se, percebeu que precisava falar, mas por razões técnicas não conseguia. Leia Mais.
despedindo-se da terra estrangeira i
Está de mau-humor. Amanhecera bem, pensara nele, mas aos poucos a falta de comunicação fora a contaminando. Agora se sente inadequada novamente. Ouve vozes barulhentas chamando sua atenção. Cala-se. Era um nervosismo estranho. Acabou o tédio, mas esta indefinição a incomodava. Vive-a. Também esperou que ele ligasse, mas ele não ligou. Leia Mais.
despedindo-se da terra estrangeira ii
É a hora, percebe sentada num banco observando o jardim. Depois do encontro com o mar e da redescoberta dum pequeno passado não fazia mais sentido estar sentada vendo o tempo passar. Tinha feito as malas. Aguarda ansiosamente o dia com o bilhete na mão. Ao mesmo tempo acha que não faz sentido algum esperar quando queria ver. Então marcou um encontro. Leia Mais.
despedindo-se da terra estrangeira iii
A casa vazia. Apenas ela e as malas no meio do quarto vazio. Sem nada a fazer, a não ser esperar, ela observa o jardim pela última vez naquela que fora a prisão dela mesma. Aguardava apenas a liberdade com a mala na mão enquanto olha o triste jardim – verde, florido e triste. Uma tempestade parece se aproximar deixando o céu negro. Parece que o mundo quer impedi-la de abandonar a terra estrangeira, mas era tarde. Ela necessitava partir. Leia Mais.
despedindo-se da terra estrangeira iv
Fica em frente da casa a espera do carro que virá buscá-la. A todo momento sente olhos a espreitá-la. Olhos que a inquirem, a separa e a junta do modo que desejava. Sente-se sufocada. Olha ao longe, cadê o carro? Procura-o enquanto sente os olhos a pousar nela. Qual será a hora em que eles perceberiam que ela mentiu? O coração dela aos pulos, a garganta apertada e a voz fraquinha, todos a espera. O carro chega. Leia Mais.
entrando em terra estrangeira i
Desde que levantou vôo, tinha a impressão que ia a lugar nenhum. A imagem daquele lugar deixado, era fraca e lembrava apenas algumas fracas vozes. Ao seu redor, as pessoas falavam diferente línguas e ela compreendia todas. Era como se fosse ao mesmo tempo moradora de todos os lugares e nenhum ao mesmo tempo. Agora os compreendia. Leia Mais.
entrando em terra estrangeira ii
Quando chegou em solo estrangeiro seus olhos foram cegados pela luz. Era um dia tão claro, mesmo inverno, que teve medo. Seu corpo não está acostumado a tanta luz. Sai do avião. Espera a bagagem enquanto bate a ponta dos pés no chão; um vai-vem para o alto e para baixo que planeja acalmá-la. Como será recebida? Leia Mais.
entrando em terra estrangeira iii
Está no apartamento. A chegada foi feliz. Eles lá a esperavam e ela pode então abraçar cada um deles e demorou os aproveitando. Depois foram almoçar juntos. Ela não mais lembrava deste sentimento de felicidade por estar entre pessoas. Falou. Eles fizeram milhares de perguntas e ela respondeu-as. Porém com exceção destes momentos onde era exigido uma resposta, permaneceu calada escutando. Sorria. Leia Mais.
a vida em outra terra estrangeira
A outra, que a conhecia desde gente, estava certa. Passado o primeiro momento de felicidade, a terra estrangeira a contaminou. Não do modo apático da antiga. A nova a deixava nervosa, andando de lado a outro pelas ruas tumultuadas. Entre a solidão da casa vazia e das ruas cheias pouca coisa mudou. Encontrava-os em alguns momentos. Porém os encontros não tinham a mesma magia do primeiro. Eles já a consideravam um deles. Leia Mais.
a vida em outra terra estrangeira ii
A rua está movimentada. Milhares de pessoas do lado e a frente dela esperam o momento de atravessar a rua. Chegou a hora, todos se cruzam sem olhar-se. Depois de anos percebida como estranha, mesmo em sua terra – onde poderia ser facilmente escondida por entre os outros – não era. Talvez porque morou tanto tempo longe já adquiriu um jeito de lugar algum. Chamava atenção, mas não se importava mais. Leia Mais.
cidadã da terra estrangeira
Andava nas ruas como se fosse só no mundo. Entrou no cabeleireiro e raspou o cabelo. Suspirou enquanto andava nas ruas cinzas. Chegou em casa, comeu comida requentada e desejou que o telefone tocasse. Queria escrever alguma coisa, mas não tinha idéias. Estava branca delas. Também, era exigido dela a todo o momento idéias para vender aquela roupa, ou aquela bolsa, ou aquele amor. Até amor ela vendia ultimamente. Vendia, mas não o sentia. E alguém o sente? Perguntava-se. Leia Mais.
cidadã da terra estrangeira ii
Andava pela rua apressada e não pensava em mais nada. Esquecera das flores, das montanhas e dos jardins. Parecia que aquele tempo não tinha se passado com ela. Chegando a cidade, tornou-se um deles. Pelo menos aparentemente, porque se olhássemos cuidadosamente perceberíamos que ela ainda guardava seu talento para falar com as coisas. Se não eram com o jardim, era com as coisas que encontrava pelo caminho. Leia Mais.
em busca de sua terra
Estava pronta para a resposta. Por isso, discou o número que sabia de cor. Fazia tempos que ao ligava e mesmo assim ainda lembrava o que a verdade nuca tinha esquecido. O número sempre esteve a lhe rodar a cabeça, dizendo-lhe que a paz só chegaria quando a resposta fosse dada. Leia Mais.